Voz, agência e representação – Spivak e os sujeitos subalternos

Por Edmar M. Braga Filho

Ler Spivak não é tarefa fácil. Sua linguagem complexa e seu agudo senso crítico exigem do leitor mais atenção do que de costume. Em seu artigo Pode o Subalterno Falar?, a autora mobiliza pensadores de diversas áreas do conhecimento para refletir sobre duas questões: a agência dos assim chamados sujeitos subalternos, e o papel do intelectual ao tentar representá-los.

Primeiramente, faz-se necessário elucidar quem são esses sujeitos subalternos. Para a autora indiana, eles compõem “as camadas mais baixas da sociedade constituídas pelos modos específicos de exclusão dos mercados, da representação política e legal, e da possibilidade de se tornarem membros plenos no estrato social dominante”(:14). A “fala” dos sujeitos subalternos seria a sua agência, ou seja, a sua autonomia diante da sociedade excludente em que eles se encontram. Tal questão envolve a consciência dos sujeitos, bem como a sua capacidade de formar alianças políticas. Aqui, a autora debate frontalmente com Foucault e Deleuze que, como mostrado em outro texto, afirmam que os sujeitos oprimidos não mais precisariam ser representados, por serem capazes de lutarem autonomamente.

Spivak mostra como a agência, segundo defende Deleuze, estaria centrada na esfera do desejo, o qual exerceria uma relação mecânica com o objeto desejado, faltando apenas um sujeito para se acoplar a eles. Essa definição de desejo tornaria o sujeito “homogêneo e monolítico”. Por ligar a consciência à esfera do desejo, e este sendo generalizado, temos a existência de um sujeito indiferenciado às peculiaridades de um sistema econômico globalizado marcado pela divisão internacional do trabalho. Para a autora, os filósofos desconhecem a realidade desta divisão nos países do assim chamado “Terceiro Mundo”, por equipararem o sujeito oprimido que neles vivem com os do “Primeiro Mundo”: “É impossível para os intelectuais franceses contemporâneos imaginar o tipo de Poder e Desejo que habitaria o sujeito inominado do Outro da Europa.” (:58). Foucault e Deleuze ocupariam, assim, uma posição específica e privilegiada de fala: o Primeiro Mundo, sob a padronização e regulamentação do capital socializado (e eles não reconhecem isso, segundo Spivak). Ao falar dos “homens e mulheres entre os camponeses iletrados”, dos “tribais”, e dos “estratos mais baixos do subproletariado urbano”, Deleuze e Foucault suporiam que tais sujeitos, se tiverem a oportunidade e a possibilidade de formarem alianças políticas, “podem falar e conhecer suas condições”(:70). Spivak, por outro lado, é incisiva:

Devemos agora confrontar a seguinte questão: no outro lado da divisão internacional do trabalho do capital socializado, dentro e fora do circuito da violência epistêmica da lei e da educação imperialistas […],

pode o subalterno falar? (:70).

Dessa forma, o sujeito é, para Spivak, heterogêneo e descentralizado. Como não há um sujeito indiferenciado a guiar a agência segundo um desejo mecânico, a questão da ideologia, que foi deliberadamente ignorada pelos filósofos, fica evidente. Neste ponto, Spivak mostra como o sujeito monolítico imaginado pelos filósofos franceses englobaria dois sentidos de representação, erroneamente por eles aglutinados. O primeiro sentido é sinônimo de “falar por” (vertretung), possuindo o sentido político de representar um grupo, e a suposta capacidade de conhecer a realidade do representado. Já o segundo sentido (que Spivak chama de “re-presentação”) está ligado à arte e à encenação (darstellung). O sujeito descentralizado e heterogêneo de Spivak mostraria uma descontinuidade entre esses dois sentidos de representação, nela residindo as dificuldades de agências do sujeito subalterno, como também de eles formarem alianças políticas.

 A parte final do livro é dedicada ao desenvolvimento de um exemplo sobre como é problemático o agenciamento do sujeito subalterno de uma realidade periférica no contexto global: o sacrifício das viúvas na Índia, na época em que este país ainda estava sobre o domínio britânico. Mais especificamente o suicídio de uma jovem. Este fenômeno da vida das mulheres – o suicídio através da imolação de viúvas indianas – expressaria dois pontos cruciais. O primeiro ponto diz respeito à violência epistêmica embutida na ação do Império Britânico ao tornar a prática como fora da lei, mas que terminou por ser um discurso “homem branco salva mulheres de pele escura de homens de pele escura”, por desconsiderar diversos aspectos da cultura hindu (sobretudo no campo discursivo do significado de sati, negligenciado pelos britânicos). O segundo ponto diz respeito ao papel inferior da mulher numa estrutura extremamente patriarcal em que estava inserida.

Entre o patriarcado e o imperialismo, a constituição do sujeito e a formação do objeto, a figura da mulher desaparece, não em um vazio imaculado, mas em um violento arremesso que é a figuração deslocada da “mulher do Terceiro Mundo”, encurralada entre a tradição e a modernização.(:157)

 No ano de 1926, uma jovem indiana, Bhuvaneswari Bhaduri, suicidou-se por enforcamento. Ela estava em período de menstruação, o que tornava a sua morte um enigma, uma vez que a jovem não estaria em uma “gravidez ilícita”. Após pesquisa com várias fontes, Spivak descobriu que Bhaduri fazia parte de um grupo armado secreto pela Independência da Índia, e que a ela foi solicitado realizar um assassinato político. Sentindo-se incapaz de realizar tal empreitada, a jovem se viu numa encruzilhada e se matou. Matar-se num período menstrual simbolizou uma tentativa da jovem de ir contra os costumes de sua cultura – contra o papel da mulher subalterna indiana. Todavia, não foi compreendida. Ao serem questionados, seus parentes demonstraram total incompreensão com a morte dela. “O subalterno como um sujeito feminino não pode ser ouvido ou lido.” (:163)

O subalterno não pode falar. Não há valor algum atribuído à “mulher” como um item respeitoso nas listas de prioridades globais. A representação não definhou. A mulher intelectual como uma intelectual tem uma tarefa circunscrita que ela não deve rejeitar com um floreio.(:165)

Spivak faz um chamado. Contrariamente ao que acreditavam Foucault e Deleuze, o intelectual não só pode, como deve, representar o subalterno. Todavia, nesse percurso, ele deve ficar atento para não emudecer [mais] o subalterno, e sim ser um veículo para que este possa falar e ser ouvido. Não há, assim, autorrepresentação. Da mesma forma, o subalterno não deve configurar apenas um “objeto” a ser revelado ou conhecido pelo intelectual que deseja falar pelo outro.

Embora Spivak possa soar pessimista em sua conclusão, ela abre um leque de possibilidades para a reflexão e a prática do intelectual/pesquisador que quiser estudar os grupos marginalizados de sua sociedade, num esforço constante de autorreflexão sobre seu lugar de fala. Da mesma forma, é possível questionar se o sujeito subalterno não possui formas distintas de autorrepresentação, que talvez fujam das expectativas dos intelectuais, que sempre esperam uma ação coordenada e política específica. Podemos pensar, no âmbito da especulação, as várias manifestações culturais populares como uma autêntica voz subalterna, representativa de toda a realidade da vida dos sujeitos.

 REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o sulbaterno falar? Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2010.

Sobre a intelectual

Crítica literária e teórica indiana (1942, Calcutá), Gayatri Chakravorty Spivak é autora basilar dos chamados estudos pós-Gayatri_Chakravorty_Spivak_at_Goldsmiths_Collegecoloniais. Tendo se graduado na Índia em Literatura Inglesa, terminou seus estudos de pós-graduação nos EUA, em Cornell. Também é muito (re)conhecida pela tradução de Da Gramatologia, de Derrida, para o inglês, acompanhado de um monumental prefácio. É uma atuante militante feminista, tendo produzido uma vasta obra que trata do tema. Atualmente ministra aulas na Columbia University, NY.

Foto de capa: Divulgação do filme A Batalha do Passinho, como forma de rebater a concepção da autora acerca da mudez do subalterno. 

Anúncios

O que você tem a dizer sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s