A França e o “terceiro mundo” na geopolítica do conhecimento

Por Raphael Lebigre,

No âmbito da situação colonial francesa, sugere-se que a dicotomia proposta por Raewyn Connell de “Norte Atlântico” e “Sul Global” ajuda a revelar as relações coloniais que faziam dos países dominados fontes do saber empírico, destinados às instituições científicas europeias. Este é o quadro em que será discutido a atenção dos periódicos franceses: “Population”, “Cahiers Internationaux de Sociologie” e “Cahiers de L´Ined” ao dito “terceiro mundo”.

O termo “terceiro mundo”, em voga até 1980, constitui um conceito intimamente vinculado à história das ciências sociais francesas nos países periféricos. Com efeito, como denota Lévy, o termo foi criado pelo demógrafo Albert Sauvy (1898-1990) em 1952, referente aos países semelhantes em sua situação de pobreza com os destituídos do antigo regime na França.

Segundo Lévy (1995), Sauvy concebia que a população mundial não era homogênea, necessitando, portanto, da atenção necessária aos países com realidades coletivas em contraste com a Europa e os Estados Unidos. O demógrafo foi diretor do INED, na França (“Instituto nacional de Estudos Demográficos”) e exerceu o ofício de redator chefe da revista “Population”, veículo de difusão das pesquisas do Instituto e atenciosa aos problemas de desenvolvimento nos países periféricos. Mesmo assim, isto não impede que o interesse pelos problemas dos países à margem do centro já surgisse na França com os trabalhos do “INED”, antes que a expressão “terceiro mundo” fosse utilizada.

Além da revista “Population”, como assinala Georges Balandier (1996), o “Cahiers Internationaux de Sociologie” seria uma revista na qual se materializaria uma nova sociologia francesa atenta, em parte, aos problemas dos “países em desenvolvimento”. Como delineia Véron (1995), além das duas revistas, o “Cahiers de L´Ined” esteve igualmente atento aos países periféricos.

Em complemento à Sauvy, Balandier, cientista social francês engajado nas independências da África, reconhecia não somente que o “terceiro mundo” não compunha um bloco de países semelhantes, como enxergava, também, que os problemas cotidianos dos povos à margem do centro dominante estavam em interdependência com os da Europa e da América do Norte. Motivo pelo qual, o intelectual denota no artigo inaugural do “Cahiers de l´Ined” que o periódico estaria voltado para além do reconhecimento dos problemas analisados no “terceiro mundo”, na pesquisa de soluções para os mesmos.

No entanto, quando reconhecemos que os periódicos franceses mencionados estiveram atentos ao “terceiro mundo”, não se pode ignorar que a França, no período citado, ainda possuía a maior parte de suas colônias.

Por isso, a socióloga australiana Raewyn Connell (2007) nos ajuda a situar, no monopólio do saber sociológico, a heterogeneidade histórica entre o hemisfério do “Norte” desenvolvido e o do “Sul” periférico. Segundo a autora, mesmo que os termos: “Sul” e “Norte” possuam, em parte, uma lógica geográfica, ambos não se referem integralmente à posição territorial dos países no globo, mas a posição histórica dual de subalternidade e centralidade na geopolítica do conhecimento mundial. Como bem denota a intelectual, a disparidade do monopólio do conhecimento entre o “Norte-Atlântico” e o “Sul Global” está estreitamente vinculada às experiências imperiais de outrora, que acarretam em seus resquícios, a dicotomia de um centro desenvolvido e o da periferia subalterna. Na ótica da mesma, em consequência da colonização infringida, historicamente as colônias europeias serviram de fontes de dados empíricos destinados às instituições de pesquisa europeias.

No caso específico dos centros de pesquisa franceses, segundo os arquivos históricos da França, estes foram implantados desde 1937, sendo o primeiro continente o africano. As informações do instituto tendem a nos sugerir que os centros foram responsáveis pelo recolhimento de dados sociais das colônias, por meio de pesquisadores majoritariamente franceses. Este é o motivo pelo qual, em sua maioria, tais centros estavam situados na África, onde a França possuía a maioria de suas colônias. O exemplo marcante de tais organizações coloniais estaria no “Institut français d´Afrique noire de Dakar”, em Senegal, no qual Balandier (1977) inclusive esteve vinculado.

 

Referências bibliográficas

BALANDIER, Georges. (1977) . « Histoire d’Autres » . Paris, Stock.

CONNELL, Raewyn. (2007). “Southern Theory: the global dynamic of knowledge in social science”. Cambridge, Polity Press.

VÉRON, Jacques . (1995). « L´INED et le tiers monde ». In  Population, n.6, pp.1565-1577.

Anúncios

O que você tem a dizer sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s