Os feminismos na “imaginação sociológica masculina”

Por Raphael Lebigre

Cinco dias após o Dia Internacional da Mulher, no dia 13 de Março, ocorreu no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ (IESP) o primeiro seminário sobre o Feminismo. Isso só foi possível graças à articulação do “Coletivo Feminista”, composto por alunas da casa. A mesa: “Feminismo como crítica acadêmica, social e política” contou com quatro professoras: Anna Marina Barbará Pinheiro (UFRJ), Enara Echart (UNIRIO), Maria Elvira Diaz Benítez (Museu Nacional – UFRJ) e Verônica Toste (FACHA).

Maria Elvira Benítez iniciou a palestra apresentando a contribuição das mulheres na Antropologia. A antropóloga introduziu sua pesquisa, fruto de um doutorado no Museu Nacional sobre os filmes de pornografia feminina no Rio de Janeiro. Nela, a pesquisadora absorve dois tipos de feminismo influentes nas ciências sociais: o “interseccional”, aquele voltado, em geral, ao gênero, raça, classe; e o “prósex”, que consiste nos prazeres sensíveis subjetivados da mulher. Ambos os temas, segundo a doutora, não seriam novos, pois foram introduzidos em meio ao advento das guerras de independência nos países do “terceiro mundo”. No hemisfério Sul, as mulheres dos países colonizados, oriundas de um contexto de desigualdade não somente de gênero como racial e político face às metrópoles, teriam influenciado profundamente os estudos sociais sobre as mulheres do Norte Atlântico. No caso de sua pesquisa, Maria Elvira chegou à conclusão que as mulheres atrizes em filmes pornôs heteronormativos, muitas vezes, para além das necessidades financeiras, sentiam a necessidade de mostrarem-se como “super fêmeas”. O pornô consistiria, desse modo. sumariamente, em uma ressignificação das alternativas sexuais para as mulheres.

Anna Marina Pinheiro, professora da UFRJ, ficou responsável em introduzir os trabalhos feministas nas Ciências Políticas. A pesquisadora problematizou a lacuna que a disciplina possui em não reconhecer o lugar do gênero feminino na produção de conhecimento sociológico como um todo e propôs, de encontro a isso, esboçar um breve histórico da teoria política do protagonismo feminino. O feminismo enquanto movimento político teria surgido no processo revolucionário europeu, no século XVIII, com o “feminismo liberal”. Corrente política defendida principalmente por Mary Wollstonecraft e Marie Gouze, escritora da “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã”, em 1791. No século XIX, além de John Stuart Mill, que também convergia com a necessidade de voto das mulheres, houve o “feminismo socialista”. Ideia surgida com Marx e Engels e seguida por Flora Tristã, C. Zetkin e A. Kollontai, que abriu o caminho para uma epistemologia feminista, levando-se em conta sujeitos do socialismo real. Além das últimas, como referência teórica, Pinheiro reconheceu, no século XX, a importância de Simone de Beauvoir, seguida de Saffioti no Brasil; e por fim Rosa Miralo, a maior feminista, segundo a palestrante, de nosso país, autora cuja vasta bibliografia e vida pessoal estão sendo pesquisadas, atualmente, pela cientista política.

Enara Echart apresentou o feminismo nas Relações Internacionais. A pesquisadora destacou como até os anos 1990, tal área de conhecimento, por ser supostamente “neutra”, ignorou o desempenho das mulheres. Assim como Maria Elvira, a pesquisadora salientou como os estudos sobre gênero do Sul Global contribuiu para inverter a hierarquização intelectual dos homens sobre as mulheres. A internacionalista pincelou a presença das mulheres em três temas centrais no campo. No “conflitos e violência”, elas tenderiam a aparecer como vítimas e sem capacidade de agência em contextos de guerra civil. Em “gênero e desenvolvimento”, mostrou-se como as mudanças estruturais de países se relacionam com a situação das mulheres e inversamente, no exemplo de contextos nacionais semi-periféricos, e em transição, como o Brasil. O último, pesquisado por Enara, “gênero na economia global”, leva em conta a atuação das mulheres nas bases produtivas nacionais. Através de dados da CEPAL, de 2014, a palestrante mostrou como na América Latina há 20% a mais de homens empregados do que as mulheres.

Por fim, a professora Verônica Toste abordou o papel da mulher na Sociologia. Ao citar “a imaginação sociológica” do autor estadunidense Wright Mills, a socióloga provocou como a área de humanas, em geral, possui uma visão machista e centrada no Norte Atlântico. Ainda, apontou que a diferenciação das áreas de estudo promoveria obstáculos epistemológicos e metodológicos para incluir o estudo sobre gênero. Como proposta alternativa, Toste apontou a necessidade de incluir a problemática da mulher em todas as disciplinas e trazer mais mulheres para o campo das ciências humanas. Por essa via, tais estudos possibilitariam a construção de categorias alternativas ao machismo, preconceito internalizado por boa parte de intelectuais.

Pode-se dizer que a primeira palestra sobre feminismos representou um marco no IESP. As quatro palestrantes convergiram no fato de que embora deva haver igualdade de direitos entre homens e mulheres, isso não impede de reconhecer as diferenças entre ambos. Seguindo as palavras de Maria Elvira, “o problema não está na diferença, mas na desigualdade hierárquica entre os gêneros”.

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