Internacionalização das Ciências Sociais – O Circuito Acadêmico no 38º encontro da ANPOCS

Por Edmar M. Braga Filho

O Circuito Acadêmico esteve presente no 38º encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS), realizado na cidade de Caxambu (MG) entre os dias 27 e 31 de outubro de 2014. O tema da internacionalização das Ciências Sociais brasileira ganhou atenção numa mesa redonda (Os desafios e a internacionalização das Ciências Sociais), que contou com a presença do presidente da ANPOCS, Gustavo Lins Ribeiro, da presidente da Sociedade Brasileira de Sociologia, Soraya Vargas Cortes, e da presidente da Associação Brasileira de Antropologia, Carmen Rial.

Tema de grande relevância na atualidade, a internacionalização das Ciências Sociais brasileira diz respeito não só à inserção e relevância de nossas pesquisas num quadro internacional, mas também envolve questões políticas, uma vez que o Brasil ocupa um lugar periférico na divisão internacional do trabalho acadêmico, dentro da geopolítica do conhecimento, conforme já foi tratado anteriormente aqui no Circuito. Os participantes da mesa apresentam pontos de vista diversos sobre o diagnóstico dos desafios, bem como lançam propostas para a sua superação.

A socióloga Soraya Vargas (UFRGS) iniciou o debate frisando três pontos a serem esmiuçados para se entender as dificuldades de se internacionalizar a Sociologia que é produzida no Brasil. O primeiro ponto diz respeito ao nascimento da disciplina no Brasil, bem como à expansão do número de pós-graduações. Em seu germe, a Sociologia brasileira esteve ligada à Ciência Política, uma vez que tratava de temas como formação e desenvolvimento do Estado-Nação. Daí a denominação Sociologia Política, comum na época. Com o tempo, temos a rápida expansão e amadurecimento da disciplina, que acompanhou a complexidade da realidade social brasileira, interessando-se por muitos outros temas. No entanto, a socióloga ressaltou a dificuldade de avaliação dos programas de pós-graduação interdisciplinares, comuns na contemporaneidade. Eles agregam muitos sociólogos, todavia recebem olhares negligentes por parte dos órgãos de avaliação, uma vez que não são devidamente classificados e avaliados.

O segundo ponto diz respeito ao ”calcanhar de Aquiles das Ciências Sociais” do Brasil: os métodos quantitativos.  A socióloga caracterizou o quadro nacional como deficitário neste âmbito, com a louvável exceção da UFMG, que se esforça no ensino de métodos quantitativos. Cortes ressaltou o fato de que essa dificuldade, por partes dos sociólogos brasileiros, possui um histórico, que está relacionado com a recusa do funcionalismo estadunidense, e sua aproximação com o Positivismo. A autora afirmou que somos conhecidos por publicações próximas ao modelo ensaístico.

O terceiro ponto está relacionado com o segundo, e diz respeito estritamente à internacionalização. Cortes ressaltou os grandes avanços que tivemos nesse quesito, através de cooperações, integrações e redes estabelecidas. Em contrapartida, ela frisou o “paroquialismo” das revistas do Norte, sobretudo as dos EUA, que publicam, em sua maioria, pesquisas de suas realidades sociais. O maior desafio se dá, contudo, com o fato de que tais revistas possuem uma orientação voltada para os métodos quantitativos, estes deficientes no Brasil. Estamos, para ela, relativamente isolados dos outros países do Sul Global, que já produzem pesquisas com essa orientação, como China e Índia. O crescimento de nossas publicações se deu, para a socióloga, principalmente em território nacional, não transpondo fronteiras.  Cortes chama a atenção, desta forma, para a urgência de uma formação que dê atenção, em seu currículo, para esses métodos. E tal processo deve começar, segundo ela, desde a graduação. Ela também afirma a necessidade de, no âmbito da pós-graduação, bolsas sanduíche para formação específica em metodologia social.

Seguidamente, Carmel Rial (UFSC) afirmou que há muito tempo a Antropologia brasileira se preocupa com a sua internacionalização, o que explica a grande receptividade de nossas pesquisas e teorias nos outros países.  Um exemplo é a revista Vibrant (Virtual Brazilian Anthropology), que desde 2004 publica artigos de vários idiomas de diversos pesquisadores do mundo. Em seguida, Rial disse que, para se pensar em internacionalização, devemos tratar de circulação, seja de pessoas, seja de coisas (livros, artigos, filmes etc.). A circulação de pessoas está intrinsecamente ligada à própria história da Antropologia, quando antropólogos partiam para terras distantes a fim de realizarem suas etnografias. No Brasil, temos o caso do cientista social Gilberto Freyre, que estudou e publicou nos EUA.  Sua teoria racial teve grande respaldo político internacional.

Já nos anos 70, tivemos a formação de antropólogos brasileiros na Europa, o que explicaria a propensão de nossa Antropologia para a circulação de pessoas, reforça Rial. Todavia, ela cita o antropólogo Peter Fry, que diz que isso ainda não se trata de internacionalização. Esta se intensifica apenas após os anos 80, quando os antropólogos brasileiros se voltam para outros países do mundo, e em que ocorre, mais recentemente, cada vez mais a “exportação” de pesquisadores brasileiros para centros de pesquisa mundo a fora.

Atualmente, frisa Rial, realizam-se vários colóquios internacionais, e a ABA ocupando um lugar de relevância internacional, configurando-se uma das três principais associações de Antropologia do mundo.  Há um interesse exterior cada vez maior de nossa Antropologia, no que tange, sobretudo, ao seu caráter engajado; como também com a capacidade que as nossas pesquisas têm de dialogar com formadores de políticas públicas.

Por fim, Gustavo Lins Ribeiro afirmou que há duas formas de se caracterizar o debate sobre internacionalização. A primeira diz respeito a uma visão conservadora de internacionalização, que foca na Europa e nos EUA. A segunda, e é a que Ribeiro defende, volta-se para o mundo como um todo. Para ele, o nosso grande problema é a criação de pontes entre diversas comunidades internacionais, principalmente aquelas que não se encontram no Centro (Europa Ocidental e EUA). Neste aspecto, ele critica o programa Ciências sem Fronteiras que, além de desconsiderar o papel das Humanidades para o desenvolvimento do país, privilegiou instituições que se encontram no Centro. “Torcicolo para o Norte”, em suas palavras.

Ele defende que devemos reconhecer a necessidade de simetria com os centros hegemônicos de produção, e não a localização um patamar inferior. Desta forma, ele elogia a atuação dos brasileiros nas associações internacionais, como a ISA (International Sociological Association). Esta tem sido uma associação que propicia um espaço de atuação de nossa comunidade, vista a partir de um país periférico. O autor ressaltou, neste sentido, a urgência de uma pós-hegemonia do Ocidente, a partir da ascensão das comunidades periféricas

Anúncios

O que você tem a dizer sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s