Interfaces sociológicas: as práticas científicas, sociais e políticas

Por Joanna Cassiano

Quais são as possibilidades de intercomunicação entre a prática científica e as práticas sociais e políticas no fazer sociológico? Essa foi a indagação que norteou a mesa “Interfaces”, sessão de encerramento do evento Reflexividade do Conhecimento Sociológico e suas Interfaces:  experiências de pesquisa, ensino e extensão, realizado no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no último dia 26. Com mediação do professor Bruno Cardoso, coordenador de pesquisas efetivo do Núcleo de Estudos de Cidadania, Conflito e Violência Urbana (NECVU) da instituição, o debate contou com a participação dos professores José Ricardo Ramalho, Alexandre Werneck e Eloísa Martín.

Abrindo a sessão, José Ricardo Ramalho ressaltou que iniciara seus estudos em Sociologia quando o Brasil se encontrava sob o regime militar, o que impedia o acesso dos alunos a certas literaturas como, por exemplo, os textos de Karl Marx. Foi nessa conjuntura de tensão política e agitação social que o professor se uniu a demais estudantes de Ciências Sociais e áreas afins, para montar e gerir um curso comunitário, que se manteve ativo por 3 anos. O projeto buscava transmitir à população da favela do Catumbi, na Zona Norte do Rio de Janeiro, discussões históricas, políticas e sociais que a fiscalização militar não permitia que ocorresse formalmente dentro das salas de aula das escolas e das universidades.

Nesse caso, a interface entre o conhecimento sociológico e a atuação social estava no empenho físico e intelectual de levar uma análise social honesta para aqueles que não tinham acesso a tais informações. O professor ressaltou também as possibilidades de atuação sociológica em ambientes que vão além da academia, como ONGs, núcleos sindicais, projetos de memória social, assessoria aos três poderes, etc.

Em seguida, a professora Eloísa Martín iniciou sua fala levantando uma indagação que, segundo ela, costuma fazer sempre aos seus alunos do primeiro período da graduação em Ciências Sociais, pedindo que eles levem para pessoas de fora do meio acadêmico: com que trabalha um sociólogo? Contrariando as expectativas e o imaginário do senso comum, a professora afirma que somente 25% dos profissionais de Sociologia atuam na academia. Ou seja, além da prática científica na universidade, a profissão possui, reforçando as palavras do professor José Ricardo Ramalho, um campo de atuação consideravelmente amplo. A professora ressaltou ainda a importância da elaboração de uma sociologia pública com conhecimento robusto, além da importância da realização de pesquisas com aplicabilidade social.

Ilustrando essa afirmação, em um exemplo inspirador, relatou a história de estudantes do interior da Argentina, que iniciaram um projeto despretensioso de coleta de informações sobre memórias da ditadura com os habitantes de sua cidade. Sem muitas ambições, inscreveram a iniciativa em um concurso de bolsas de financiamento e venceram. Com o apoio, puderam expandir o projeto de tal forma que, o que se iniciou como uma ideia sem grandes horizontes, se transformou em um movimento de reconstrução da história dos habitantes daquela cidade, especialmente aqueles que foram vítimas de torturas e repressões durante a ditadura, mobilizando toda a população local. Esse é o exemplo de um conhecimento construído de forma coletiva, como marco de uma disciplina que é essencialmente plural.

Em seguida e encerrando a sessão, o professor Alexandre Werneck falou sobre as interfaces de sua própria formação, contando sua curiosa trajetória profissional. O professor lembrou que iniciara sua formação no ensino médio, onde realizou a formação técnica em Química. Posteriormente, ingressou no curso de Engenharia Química e permaneceu alguns anos atuando em empresas da área. Num dado momento, devido ao seu interesse pelo campo do Cinema, optou por mudar de carreira, mas a Sociologia ainda não foi a escolha. O professor relata que abandonara o curso de Engenharia Química para ingressar na graduação em Comunicação Social, onde se formou. A aproximação oficial com a Sociologia só se iniciara no ano de 2006, quando o professor ingressou no doutorado em Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Com essa multiplicidade de caminhos e escolhas tomadas durante sua formação, Alexandre Werneck finalizou  ressaltando que a prática sociológica é, essencialmente, um lugar de interface e de construção contínua.

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