Internacionalização da sociologia brasileira – alguns eixos temáticos. Apresentação de Celi Scalon

Por Edmar M. Braga Filho

A socióloga Celi Scalon, professora titular da UFRJ, participou do evento de lançamento do site Circuito Acadêmico. Ela falou sobre vários aspectos da internacionalização da sociologia brasileira e sobre o mundo acadêmico. Confira a sua fala!

 O que temos que entender por internacionalização

Primeiramente é importante esclarecer o que compreendemos como internacionalização. Por exemplo, a circulação de pesquisadores. Não basta a gente ir para fora: nossos colegas estrangeiros também deveriam vir para dar aulas em um curso de graduação, dividindo disciplinas conosco. Expor os alunos da UFRJ a um professor estrangeiro terá um impacto muito grande. Assim, penso que há uma série de iniciativas que contribuem para a internacionalização e que nem sempre são reforçadas pelas agências de fomento.

É importante, também, que haja uma circulação de pesquisadores, para que possam vir ministrar palestras, fazer pesquisas comparativas, participar de congressos e mesas.

Internacionalização inclui, ainda, publicação em periódicos estrangeiros, e de artigos de pesquisadores estrangeiros que publiquem em nossos periódicos. Acredito que a revista do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (Sociologia&Antropologia) tem sido bem sucedida neste aspecto. Várias revistas do Brasil já incluem artigos de colegas do exterior.

Devemos levar em conta, também, a nossa participação em associações internacionais e a participação de acadêmicos de outros países nas nossas associações. Todas essas trocas são importantes, incluindo, igualmente, as bolsas sanduíches, as bolsas de pós-doc, e outras ações que são apoiadas pelas agências de fomento.

Sobre tradução de artigos e revistas para o inglês

Penso o seguinte. A pós-graduação deve fazer um investimento, enviando estudantes para universidades americanas ou inglesas. Além de eu ter feito doutorado sanduíche no exterior, sempre incentivo meus orientandos a pedirem bolsa sanduíche. É uma experiência maravilhosa. Ao passo que você se insere em uma rede internacional, ganha intimidade com o idioma. Isso é fundamental para quem quer seguir a carreira acadêmica. É difícil escrever em outro idioma mesmo, mais do que falar. Quem fala algum idioma estrangeiro sabe disso, mas é um investimento importante.

Nos programas de pós-graduação, há projetos de pesquisas que permitem que você financie a tradução de textos. Há discussões sobre pagar antes do artigo ser aceito, e isso é complicado às vezes para o programa, mas quem faz pesquisa em geral tem recurso para isso. Contudo, é importante o fato de publicar lá fora. Não faz parte de nossa cultura, de nossa prática.

Há uma questão, que é o tempo de publicação. Realmente, as grandes revistas, às vezes, levam muito tempo para publicar um artigo. Vai para o revisor e volta. O parecerista gera um parecer muito mais detalhado até do que temos o costume de fazer no Brasil. Isso faz com que as pessoas tenham certa resistência para publicar no exterior.

Aproveitando, nós já estamos com uma proposta. Estamos pensando, no âmbito da Sociedade Brasileira de Sociologia, em criar uma publicação em inglês.  Não a Revista Brasileira de Sociologia, que já existe. Mas uma nova revista, com artigos curtos de 6 a 8 páginas em inglês. Não pretendemos fazer uma revista somente para brasileiros publicarem em inglês, queremos uma revista verdadeiramente internacional. Sei que é difícil. Vamos precisar de todos os esforços para captar artigos de colegas estrangeiros. A idéia é que ela seja concebida, de fato, como uma revista internacional, não só uma revista para brasileiros publicarem em inglês.

 Temas de relevância internacional

Acredito que todos os temas são de relevância internacional. Não consigo imaginar um tema na sociologia que não seja interessante para alguém que não more no Brasil. Acho que as sociedades modernas, contemporâneas, possuem diferenças e similitudes. Você pode adotar uma abordagem mais específica, mas todos os temas são relevantes internacionalmente. Eu acho que uma abordagem local só não traz interesse se ela não tem nada novo, nenhum avanço, nenhuma discussão interessante, do ponto de vista teórico-substantivo ou metodológico.

Como fazer pesquisa comparativa em relação a outros contextos 

É fundamental fazer pesquisa comparativa internacional. Só será estabelecido um diálogo sul-sul, norte-norte etc. a partir do momento em que a gente se propuser a conversar. Procurando não só o que há de comum, mas também o que há de diferente. Aprendemos muito analisando as diferenças entre sociedades. Olhando para o outro que é diferente, talvez a gente entenda a nossa especificidade. Então, penso que isso é muito importante fazer pesquisa comparativa internacional.

Há muitos bancos de dados abertos, com acesso livre, no mundo inteiro. O Current Population Survey (a PNAD Americana), e a International Social Survey Programme, por exemplo. Assim, penso que o acesso a banco de dados quantitativos é possível e relativamente fácil, tem muita coisa aberta.

Não sei se a ausência de pesquisas comparativas é uma especificidade do Brasil. É um esforço muito grande fazer esse tipo de pesquisa, colocar-se em diálogo. Às vezes, até aqui mesmo com um grupo de colegas brasileiros é difícil fazer, organizar pesquisas conjuntas. Mas eu acho que é um esforço fundamental. Eu passei a entender melhor o meu país depois de fazer comparação internacional.

Diálogo Norte Sul, Sul Sul

Eu tenho um problema com essa ideia de Sul e Norte. Penso que ela deve ser, talvez, problematizada no contexto geográfico. Considero que um gueto em Detroit é Sul Global. A idéia de Norte, rico, desenvolvido… Isso é bem mais complexo. Lógico que existe a facilidade da língua, o inglês, e os EUA têm uma academia muito forte, muito pungente, mas eu tenho dificuldade de entender o mundo nessa chave; embora ela seja importante, principalmente, para as disputas por espaço na política institucional. Eu penso que, no contexto de pesquisa, ela tem sido um pouco simplificada.

Considerações finais 

No geral, eu acho que é isso. Fazer pesquisa é se expor, é não ter medo de ser criticado. Um problema dos brasileiros é esse horror à crítica.  Eu tinha isso, mas a gente perde quando você se expõe numa academia como a americana, por exemplo, que é muito crítica. A inglesa também. Eles não criticam “você”, eles criticam o seu trabalho. Isso é um problema que nós temos, porque talvez a gente personalize demais a nossa produção. Isso não é assim lá fora. Eles falam “seu trabalho está errado ali”. E acabou o problema. Você vai sair, vai tomar chope, vai almoçar junto. Muitas vezes, aliás, é o seu melhor amigo quem o critica, até as pessoas que estão no seu projeto.

Sobre a autora:

Celi Scalon é professora titular da UFRJ, ministrando aulas no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (IFCS), e??????????????????????????????? membro do Executive Committe da ISA. Foi presidente da Sociedade Brasileira de Sociologia (2009-2011). Com doutorado em Sociologia pelo IUPERJ, seus temas de maior interesse são: desigualdade e estratificação, com foco em classes sociais, renda, políticas públicas  e metodologia de pesquisa. Para mais informações, clique aqui.

Algumas referências da autora:

SCALON, C. . Rio and its slums: the future at crossroads. Contemporary Sociology, v. 42, p. 199-202, 2013.

SCALON, C. . Juventude, Igualdade e Protestos. Revista Brasileira de Sociologia, v. 01, p. 179-204, 2013.

*Ilustração da capa: mesa de abertura do lançamento do site Circtuito Acadêmico, dia 27/05/2014. Compõem a mesa, em respectiva ordem, Celi Scalon, Eloísa Martín e Maria Ligia Barbosa. Foto por Gabriel Bilotta.

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