A favor de uma Sociologia Pública

Por Raphael Lebigre,

Qual o público alvo da Sociologia? Qual sua função na sociedade?

Para responder às duas perguntas-chave, o sociólogo Michael Burawoy defende a necessidade de se criar uma sociologia pública. O artigo, intitulado: “For Public Sociology” (2005) é fruto de uma extensa agenda do intelectual em debates, ocorridos em palestras e simpósios nos Estados Unidos e outros países do além-mar: África do Sul, Inglaterra, Canadá, Noruega, Taiwan e Líbano. Ambos pertencentes aos dois hemisférios do globo.

 O que seria uma sociologia pública? Segundo Burawoy, o projeto reside em tornar a atuação sociológica privada em pública, para tecer as  conexões orgânicas dos sociólogos com a sociedade.

A sociologia pública seria composta por dois tipos: a primeira é a “tradicional”, no exemplo dos sociólogos que escrevem artigos em jornais de opinião ou até científicos sobre assuntos de importância pública. Apesar de sua relevância, nela o público não pode ter um retorno de destaque, pois não constitui um movimento sólido de interação. A “orgânica ”,  por sua vez, consiste naquela em que o sociólogo trabalha em conexão íntima com um público adversário, que participa diretamente no diálogo. Como exemplo, tem-se sociologias atuando com os movimentos trabalhistas, associações de moradia, etc.

No enlace das duas, a sociologia pública deveria ser composta pela interdependência entre a “tradicional” e a “orgânica”. Embasado em Durkheim, Burawoy argumenta que ao criar outros públicos podemos nos inserir nessa mesma esfera que age na arena política.

A sociologia defendida pelo intelectual britânico não teria como alvo uma comunidade homogênea, mas diferentes públicos. Ela envolve as discussões de vários grupos com metas e visões antagônicas, e possui como objetivo desenvolver tais interações.

Burawoy, apesar de influenciado fundamentalmente por Marx e Polanyi, importa igualmente aspectos sociológicos ecléticos, entre eles de Weber, tais os tipos ideais. Ferramentas essas que auxiliam nas premissas que movem as hipóteses do investigador. Assim, o intelectual distingue, junto à sociologia pública citada anteriormente, três tipos-ideais de sociologia: o ofício da “sociologia profissional”, ou seja, da docência e pesquisa, a “sociologia política”, aquela engajada com assuntos pragmáticos de diversos casos e a “sociologia crítica”, a que reflete de maneira crítica os fenômenos da sociedade. Os quatro tipos de sociologia seriam raízes que dariam vida à sociologia pública, cuja centralidade crítica encontra-se na sua atuação profissional e política, fundamentada na sociedade civil.

O autor não deixa de reconhecer que os vínculos entre esses tipos de sociologia não deixam de ser dificultosos, pois fazem apelo a diferentes condições de fazer ciência. Por exemplo, o saber associado à sociologia profissional está baseado no desenvolvimento de programas de pesquisa, diferente do conhecimento adquirido de clientes políticos, do saber comunicativo trocado entre sociólogos e seus públicos, que por sua vez difere dos fundamentos da sociologia crítica, voltados para espaços mais fechados de produção de conhecimento.

Porém, o cientista social britânico enxerga dois entraves para a mesma. O primeiro está voltado à divisão do trabalho interna da sociologia. Hoje bastante individualizada e isolada da esfera social. E o segundo aos “campos de poder” que revestem a última, elemento incorporado da sociologia de Pierre Bourdieu. Isto é, um local de forças em disputa por uma hegemonia de poderio.

 Para transpor as dificuldades inerentes a cada uma, o sociólogo defende que é preciso, apesar dos conflitos entre comunidades sociológicas, lutar a favor de um comportamento comum por parte de cada público que reconhece a validade dos quatro tipos de sociologia.

Na prática, por exemplo, uma pessoa não deveria ser necessariamente socióloga publica para contribuir com a sociologia pública, poderia fazê-lo sendo um bom “profissional”, “crítico” ou “sociólogo político”.

Entretanto, as relações entre as quatro sociologias variam no tempo e espaço. Ironicamente, se o termo “sociologia pública” é uma invenção estadunidense, no viés do autor em outros países ela seria, contrariamente ao país Norte Americano, a essência da sociologia, como na África do Sul (até 1990), Noruega e França.

 Mesmo assim, nos Estados Unidos ela compõe uma pequena parcela da sociologia. No solo em que Burawoy leciona, apesar de haver o maior número de graduandos em sociologia no mundo, com cerca de 25.000 alunos por ano, a força da sociologia profissional está concentrada na pesquisa dos departamentos no topo do sistema universitário. Quanto aos níveis subalternos da educação superior, a sociologia pública possui importância maior, mas infelizmente encontra-se menos visível.

Apesar de não ser citado, vale destacar que os Estados Unidos possuem, segundo o “National Poverty Center”, 15 % de pobres http://npc.umich.edu/poverty/#2. Se no país do “Tio Sam” reside a sociologia hegemônica do globo, Burawoy reconhece no local a necessidade de retirar da disciplina científica sua cortina fictícia da universalidade, sem deixar de reconhecer o caráter genuíno da sociologia nacional. Na luta contra o recuo da esfera pública, arregimentada pelo neoliberalismo, o cientista social sugere uma agenda de diálogo entre a sociologia pública estadunidense com as do Sul Global e da Europa.

Por fim, o intelectual foi ex-presidente da ISA (2006-2010) (“International Sociological Association”) e membro da ASA (“American Sociological Association”), instituição que incentiva, desde 2005, a concessão de prêmios em reconhecimento a divulgação da sociologia através do jornalismo virtual, como em blogs.

Não à toa, graças ao apreço do Circuito Acadêmico com a sociologia pública, Michael Burawoy nos brindou com um discurso surpresa de estímulo quando o site foi criado, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, no dia 27 de Maio de 2014.

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