Não seja um Batom – Políticas de Permanência nas Universidades Brasileiras.

Por Leonel Salgueiro,

“O batom é algo que fica na boca. Ele chega na boca, mas ele não entra. E é necessário que ele não entre, porque se ele entrar sempre vai aparecer alguém para tira-lo. Assim é o negro, o pobre, os homoafetivos, o gordo, o magro demais e o velho na faculdade. Eles conseguem ás vezes até entrar, mas a sua permanência é muito difícil. Sempre tem alguém para tira-lo. Assim como o batom dos dentes” Este trecho foi retirado do documentário Não quero ser batom a vida toda, dirigido pela aluna de pedagogia da UFF, Eulalia Almeida e publicado em fevereiro deste ano em rede. A partir deste documentário serão discutidas hoje no Circuito as políticas de permanência e assistência estudantil que as universidades federais brasileiras têm oferecido aos seus alunos.

O documentário foi realizado com estudantes de diferentes áreas de atuação da UFF, em Niterói, em que são tratadas  situações, políticas e opiniões que estes estudantes têm e esperam para a continuidade de sua formação acadêmica.

Já foi debatido no site, pela graduanda de Licenciatura em Ciências Sociais Bruna Saldanha, as ações afirmativas, e todo o seu contexto histórico e político que você pode conferir clicando aqui. Porém, hoje serão tratadas as medidas pós-cotas. O que as universidades têm a oferecer aos alunos que ingressam em seus cursos, para que eles não optem por não dar continuidade, seja por fatores sociais ou econômicos?

A média nacional do valor das bolsas (Iniciação Científica, Monitoria, assistência e etc.) fornecidas aos estudantes de graduação se encontra em torno de 400 reais mensais. O que, como argumenta no documentário o estudante Felipe, do curso de História da UFF, não atende as necessidades básicas para sua permanência em uma cidade urbana. Na pesquisa Permanência e Assistência no Curso de Pedagogia da UFRJ, a socióloga e antropóloga Gabriela de Souza Honorato apresentou em seus dados que, em média, os estudantes bolsistas dividem a residência com 4 pessoas. 38% possuem renda salarial familiar até 3 salários mínimos, 32% de 3 a 6 salários mínimos, 27% acima de 6 salários mínimos e 2% com rendas não declaradas.

É importante ressaltar que, caso o estudante consiga uma bolsa na universidade, lhe é negado a possibilidade de exercer um trabalho paralelo remunerado, uma vez que conta como vínculo empregatício ( o que é proibido, segundo editais de alguns órgãos de fomento como CNPq, Faperj e PIBIC). Sendo assim, e levando em consideração a argumentação da autora Honorato de que para alguns a permanência depende da bolsa, voltamos a fala do estudante Felipe: Como fazer?

Em relação à moradia estudantil, como tratado no documentário, há universidades em que não é dado esta escolha, por não possuir alojamentos. E mesmo nas universidades que possuem os alojamentos, muitos se encontram em situação precária para a permanência dos estudantes.

Se analisarmos o edital das bolsas, suas atribuições são para atividades vinculadas à pesquisa, à monitoria e à contribuição com a formação intelectual do aluno. Nestas bolsas estão incluídos os gastos com xerox, transporte, livros e outros encargos, não restando espaço para moradia, alimentação e lazer.  A afirmação do estudante continua: 400 reais não mantém o aluno.

Quando perguntados no documentário sobre o que os incomoda na universidade, os alunos citam argumentos que constantemente tratamos no site do Circuito, como a individualização e a disputa no meio acadêmico, que constantemente são referidas pelo termo “panelinha”, seja por departamentos, professores ou pelos próprios alunos. Isto somente tem afastado os alunos destes campos e estressado ainda mais os integrantes deste meio. Além do distanciamento de muitos estudantes em relação ao campus universitário, há o distanciamento da produção do conhecimento e aquele que terá acesso a este conhecimento. Os impedimentos e o difícil ingresso a universidade dificultam ainda mais a produção e circulação do conhecimento no todo social.

Outro ponto de destaque são os bandejões. O que falta para algumas universidades é entregue de forma precária a outras. “Têm filas gigantescas e a comida é horrorosa. Não aguentamos mais comer carne moída e almondega. E ainda dão como desculpa de que é 70 centavos. Mas eu tenho conhecimento de comida barata e muito mais digna. Somos pobres, mas comemos direito” É a reclamação da estudante Eulalia. De fato, os bandejões são pautas principais em movimentos estudantis independente da instituição. Assim como os alojamentos, este também parece um problema constante nas universidades.

A questão do preconceito que estes estudantes sofrem é apresentado pela antropóloga e professora da UFF, Lygia Baptista Pauletto, de forma a retratar a história cultural do país. O Brasil, segundo a professora, é um país extremamente autoritário, hierárquico, excludente, assombrado por uma história colonial em que uma pequena elite dominava e determinava o que era ser gente e ter direitos, sendo nosso papel dissolver estas heranças históricas, políticas e sociais.

Assim, como afirma a estudante Eulalia, temos que matar um leão por dia, mas temos que o fazer porque se não seremos fadados ao esquecimento. Ocupamos nosso direito à universidade, mas agora precisamos nos manter e nos fixar. Lutar por nossos direitos sempre, mas esquecer de nossas raízes nunca.

Para concluir, gostaria de aproveitar a oportunidade de acesso online ao site e perguntar. Como é a universidade da qual você, leitor, faz parte? Você se identifica com os argumentos dos alunos da UFF? Têm alguma crítica ou sugestão as propostas tratadas? Deixe um comentário e vamos debater sobre o tema. Você não está sozinho. Não desista!

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