Desculpe o transtorno, mas o campo científico necessita de reforma.

Por Leonel Salgueiro,

“A Ciência está impregnada com uma busca implacável por excelência.” A socióloga Hebe Vessuri, convidada nesta terça-feira para palestrar na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) no Rio de Janeiro, debateu este e outros pontos sobre a atual forma de avaliação de material científico e produção de conhecimento. O Circuito marcou presença no evento. Trata-se da aula inaugural para os alunos de pós-graduação ingressantes no primeiro semestre de 2015. De nome “Ciência, Sociedade e Políticas de Publicação”, o objetivo da palestra este ano era apresentar aos futuros cientistas os principais debates e críticas feitos à avaliação, produção e circulação do conhecimento científico, e como este contexto nos afeta diretamente.

Com a casa cheia, a apresentação do evento contou com presenças importantes, como a Vice Presidente de Ensino Nísia Trindade, o Presidente da Fiocruz Paulo Gadelha, a líder sindical Justa Franco, o coordenador-geral da área de saúde coletiva da Capes Guilherme Werneck e o pós-graduando e coordenador do projeto de articulação política de pós-graduação Hermano Albuquerque. Entre estas diferentes apresentações de boas-vindas aos alunos, vale ressaltar as palavras do aluno Hermano Albuquerque que lembrou seus amigos estudantes o lema do atual programa de pós-graduação (P.G), “Desculpe o transtorno, mas estamos em reforma.” Com este e com o acréscimo de ideias da professora Nísia Trindade, o assunto inicial era o de fazer repensar o papel do pós-graduando (sempre em reforma) e como este deve produzir conhecimento, dissemina-lo e causar uma melhora na qualidade de vida das pessoas. Neste sentido vale ressaltar, como salientam, a importância da crítica não somente ao campo científico, mas também ao próprio meio acadêmico e de formação desses futuros cientistas, que já são moldados de fábrica às normas e costumes de produção “mainstream”.

Após as boas-vindas aos seus cursos, os alunos contaram com a palestra da professora venezuelana, Hebe Vessuri. A professora atua no Centro de Pesquisa de Geografia Ambiental na Universidade Nacional Autônoma do México, sendo pesquisadora nível 3 no sistema nacional de pesquisa deste país e membro do corpo editorial de diversas revistas pela UNESCO. Ela tem como campo de pesquisa o estudo das ciências dos países em desenvolvimento, a internacionalização das Ciências Sociais e a interface entre ensino superior, investigação científica e outras formas de conhecimento.

A professora iniciou sua apresentação perguntando qual seria o objetivo da competição científica na atualidade. Se o objetivo é melhorar o conhecimento que se produz, como estamos acostumados a escutar, devemos nos perguntar se o padrão de melhora não está associado ao contexto mundial atual. Segundo a professora, a própria palavra “melhor” foi substituída erroneamente por “bom”, ou seja, o melhor artigo, por exemplo, não é o de melhor qualidade, mas sim o de excelência. E este é o primeiro ponto central de sua crítica; Quando não temos em mente que os indicadores foram criados para entendermos a objetividade da ciência, esquecemos que não foram feitos para medir a qualidade desta.

Neste sentido, relembrando a frase inicial deste post, a ciência torna-se uma busca implacável pela excelência. O que, por si só, gera problemas catastróficos no âmbito da produção de conhecimento científico. Quando se está a todo momento preocupado com a produção de diferentes artigos e aonde publicar (somente “mainstream” conta) a forma de produção das ideias vai contra a criatividade e a originalidade destes autores, como afirma a professora, e a quantidade supera a qualidade. A originalidade, desta forma, pouco importa.

A seguir, a professora ressaltou que esta forma de produção em revistas indexadas de excelência deve ser problematizada, ainda mais quando se concentra nos países centrais. Induz, assim, um campo de hierarquia de dois pontos, em que no topo estão as revistas centrais e na base as revistas de países periféricos lutando por seu lugar ao sol. Para os cientistas, como afirma a professora, esta pressão por uma produção constante, sob a única condição de publicação em revistas centrais de excelência, interfere nos próprios benefícios sociais. Segundo Vessuri, ser visto hoje é ser visto pela multidão correta, pelo conjunto nuclear de revistas. Logo a produção passa de um benefício do coletivo para seu crescimento ou estabilidade profissional.

A professora argumenta que com o término da Segunda Guerra Mundial e a proliferação do mercado editorial criou-se o INDEX. Assim, o padrão das revistas publicadas passou a afetar as compras das bibliotecas, que passaram a se basear neste índice por tratar-se de uma representação justa de competição científica. Publicar tornou-se desde então um investimento rentável.

Mas e quando falamos em contribuição global? Segundo a professora, “contribuição” adquire um novo significado para adequar os temas analisados aos centros mundiais. Para isso, usa-se como justificativa o fato de que países do primeiro mundo publicavam 84% dos artigos que formaram as bases de dados mundiais. Com isso, entendemos que revista produz dinheiro, o “mundo” está em uma revista, logo, quem financia essas revistas? Segundo Vessuri, é esta forma de produção que entende o mundo como um norte global. Como argumenta em sua crítica, o fato dos dados serem tratados de formas iguais em todas as partes não significa que são úteis em todas as partes.

Para concluir, a autora chama a atenção dos alunos para políticas que internacionalizam sem concentrar no “mainstream”. Por outro lado, ela entende a dificuldade de reverter um paradigma tendo em vista que perdemos a possibilidade de nos estudarmos quando deixamos o outro fazer, referindo-se a visão do centro sobre as periferias mundiais. Mesmo assim, a professora demonstrou ânimo ao lembrar os alunos da política de “Open Access” na América Latina como um fator importante, pois, segundo ela, precisamos de acesso em primeiro lugar. E somente sairemos deste paradigma global se nos basearmos na inovação e não na cópia dos modelos de revistas já existentes.

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