Questão de números (ou da falta deles)

Por Edmar M. Braga Filho

Em post anterior, a socióloga e presidente da Sociedade Brasileira de Sociologia, Soraya Vargas, afirmou que um dos impasses para a internacionalização da sociologia que é produzida no Brasil seria a nossa carência no ensino de abordagens quantitativas nas pesquisas, tanto no nível de graduação quanto no de pós-graduação. Tais abordagens seriam preponderantes nos outros países, o que possibilitaria um maior diálogo transnacional, bem como a realização de pesquisas comparativas. Essa carência é abordada pelo sociólogo e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Ignacio Cano, em seu artigo Nas trincheiras do método: o ensino da metodologia das ciências sociais no Brasil.


Origens

Cano começa seu artigo descrevendo o processo de surgimento das ciências sociais, na Europa do século XIX. Àquela época, vários processos alteravam a realidade social, causando um estado de perplexidade nos indivíduos, cada vez mais desejosos de um corpo de conhecimento que lhes tornasse toda essa miríade inteligível. “As ciências sociais foram, em suma, filhas da perplexidade perante um mundo em vertiginosa transformação”. Era esperado, desta forma, que existisse alguma ciência que se utilizasse das mesmas ferramentas que a física e a astronomia para se compreender a sociedade. O positivismo ascende neste contexto. Em termos metodológicos, ele prezava, conforme elucida Cano, três pontos: I) o monismo metodológico (um único método para todas as ciências); II) a aplicação de uma metodologia das ciências naturais aos fenômenos sociais e III) a busca por leis e de explicações causais.

Certamente, houve reações a essa filosofia positivista, como a historiografia e filosofia alemãs, encarnadas nas figuras de Dilthey e Windelband. O primeiro, como é conhecido pelos estudantes de graduação em ciências sociais já nas matérias introdutórias, fez a distinção entre as Geisteswissenschaften (ciências do espírito) e as Naturwissenschaften (ciências da natureza), reivindicando para cada uma delas epistemologias distintas. Daí derivou outra distinção, interna entre as ciências sociais, entre um paradigma que privilegia a Verstehen (Compreensão), e outro a Erklären (Explicação). Esta última estaria mais em consonância com os pressupostos positivistas de causa e efeito, como também de leis universais. A primeira, em contrapartida, estaria preocupada em entender o sentido de da ação social, envolvendo questões da ordem subjetiva, como motivação e significado.

Métodos e técnicas

O autor esboça, em seguida, a concepção de objetividade do conhecimento científico, como formulada por Weber, em que os caracteres subjetivos do pesquisador se encontrariam na escolha do seu objeto, sendo que no desenvolver da pesquisa ele deve prezar pela objetividade. A validação do conhecimento produzido também depende de parâmetros objetivos, e é aqui que entra a metodologia. “[…] independentemente de onde venha a teoria, o que lhe conferirá ou retirará sua legitimidade científica não é a sua origem, quem ou como a formulou, mas a forma como ela é validada empiricamente. É justamente a metodologia que se apresenta como o guardião desta validação.” Aqui se encontra a sua importância no quadro das ciências sociais.

O autor chama atenção para o fato de que o binômio anteriormente citado “Explicação x Compreensão” abriu margem, embora sem conexões lógicas necessárias, para duas abordagens supostamente distintas de se realizar a pesquisa social: uma composta por técnicas mais quantitativas, a outra por técnicas qualitativas. Ele diferencia, assim, técnica de metodologia. Esta segunda estaria relacionada a termos mais gerais e epistemológicos, como Metodologia Indutiva e Dedutiva, por exemplo. Já técnicas se referem ao arcabouço do qual o pesquisador pode fazer uso no decorrer de sua pesquisa. É no âmbito das técnicas que há a distinção entre abordagens quantitativas (estatísticas, surveys, cálculos, programas de computador), e qualitativas (entrevistas de profundidade, etnografia, observação participante, história de vida). Todavia, ele afirma que elas não são opções contrastantes, mas complementares.

O autor diagnostica um preconceito sobre as abordagens quantitativas, tidas como positivistas. Preconceitos que desembocam numa relatividade do conhecimento que desprezaria padrões rigorosos de validação. Atitude esta contrária ao próprio espírito científico. Esses embates entre concepções de ciências sociais, mais especificamente no caso da sociologia, é um processo próprio de sua história, uma vez que não há um paradigma único, tal como formulado por Thomas Khun. Além da existência de vários paradigmas, eles contrastam-se veementemente entre si. É justamente o espírito atormentado das ciências sociais e a luta entre escolas e paradigmas rivais que têm alimentado o interesse no método e intensificado as disputas em torno dele.”

Ele reforça que ambas as técnicas não são opostas por natureza, e cada uma possui suas peculiaridades, que devem ser privilegiadas dependendo da demanda da pesquisa.

“A escolha das técnicas a serem empregadas deve depender, em princípio, do tema da pesquisa e do contexto em que ela será acontecerá, e não da biografia ou das inclinações do pesquisador. Nem todas as técnicas são adequadas para todos os projetos de pesquisa. É preciso conhecer as fortalezas e fraquezas de cada uma. Seria tão absurdo tentar entender as gangues juvenis urbanas que desenvolvem condutas ilegais através da aplicação de questionários de 10 minutos a uma amostra aleatória de seus membros quanto tentar predizer o resultado de uma eleição a partir de uma etnografia.”

 No Brasil

Por fim, o autor se dirige ao ensino de metodologia no Brasil. Ele reforça o fato, um tanto irônico, de que suas palavras se tratam mais de provocações e reflexões do que resultado de uma pesquisa rigorosa. Sua primeira constatação diz respeito ao privilégio que o ensino das ciências sociais brasileiras reguarda à erudição e ao conhecimento teórico, em detrimento da técnica e da pesquisa empírica. Muita importância é dada aos clássicos, esquecendo-se de que a ciência é feita, sobretudo, de pesquisas. “A preponderância da teoria sobre a prática milita contra a importância outorgada ao ensino de metodologia.” Já a segunda constatação se encontra no bojo do ensino de metodologia. O autor afirma que, quando este ocorre, priorizam-se os aspectos qualitativos. Ele critica também uma tendência entre os sociólogos brasileiros em acharem que fazem arte, e não ciência.

Sua crítica é incisiva, no contexto brasileiro, ao medo do fantasma do “positivismo”, que rondaria muitos departamentos de sociologia. Embora ninguém atualmente se denomine como positivista, há um preconceito contra quem faz uso de técnicas quantitativas, sendo assim tachado, pejorativamente. Cano sai em defesa do maior uso dos números e destas técnicas, contestando esse preconceito existente. Ele remonta, ironicamente, aos clássicos, argumentando que estes faziam abordagens quantitativas em seus trabalhos, como Karl Marx e Émile Durkheim.

Referência

http://seer.ufrgs.br/sociologias/article/viewFile/34912/22562

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