Pierre Bourdieu e a Sociologia como um “esporte de combate”

Por Raphael Lebigre,

Pierre Bourdieu, sociólogo francês, considerado um dos maiores intelectuais contemporâneos, foi responsável não somente pela renovação profunda das ciências sociais, como também pela defesa de uma sociologia engajada na esfera pública.Isto é demonstrado, de maneira aproximada ao cotidiano do sociólogo, no documentário dirigido por Pierre Carles: “La sociologie est un sport de combat” (2002).

No longa, Bourdieu atribui à sociologia o papel da militância científica. Na intervenção do espaço público, o autor critica o discurso dominante e institucionalizado por meio do diálogo intelectual com os “agentes”, isto é, os seres sociais.

O autor francês utiliza a metáfora da sociologia como um “esporte de combate” ao formular uma teoria sociológica que tem por função desnaturalizar os mecanismos de dominação na sociedade. No viés do intelectual, a dominação social é construída através da introjeção do “habitus” dominante na sociedade, ou seja, a projeção do comportamento das classes privilegiadas aos demais cidadãos. Isto torna não somente a ordem social legítima, como também naturalizada. Em consequência, as práticas e reflexões que vão de encontro ao “habitus” dominante tendem a ser estigmatizadas pela própria sociedade.

Através do compartilhamento das ferramentas sociológicas de análise da realidade, expostas principalmente em atividades extra-acadêmicas, tais seminários e palestras, Bourdieu reconhece nos cidadãos a capacidade inovadora de mudança do presente. Por meio dos conceitos de “campo” e “habitus”, a sociedade, segundo o sociólogo, é interpretada como um lugar de luta entre agentes produtores de códigos que são orientados pelo “capital econômico” e “cultural”. O primeiro corresponde, de maneira simplificada, ao poder aquisitivo e o segundo à bagagem de conhecimento herdada pela educação.

O sociólogo, de origem familiar desfavorecida, acredita que é no aprendizado com os “outros” que a teoria sociológica está fundamentada em seus “acertos” e “erros” e ainda, que a mesma exerce sua função de provocar a capacidade de mudança dos sujeitos.

A realidade, composta por vários locais de conflito, ou nas palavras do sociólogo “campus”, é vista como uma arena de combate entre os comportamentos e práticas dominantes e o os setores subalternos. Entretanto, ao contrário, por exemplo, da postura marxista de combate, onde os valores científicos com os políticos estão intimamente entrelaçados, aqui a luta arbitrada por Bourdieu só é válida nas fronteiras do “ringue” intelectual. Neste, o lado pessoal não pode confundir-se com a profissão de cientista social.

Uma vez que o sociólogo francês demarca nesse documentário original (e também humorado) os limites do “tatame” em que as lutas sociais se dão, Bourdieu não deixa igualmente de expor a filosofia de sua “arte marcial” sociológica. Isto é, para que tal ciência possa ter eficiência “ofensiva” e “defensiva” frente à realidade, o sociólogo deveria em seu percurso de intelectual fazer uma “socioanálise”; ou seja, uma auto-análise de sua biografia singular, tendo por referência o modo pelo qual a sociedade a condicionou.

Por fim, quando o autor se enxerga como um ser social, fruto de um percurso único e movido por comportamentos compartilhados (“habitus”), a primeira “pose de ataque” pode ser feita no ringue. Nela, o intelectual reconhecerá não somente os seus limites individuais (preconceitos) como as ferramentas para superá-las. A partir desse momento, o sociólogo poderá se colocar como sujeito de uma biografia não só sua, como plural.

Este é talvez o segredo mais importante que Bourdieu, faixa preta na sociologia francesa, nos propõe para arremessar muitos adversários do “ringue sociológico”.

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