Boaventura de S. Santos e o “saber ecológico” nas ciências sociais

Por Raphael Lebigre

O sociólogo Boaventura de Souza Santos, em seu ensaio central: “Os desafios das ciências sociais hoje” (2007) tenta discutir sobre a refundação do Estado e da democracia nos dias de hoje. Para isso, o intelectual reflete sobre a base do conhecimento nas ciências humanas e em particular, das ciências sociais.

Biograficamente, o autor de origem portuguesa teve a experiência de defender, em 1973, um doutorado nos Estados Unidos na Universidade de Yale. Quando esteve de volta em seu país de origem, no sul da Europa, percebeu a inadequação teórica da sociologia aplicada na América do Norte com Portugal. País este marcado por uma realidade ainda hoje periférica e, mesmo assim, inserido geograficamente no Norte-Atlântico.

Por ter vivido em Portugal boa parte de sua vida e depois ter estudado no exterior, o sociólogo faz três críticas às ciências sociais. Primeiro, aponta que a disciplina possui em alguns casos a inadequação dos conceitos e das categorias de análise aplicados na realidade. Precisamente, tal deslocamento se daria no uso fechado de tais ferramentas de investigação construídas nos países centrais do Ocidente em outras sociedades. Em segundo, observa que a falta de atenção pela Sociologia ao colonialismo, tema recorrente principalmente na Antropologia e ausente nas Ciências Políticas. Por fim, o intelectual está preocupado com a “emancipação da sociedade”. O que seria a última? A possibilidade dos coletivos humanos em se mobilizarem para lutar contra as injustiças do capitalismo. Ligada diretamente à ela, Boaventura de Souza denota o caráter do sistema econômico em criar, no imaginário social, expectativas de futuro que enterram, no fundo, as possibilidades de mudança no presente. É o que o autor chama de “conhecimento da regulação”.

Segundo o sociólogo, seria necessário pensar em outros mecanismos que ajudariam na emancipação social. Isso nos obrigaria a repensar as bases das ciências humanas. Antes de propor uma alternativa de saber voltada à luta contra as desigualdades do capitalismo, Boaventura, pode-se dizer, denuncia a postura “indolente” das ciências sociais. Ou seja, a tendência da disciplina em categorizar de maneira simplista e prepotente as sociedades. Essa postura “monocultural”, na visão do sociólogo, seria fruto da postura dos intelectuais em conceberem seus hábitos científicos como unicamente válidos.

Ora, segundo o autor, não haveria validade somente no conhecimento científico. Toda forma de saber teria sua aplicação e validade única. Se, por exemplo, um indígena com o seu saber técnico “produz menos” comparado com o padrão industrial nosso, isto não impede que o mesmo possa produzir suficientemente para si e viver de maneira coerente com o seu contexto particular. O intelectual desmistifica, assim, a ideia que algo tem de ser medido como produtivo dentro de alguma esfera de trabalho. Podemos incluir isso, claro, ao próprio ofício de cientista social.

No exemplo de grupos vistos como inferiores: mulheres, índios e negros, Boaventura afirma que as classificações dos coletivos nas ciências sociais são feitas muitas vezes de maneira hierárquica, reproduzindo as desigualdades. Isto na verdade, como ele aponta, é em parte a consequência da postura do conhecimento científico em conceber os agrupamentos humanos de maneira excessivamente objetiva, distante e ainda por cima universal. Ainda, não se pode atribuir um modelo histórico de “desenvolvimento”, no espelho da Europa e da América do Norte, a ser seguido de maneira homogênea em todos os países do globo.

Num mundo plural e cada vez mais complexo, que é o de hoje, Boaventura de Sousa sugere de maneira pertinente nas ciências sociais um “saber ecológico”. Isto é, um conhecimento sociológico aberto e em diálogo com os diferentes tipos de pensamentos, sejam eles religiosos, científicos ou filosóficos. É somente a partir desse primeiro passo que o intelectual reconhece a possibilidade de renovarmos as ferramentas sociológicas de análise geral. Adequadas e em sintonia com cada sociedade estudada.

Raphael Lebigre

Referência:

http://www.flacso.org.br/portal/pdf/pensamentocritico/Xcadernopensamentocritico.pdf

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