Manifesto Ciborgue: feminismo, tecnociência e política

Por Edmar M. Braga Filho

O ciborgue é nossa ontologia; ele determina nossa política”, afirma Donna Haraway, em seu instigante ensaio “Manifesto ciborgue. Ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX.” Publicado originalmente no periódico Socialist Review, no ano de 1985, o texto propõe uma nova estratégia política feminista, que se relaciona com a ciência e a tecnologia.

Recorrente não só nas ficções científicas da atualidade, mas também na medicina e na guerra, a imagem do ciborgue surge como um “mito político”. Híbrido de máquina e organismo, ele invoca, para Haraway, dois pontos: I) uma ficção que mapeia nossa realidade social e corporal; e II) um recurso imaginativo que pode desencadear uma prática política, através de múltiplos acoplamentos. Além desses dois aspectos, o ciborgue corporifica o rompimento de algumas fronteiras, tão caras à ontologia e à epistemologia ocidentais: a existente entre natureza e cultura, humano e animal, homens e mulheres, primitivo e civilizado e entre mente e corpo. Haraway celebra, desta forma, “o prazer da confusão de fronteiras”, como também “a responsabilidade em sua construção”. Ao fim e ao cabo, Haraway usa a imagem do ciborgue para estabelecer uma contribuição para a teoria e para a cultura socialista-feminista, de uma forma “pós-modernista, não naturalista, na tradição utópica de se imaginar um mundo sem gênero, que será talvez um mundo sem gênese, mas, talvez, também, um mundo sem fim.”

A partir de uma crítica ao marxismo e ao feminismo radical, sobretudo no que tange à naturalização da “mulher” e da concepção de uma identidade única que as uniria, Haraway defende a heterogeneidade que um movimento feminista deve abarcar. Não existe nada no fato de ser ‘mulher’ que naturalmente una as mulheres.” Ela propõe, assim, a substituição da categoria identidade por afinidade, ou, em outras palavras, uma identidade “pós-modernista, não totalizante, nem imperialista”. Um feminismo calcado na ideia de uma “mulher essencial” não deixaria espaço para a questão da raça (e eu acrescentaria que nem para as identidades trans*). Haraway diz que as “feministas-ciborgues têm que argumentar que ‘nós’ não queremos mais nenhuma matriz identitária natural e que nenhuma construção é uma construção totalizante”.

Após explanar sobre o ciborgue enquanto metáfora e mito político e estabelecer um projeto feminista que esteja fundamentado nas diferenças e afinidades, Haraway dá continuidade ao seu argumento, esboçando uma reflexão acerca da centralidade da tecnociência na estruturação das relações sociais da atualidade, e sobre o lugar em que as mulheres se encontram na atual divisão internacional do trabalho. A esses rearranjos das relações sociais, que são da ordem mundial, nas áreas da ciência e tecnologia, Haraway dá o nome de “informática da dominação”.  A eletrônica, segundo a autora, desempenha uma função central nesta ordem do capitalismo multinacional:

“As tecnologias da comunicação dependem da eletrônica. Os estados modernos, as corporações multinacionais, o poder militar, os aparatos dos estados de bem-estar, os sistemas de satélite, os processos políticos, a fabricação de nossas imaginações, os sistemas de controle do trabalho, as construções médicas de nossos corpos, a pornografia comercial, a divisão internacional do trabalho e o evangelismo religioso dependem, estreitamente, da eletrônica.” (: 66)

Uma vez que, para Haraway, “a situação das mulheres é definida através de sua integração/exploração em um sistema mundial de produção/reprodução” com essas características, faz-se necessário uma teoria de uma prática “dirigida para as relações sociais da ciência e da tecnologia, incluindo os sistemas de mito e de significado que estruturam nossas imaginações.” Com “relações sociais de ciência e tecnologia”, Haraway aponta para o fato de que não estamos lidando com determinismos tecnológicos, mas sim um “sistema histórico que depende das relações estruturadas entre pessoas.” Além disso, também indica que a ciência e a tecnologia fornecem fontes renovadas de poder. Como e onde ficam, neste cenário, as mulheres?

Para responder a essa questão, Haraway faz uso do termo, já cunhado anteriormente, “economia do trabalho caseiro”, todavia, “fora de casa”, indicando a chamada “feminização da pobreza” (que pode, inclusive, ser exercido por homens e mulheres, na maioria das vezes envolvendo questões de raça. O termo “feminização” se refere a um conjunto de características ditas feminina transpostas para o mundo do subtrabalho – o trabalho caseiro em larga escala). Esta expressão expressa uma posição extremamente vulnerável do trabalhador e da trabalhadora, capazes de ser “montado e remontado e explorado como uma força de trabalho reserva”. Há mais uma relação de servidão do que de trabalho propriamente dito. Essa massa de homens e mulheres, especialmente as “pessoas de cor” (person of color, em inglês, que designa todos aqueles que não são brancos), além de ficarem confinados à economia do trabalho caseiro, também correm o risco de ficarem presos ao analfabetismo, à impotência, alvos de aparatos repressivos high-tech, que vão do “entretenimento à vigilância e ao extermínio”. Para a autora, a ciência e a tecnologia desempenham papel crucial nesta arquitetura maldita:

“Uma vez que grande parte desse quadro está conectado com as relações sociais da ciência e da tecnologia, é óbvia a urgência de uma política socialista-feminista dirigida para a ciência e para a tecnologia.” (:81)

A cultura high-tech, paradoxalmente e de forma intrigante, contesta os dualismos citados anteriormente (mente/corpo, natureza/cultura, homem/mulher) – essenciais à lógica e à prática da dominação sobre as mulheres, as pessoas de cor, a natureza, os animais. Em suma, “a dominação de todos aqueles que foram constituídos como outros e cuja tarefa consiste em espelhar o eu [dominante].”

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“A replicante Rachel no filme Blade Runner, de Ridley Scott, destaca-se como a imagem do medo, do amor e da confusão da cultura-ciborgue.”

Por fim, Haraway defende a escrita como uma forma de tecnologia ciborgue, sendo a linguagem um veículo essencial da luta política. Ela não estabelece uma estratégia prática claramente, priorizando o uso imaginativo. A imagem do ciborgue, segundo a autora, expressa dois argumentos centrais do ensaio: a de que uma teoria universal e totalizante é um grande equívoco, deixando de apreender a maior parte da realidade.  Em segundo lugar, que “assumir a responsabilidade pelas relações sociais da ciência e da tecnologia significa recusar uma metafísica anticiência, uma demonologia da tecnologia”. Haraway finaliza dizendo que, “embora estejam envolvidas, ambas, numa dança em espiral, prefiro ser uma ciborgue a uma deusa.

REFERÊNCIA

HARAWAY, Donna. Manifesto Ciborgue. Ciência, tecnologia e feminismo-socialista no final do século XX. in Antropologia do Ciborgue. As vertigens do pós-humano. (org, Tomaz Tadeu). Belo Horizonte: Autêntica editora, 2000.

Sobre a ciborgue:

Donna Haraway (1944) é doutora em Biologia pela Yale University (EUA), possuindo incursões em Filosofia, Antropologia e Literatura. Feminista militante, sua obra influenciou fortemente os chamados estudos culturais e os estudos sociais em 4720049768_3fec254d99 ciência e tecnologia. Atualmente exerce o cargo de professora, vinculada aos departamentos de História da Consciência e Estudos Feministas, na University of Santa Cruz, Califórnia (EUA). É autora, dentre outros, de Primate Visions: Gender, Race, and Nature in the World of Modern Science Simians, Cyborgs and Women: The Reinvention of Nature.

*Sobre a foto de capa: cena do filme Metropolis ( Fritz Lang, 1927). Nele, uma irônica ciborgue comanda um motim revolucionário contra as máquinas, numa sociedade marcada pela exclusão e exploração.

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