O que faz um sociólogo? Evento Reflexividade do Conhecimento Sociológico – 1ª parte

Por Leonel Salgueiro,

Dialogar com os estudantes e enfrentar os desafios políticos e sociais dentro e fora dos muros das Universidades. Estas foram algumas das propostas abordadas no segundo dia do evento — Reflexividade do Conhecimento Sociológico e suas Interfaces: experiências de pesquisa, ensino e extensão — realizado no IFCS da UFRJ em 26 de setembro de 2014. O evento deu continuidade aos programas propostos na 1ª Jornada do Departamento de Sociologia realizada no ano de 2012. Quais as expectativas que os estudantes têm para o curso? Qual a concepção de curso que os estudantes carregam? O que é ser um sociólogo hoje? Estas e outras perguntas, trazidas pelos professores do departamento de sociologia, contribuíram para a construção, junto com os estudantes de graduação em Ciências Sociais – Licenciatura e Bacharelado – do sociólogo no mundo atual e sua forma de trabalho.

O debate do dia 26 contou com duas mesas realizadas em horários distintos (15:30h e 18:00h), coordenadas respectivamente pela professora e coordenadora do departamento de Sociologia, Aparecida Fonseca Moraes e pelo professor Coordenador de pesquisas efetivo do Núcleo de Estudos de Cidadania, Conflito e Violência Urbana (NECVU – IFCS/UFRJ),Bruno Cardoso. A equipe do Circuito cobriu o evento, que será dividido em dois posts nesta semana. A primeira mesa você acompanha logo abaixo e a segunda irá ao ar nesta quinta-feira (09/10).

A primeira mesa contou com a presença ilustre dos professores Celi Scalon, Liana Cardoso e André Botelho. A proposta da mesa, de nome “Reflexividade”, teve como objetivo tratar a reflexividade fosse ela no campo teórico ou aplicado, de nossa disciplina e profissão. Para assim recolocar, em novos patamares, o nosso papel como sociólogo e o lugar de nossa disciplina na sociedade atual.

A professora Celi Scalon, abriu sua fala trazendo a tona um conceito aplicado na reunião da ISA de 2010 que encara a Sociologia como uma disciplina em movimento. Que interpreta a dinâmica do objeto analisado como uma forma de renovação constante do fazer científico / sociológico. Em outras palavras, faz a nossa ciência ser especializada na reflexividade dos fatos e não no diagnóstico presente e fixo do objeto.

A professora lembrou também que, por mais que a Sociologia seja voltada para novos temas e novos autores, a ciência têm uma base, acumulando conhecimento ao longo da história. E que, por isso, devemos aprender com os trabalhos produzidos no presente. Pautados no saber científico (nossa base), eles trazem novos parâmetros e mudanças que, segundo a professora, impulsionam a nossa disciplina. Seja esta mudança exercida pelos processos de novos métodos, novos conceitos ou novas teorias.

A professora salientou que para investigar as múltiplas facetas da sociedade contemporânea é necessário não reconhecer barreiras entre as demais ciências. Lembrou que a Sociologia não é de caráter interdisciplinar e que o preconceito com os dados estatísticos fazem ressaltar uma profunda ignorância sobre o assunto. Ressaltou também que são preconceitos como estes que atrasam o avanço de nossa ciência. Segundo Celi Scalon, a Sociologia deve confrontar, por exemplo, a Economia, e ser vista também como um interlocutor entre as questões estatísticas e o poder público.

Como último tópico, citou o conceito de Sociologia Pública, aplicada pelo sociólogo Michael Burawoy, conceito este com o qual ela não concorda. Pois, segundo ela, a Sociologia é apropriada pelo Estado, mas toda a análise sociológica não. Devemos produzir um diálogo com o poder público, mas nem sempre para o público. Pois, a Sociologia não é um movimento social. Todos nós, sociólogos, somos atores sociais e políticos, mas nem todos os atores sociais e políticos são sociólogos.

Na segunda apresentação da mesa, a professora Liana Cardoso lembrou aos estudantes o campo pragmático de nossa disciplina. Onde podemos trabalhar?

Para isso, a professora, recorreu a lei nº 6.888 de 10 de dezembro de 1980, sancionada pelo presidente João Batista Figueiredo, que demonstra as competências do sociólogo. Segundo a lei, é da competência de um sociólogo elaborar, supervisionar, orientar, coordenar, planejar, programar, implantar, controlar, dirigir, executar, analisar e avaliar estudos, trabalhos, pesquisas, planos, programas e projetos atinentes a realidade social.

Para ilustrar este “mar de atividades” atribuídas aos sociólogos, a professora listou diversos campos que podem ser escolhidos pelos futuros pesquisadores: Docência, pesquisar opinião e mercado, marketing político, lazer e entretenimento, cursos avulsos específicos, relações internacionais, questões agrárias, planejamento urbano, assessoria ministerial, administrativa, municipal, mercado editorial, comunicação, meio ambiente, assessoria sindical, patronal e outros.

A professora ressaltou que a reflexividade de nossa profissão perpassa o pensamento sociológico até a atualidade. Nosso campo abrange as diferentes formas de relação entre o indivíduo e a estrutura social. O que a faz concluir pensando em três autores que analisam a relação de indivíduo e estrutura: Jürgen Habermas, Pierre Bourdieu e Charles Wright Mills, os quais a professora deixou como leitura obrigatória aos estudantes que ali estavam.

Encerrando a mesa, o professor André Botelho lembrou a importância do diálogo entre os professores e o estudante. O engajamento, segundo o professor, leva os alunos a escolherem a disciplina. O que, neste sentido, depende da experiência do ator sociológico. Em comparação, o professor explica a disciplina como uma releitura de um autor do ramo. A cada vez que se lê um livro, sempre se descobre algo a mais. Assim é a Sociologia, de caráter constante, em que, tanto sujeito quanto objeto são afetados e se redescobrem a todo momento.

Como o professor salientou, pensar a reflexividade da Sociologia é pensar a particularidade do objeto. O que em tempos de pós-positivismo, a própria ideia de uma reflexividade já compromete a ideia de objeto analisado; desconstruindo a ideia de que os atores sociais não sabem o porquê agem de determinada forma. Segundo o professor, eles sabem. Só não tem os mesmos recursos que nós para analisar estes fatores.

Utilizando-se de um tema jocoso, é possível pensar a relação de sujeito-objeto na Sociologia, como um “Dilema Tostines”. O conhecimento que produzimos transforma os atores sociais, ou é a transformação dos atores sociais que produz o nosso conhecimento? Baseando-se nas ideias de Marx, o professor argumenta: A ideia de classe foi priorizada porque era potente ou foi potente porque foi priorizada?

O que faz concluir o professor, separando nossa disciplina a uma ideia de ciência pautada na Antologia. Logo, a Sociologia se dá a partir de uma relação reflexiva entre conhecimento sociológico e atores sociais.

Assim, foi encerrada a primeira mesa deste dia que nos remeteram a ideia de uma Sociologia Reflexiva. O Circuito Acadêmico, formado por alunos de graduação, agradece a iniciativa dos professores do departamento e seus coordenadores. Lembrando que o leitor pode acessar a segunda mesa do evento clicando aqui.

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