Por uma ruptura epistemológica nas ciências sociais

Por Edmar M. Braga Filho

A matriz prática que dá origem ao surgimento das ciências sociais é a necessidade de ‘ajustar’ a vida dos homens ao sistema de produção”. Em seu artigo Ciências Sociais, violência epistêmica e o problema da “invenção do outro”, encontrado no livro organizado por Edgardo Lander, A colonialidade do saber : Eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas, o filósofo colombiano Santiago Castro-Gómez relaciona o projeto de modernidade instituído na Europa a partir do século XVI ao colonialismo e ao surgimento das ciências sociais. Para o autor, a epistemologia deste ramo do saber está intrinsecamente ligada a processos excludentes e legitimadores de dispositivos disciplinares.

Na sua crítica epistemológica, o autor começa explorando o significado de “projeto de modernidade”. Para o autor, este seria a “tentativa fáustica de submeter a vida inteira ao controle absoluto do homem sob a direção segura do conhecimento”. Ele identifica Bacon como o grande profeta desta tentativa, uma vez que para este filósofo a natureza seria a grande adversária do homem, tendo, desta forma, que ser dominada e domesticada. Castro-Gómez fala da centralidade da ciência e da técnica neste processo, associando-o ao “desencantamento do mundo” weberiano. Esta racionalização do ocidente teria como instância central o Estado Moderno. Além de possuir o monopólio do uso legítimo da violência, o Estado dirigiria racionalmente a vida dos indivíduos, estabelecidos cientificamente de antemão.

Citando o sociólogo Immanuel Wallerstein, Castro-Gómez chama a atenção para o fato de que as ciências sociais são constitutivas ao processo de formação do Estado-Nação, uma vez que “era necessário gerar uma plataforma de observação científica sobre o mundo social que se queria governar”. Algumas exigências para essa formação seriam: a reestruturação da economia segundo uma economia colonial, a legitimação política e a identificação do caráter e dos valores peculiares de cada nação. Neste contexto, as ciências sociais “ensinam quais são as ‘leis’ que governam a economia, a sociedade, a política e a história.” Já o Estado definiria “suas políticas governamentais a partir desta normatividade cientificamente legitimada.” Paralelamente, temos a “invenção do outro”, através da tentativa de criar perfis de subjetividade coordenados pelo Estado. No processo de invenção de outredades, está implicado a atuação de dispositivos de saber/poder.

Esses dispositivos incluiriam manuais de civilidade, constituições e gramática normativa. O autor faz um paralelo com Weber e Elias, sociólogos que associaram o processo civilizador ao auto-controle e à repressão dos instintos. Tais dispositivos selecionariam perfis adequados para o projeto de modernidade. O modelo ideal seria, desta forma, o homem branco, pai de família, católico, proprietário, letrado e heterossexual. Ficam de fora do processo civilizador, ao menos no contexto latinoamericano, as mulheres, empregados, loucos, analfabetos, negros, hereges, escravos, índios, homossexuais e dissidentes. Os dispositivos de saber e poder, ao delimitarem o indivíduo apto a exercer a cidadania, exerciam uma espécie de “taxonomia pedagógica”, separando o fraque da ralé, a limpeza da sujeira, a capital da província, a república da colônia, a civilização da barbárie.

Todavia, o autor ressalta que esta genealogia dos dispositivos do saber/poder, de inspiração foucaultiana, deve ser ampliada para um contexto mais amplo. Um contexto global. Neste sentido, o autor ressalta que uma das contribuições mais importantes das teorias pós-coloniais é haver evidenciado que o surgimento dos Estados Nacionais, com todo o seu repertório ideológico, não foi um processo autônomo gerado na Europa: ele está intrinsecamente ligado ao processo de colonização. O Estado, afirma o filósofo, “não deve ser visto como uma unidade abstrata, separada do sistema de relações mundiais que se configuraram a partir de 1492, e sim como uma função no interior desse sistema internacional de poder.”

O dispositivo de poder, a nível global, materializa-se no conceito de “colonialidade de saber”, desenvolvido pelo sociólogo peruano Aníbal Quijano. Segundo este conceito, a espoliação colonial só seria possível se legitimada por um imaginário que estabelece diferenças primordiais entre colonizado e colonizador, sendo que o primeiro apareceria como o “outro da razão”, o que justificaria um poder disciplinar por parte do colonizador. Agindo internamente, através da ação de Estados nacionais de criar identidades homogêneas por meio de políticas de subjetivação, e externamente pelas potências hegemônicas do sistema-mundo moderno/colonial, a modernidade pode ser considerada como um projeto duplo.

As ciências sociais, lembra-nos Castro-Gómez, nascem no bojo deste poder colonial, e nos conhecimentos ideológicos gerados por ele. Neste sentido, ele afirma que elas foram incapazes de gerar uma ruptura epistemológica em relação à sua origem eurocêntrica. Teóricos sociais como Hobbes, Bossuet, Turgot, Condorcet, entre outros, pensaram a sociedade em termos eurocêntricos, tendo como símbolo de atraso as culturas e os povos com os quais se deparavam no processo de colonização. “A Europa demarcou o caminho pelo qual deverão transitar todas as nações do planeta”, arremata o autor.

Conceitos analíticos centrais gestados pelas ciências sociais estão intrinsecamente ligados a essa visão de mundo, baseada a exclusão do “outro”: barbárie e civilização, tradição e modernidade, comunidade e sociedade, solidariedade mecânica e solidariedade orgânica, pobreza e desenvolvimento, entre tantos outros.

“As ciências sociais funcionam estruturalmente como um “aparelho ideológico” que, das portas para dentro, legitimava a exclusão e o disciplinamento daquelas pessoas que não se ajustavam aos perfis de subjetividade de que necessitava o Estado para implementar suas políticas de modernização; das portas para fora, por outro lado, as ciências sociais legitimavam a divisão internacional do trabalho e a desigualdade dos termos de troca e de comércio entre centro e periferia. […] A produção da alteridade para dentro e a produção da alteridade para fora formavam parte de um mesmo dispositivo de poder.”

Está posto, desta forma, o desafio. Uma teoria crítica da sociedade deve primar pela tentativa de tornar visíveis os mecanismos de produção das diferenças em tempos de globalização. Uma descolonização das ciências sociais, que em sua origem constitutiva se baseou no espelhamento negativo de outros povos, faz-se mais do que necessária. As categorias binárias devem ser transcendidas. Uma ruptura epistemológica é urgente.

REFERÊNCIA

 

CASTRO-GÓMEZ, Santiago. Ciências Sociais, violência epistêmica e o problema da “invenção do outro”. in LANDER, Edgardo. A colonialidade do saber : Eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: Editora CLACSO, 2005.

"The Pigmy Earthmen at the Royal Aquarium (Farini)" (Les PygmŽes au Royal Aquarium)

Anúncios

3 opiniões sobre “Por uma ruptura epistemológica nas ciências sociais”

  1. O texto apresentado apesar de ser um resumo é muito bom e abre uma boa discussão sobre colonialidades e epistemologia, por isso acho que deveria ser disponível em pdf para facilitar o uso daquele que decidir lê-lo em lugares onde não há rede wifi. Acho, também, que a disponibilização desse texto em pdf é uma forma de descolonizar-se, estou estudando sobre esse tema atualmente e vejo na internet uma possibilidade de aumentar a consciência da sociedade quanto a nossa postura ainda colonizada. Grato pelo texto e espero continuar a ver bons textos iguais a esse.
    Ademar Albuquerque, graduando em Ciências Sociais-B, UFRN

    1. Olá, Ademar. Obrigado pelo comentário e interesse. PDF seria uma ótima ideia, mas infelizmente ainda não temos recursos para assinar e fazer a conversão. Todavia, sinta-se à vontade para, caso preferir, copiar e colar no word, colocando o devido crédito. Abraços, Ed Machado

O que você tem a dizer sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s