Os deuses estatais e sua constante vigilância aos Prometeus acadêmicos – Produtividade e as condições atuais da vida acadêmica.

Por Leonel Salgueiro,

Prometeu, titã da mitologia grega, foi punido por ter roubado dos deuses o fogo sagrado do conhecimento e tê-lo entregue aos homens. Amarrado firmemente por correntes de ferro a um rochedo inacessível junto ao mar, tinha durante o dia seu fígado devorado por um abutre enviado por Zeus para atormentá-lo indefinidamente, lembrando-o ao mesmo tempo de sua impotência face ao poder invencível dos deuses, e de sua arrogância em ter possibilitado a seres inferiores e frívolos (a humanidade) o poder de criar e inventar indefinidamente sua vida. A Filósofa, Socióloga e Cientista Política Madel Therezinha Luz compara de forma simbólica em seu artigo “Prometeu Acorrentado: Análise Sociológica da Categoria Produtividade e as Condições Atuais da Vida Acadêmicaa história mitológica de Prometeu à prática acadêmica, desde a obsessão pela produtividade até as consequências que dela se originam.

O artigo se trata de uma análise sociológica sobre as condições em que se desenvolve, na sociedade capitalista globalizada, tendo como referência o Brasil, o trabalho intelectual universitário. Mais especificamente, sobre o que é rotulado institucionalmente como produção científica.

O trabalho dá sequência ao capítulo “Fragilidade social e busca de cuidado na sociedade civil contemporânea” da coletânea intitulada “Cuidado: as fronteiras da Integralidade”.

Desde o capítulo de 2004, os autores dão importante consideração para a análise contínua do estresse, sofrimento e adoecimento dos atores, a partir da aceleração do ritmo de atividades, da instabilidade no emprego e do aumento de exigências de produtividade, que afetam na sociedade contemporânea a situação de milhares de profissionais com formação do ensino superior.

Apesar disso, a autora parte de um ponto de vista esperançoso, pois assim como Prometeu trouxe o conhecimento para a humanidade, também trouxe consigo a esperança.

Por esta esperança no futuro que a autora aponta que serão os graduandos, ou a partir deles, que virá a ajuda, sobretudo, para mudar o ritmo e os valores com que se vêm processando, considerando os danos que tais valores e ritmos vêm acarretando para a saúde física e mental de professores e pesquisadores. A autora acentua, inclusive, que tais danos repercutem também sobre a saúde de alunos e orientandos de teses, dissertações e monografias, pois o estresse continuado de mestres e orientadores acaba “desabando” parcialmente sobre os alunos,

A autora argumenta que esta mudança no modelo de produção só será possível quando houver uma certa liberdade no produzir que possibilite o surgimento do novo, com a criação, que está na origem da inovação científica, tanto quanto na arte. E essa liberdade supõe um ritmo próprio de operação, de elaboração, de avanços e pausas durante o desenvolvimento das atividades precípuas de investigação muito distinto do das máquinas, as quais vem sendo assimilada a categoria produtividade. Como lembra, os acadêmicos não são máquinas, por mais que tentem produzir e parecerem como uma.

A autora ressalta, também, que tal ritmo produtivo tem um papel mais negativo que positivo para o coletivo, quando são levados em consideração os agentes que produzem e não os beneficiários diretos e indiretos de sua produção: isto é, o Estado, as empresas, a ordem política e social. Em última instância, a própria sociedade civil. O pesquisador é avaliado pela quantidade de produtos que é capaz de extrair de seus projetos. Quanto mais produtos, maior sua “produtividade”. A pergunta que se faz é: Onde entra o outro (a humanidade) neste tipo de produção?

Como afirma a autora, é inútil acentuar que os estudiosos que podem ter outros temas a investigar, independentemente de seu potencial inovador, são praticamente excluídos da possibilidade de pesquisar, concorrendo com milhares de outros pesquisadores por uns poucos subsídios, à chamada demanda de balcão.

Reproduzindo as palavras a autora – “A burocratização progressiva da ciência, efeito colateral do processo denominado indutivo, vem se tornando uma cadeia de ferro para a produção verdadeiramente criativa e inovadora. Os deuses do Olimpo estatal mantêm o mesmo controle do abutre mítico sobre o novo Prometeu coletivo da ciência, mordendo-lhe continuamente o fígado, através da exigência dos constantes relatórios parciais e finais, das avaliações periódicas em espaços de tempo cada vez mais curtos, dos inquéritos sobre pendências contábeis referidos às vezes a uns poucos trocados imprudentemente gastos em algum lanche coletivo, ou em passagens nacionais necessárias ao desenvolvimento do projeto, ou à visita não prevista de outro pesquisador, ou casos semelhantes. A vigilância é permanente (…) Desejamos qualificar com esse termo uma produção livre, inovadora, cumulativa e comprometida com a situação social e tecnológica do país e, ao mesmo tempo, com real possibilidade de socialização de seus resultados, através de difusão ampla e democrática, sem as “cartas marcadas” dos veículos Qualis, que não passam, em sua quase totalidade, de bases catalográficas de periódicos, geralmente privadas, que nada dizem ou permitem ver da qualidade dos produtos nelas veiculados. Estes afirmam simplesmente a “excelência” (estipulada pelo índice de citações/impacto dos produtos num campo específico disciplinar) do veículo em que a produção é difundida para sua comunidade de pares. Tais bases se tornaram, em determinadas áreas disciplinares, o dogma sobre o qual repousa a classificação hierarquizada da produção dos pesquisadores e de seus programas.”

Vale ressaltar que este padrão é uma via de mão dupla, como afirma a autora, pois apesar de ser aplicado pelas instituições e cobrado pelo Estado, é incorporado por nós, que o reproduzimos. E a todo instante nos tornamos mais individualizados, e com isso a aplicação prática de nossas disciplinas que visam ao outro, que não nós principalmente, fica mais distante.

Para mudar o paradigma devemos refazer a história do titã Prometeu, livrando-nos das correntes de produção e lembrar que a chama do conhecimento demora a ascender, mas quando acesa deve iluminar a humanidade em toda sua amplitude.

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