Eros e a “pureza” do conhecimento objetivo moderno

Por Raphael Lebigre,

Robin Schott, em seu livro: “Eros e os processos cognitivos” (1998), problematiza a relação entre a cognição e o erotismo na filosofia. Na primeira parte, a autora resgata os antecedentes históricos da filosofia ascética, em suas origens gregas e cristãs. Tais raízes constituíram o modelo moderno de pensamento que visa a “pureza” do conhecimento associado à “verdade”. Por fim, na segunda e última seção, a filosofa se dedica somente ao pensamento de Kant. Um dos pilares para entender as noções de “universalidade” e “objetividade”, sobre as quais as ciências sociais repousam. Este curto texto visa, portanto, introduzir a reflexão esboçada por Robin Schott no capítulo oitavo : “O tratamento da sensibilidade por Kant”.

Mesmo se Kant nega a existência da história na filosofia, Schott tem por hipótese que o paradigma de um conhecimento idealmente “puro” seria na verdade um produto sócio-histórico calcado pelas relações desiguais, entre homens e mulheres. Neste patamar, a concepção da inferioridade do pensamento racional feminino estaria associada ao conceito de “impuro”, originado desde a Grécia antiga da ideia de que a mulher, ao parir o homem, seria sinônima da vida e morte.

Segundo Schott, essa concepção purificada de sensibilidade reflete em parte a herança acética de Kant. Apesar de o pensador admitir que a receptividade empírica inclua a experiência sensível, ele rejeita o sentimento emocional como componente central do conhecimento.

Para o filósofo alemão, a sensibilidade só seria imediata no sentido analítico e não experimental. As reações afetivas não poderiam assim ter relação com a cognição, pois desnaturalizam a experiência sensível e a intuição. Se a intuição consiste numa forma isolada da sensibilidade, ela não poderia fazer referência ao conhecimento imediato do objeto.

Na intenção de discorrer com precisão sobre a filosofia de Kant, Schott introduz a proposta do mesmo:

“Uma doutrina sistemática que contenha nosso conhecimento do homem (antropologia) pode ser apresentada de uma perspectiva ou fisiológica ou pragmática (…) o conhecimento pragmático do homem em vista o que o homem faz, pode, ou deve fazer de si mesmo, como um ser que age livremente”. (1998,p.135)

A autora, de acordo com o citado acima, concebe que o projeto kantiano de criar uma Antropologia, enraizado no conhecimento “puro” e “objetivo”, na verdade estaria calcado num modelo de “homem”, cujo espelho é o do próprio Kant. Assim sendo, o estudo da natureza humana pelo filósofo alemão estaria calcado em sua própria imagem subjetiva.

O homem ideal para Kant seria uma criatura apática que prezaria pela dor ao prazer, cujo maior gozo consistiria em relaxar após o trabalho, sem paixões pela vida. Como aponta Schott, a restrição pelo filosofo alemão da sensibilidade na intuição do pensamento objetivo,  não dando margem ao afeto com o mundo externo vivido, exprime um interesse em afastar-se do real.

No viés da autora, Kant concorda com o ideal estoico da apatia, aquele em que o homem não deve dar margem aos seus sentimentos.

“A Antropologia é um quadro gráfico, não só do temperamento do próprio Kant mas também das conseqüências de sua analise da cognição. Reflete o banimento do prazer e amor que caracterizou a tradição ascética”. (1998,p.139)

Por essas palavras, segundo Schott, o empenho do pensador em suprimir a sexualidade reproduz o ideal acético de fugir da sensualidade. Kant trata a sexualidade residindo estritamente nos órgãos sexuais. Tal renuncia aos prazeres carnais permitiria controlar os fatores da existência que pareceriam ameaçadores: a incerteza da vida e a promessa de mortalidade implícita na atividade sexual, pois a mulher seria portadora tanto da vida quanto da morte.

Por fim, a filósofa denota que quando Kant defende o caráter da mulher, em contraste com o do homem, sendo completamente movido por necessidades naturais instintivas, isto seria calcado na imagem do ser feminino dotado de uma natureza de temor, fraca, exigindo a proteção e domesticação masculina. Assim, o pensamento das mulheres seria a da não razão, mas a do pensamento sensitivo, marcado, entre outros, pela emoção.

Todavia, apesar de Schott criticar pelas vias da filosofia o universalismo e a objetividade da filosofia de Kant, espelhada numa longa tradição acética e de cunho machista europeia, tal reflexão continua válida; e em específico, nas ciências sociais. Disciplina marcada ainda pela descriminação de gênero e dotada de uma narrativa hegemônica, centralizada, até hoje,  no Norte-Atlântico.

Referências Bibliográficas

SCHOTT, Robin. (1998). Eros e os processo cognitivos, uma crítica da objetividade em filosofia. Ed. Rosa dos Tempos, Rio de Janeiro.

Anúncios

O que você tem a dizer sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s