Mulheres e o campo científico: desafios e avanços. Entrevista com Hildete Pereira. Parte II

Por Edmar M. Braga Filho

Na segunda e última parte da entrevista, a professora e economista Hildete Pereira trata da questão das diferenças entre homens e mulheres no campo científico. Mostra como há ainda uma considerável diferença quanto ao reconhecimento e  prestígio. Também dá destaque à conquista da licença maternidade para mestrandas e doutorandas, o que só foi possível através da luta das mulheres. Confira!

A partir da sua pesquisa, como você avalia as diferenças de gênero no trabalho acadêmico, em termos de tempo, produtividade e atuação?

Há uma luta das mulheres feministas no processo de produção de conhecimento, em relação ao reconhecimento das pesquisas masculinas e femininas, e remonta à divisão sexual do trabalho. Eu diria que em determinadas áreas científicas não é, ainda, uma coisa vitoriosa, e não sei como o protocolo das ciências exatas e matemáticas tratam a questão. Nas ciências humanas e sociais, como a sociologia, a antropologia e a psicanálise, essas questões avançaram muito mais, até por que as mulheres tendem a escolher carreiras próximas do tradicional papel feminino.

Por exemplo, no meu campo científico, que é a economia, há ainda dificuldades. Não tem mais a desqualificação que ocorria na década de 70: “Ah, isso não é coisa de mulher”.  Hoje isso não existe mais. Você dialoga e é respeitada. Interessante notar também que, no campo da economia, há pesquisadores que não especificam suas pesquisas em termos de sexo. Trabalha apenas com “pessoas” sem sexo. Fazem estudos sobre educação, sobre mercado de trabalho etc. com pessoas, e não especificam o sexo e não contribuem para a análise das diferenças entre os sexos. Se você vai falar de pessoas neste milênio, você vai especificar o sexo dela. Houve uma explosão sobre a orientação sexual, a questão da diversidade, estes temas ganharam relevância na sociedade. Mas, tem colegas que na economia que não querem nem ouvir falar de relações de gênero. Quando você pega um livro sobre mercado de trabalho dos anos 50, dos anos 60, tem pessoas, mas estas não têm sexo. Pode pegar qualquer clássico do mercado de trabalho brasileiro, você terá uma análise muito correta, mas não tem uma análise construindo as diferenças. E não é igual o lugar de homens e mulheres no mercado de trabalho. Nós temos diferenças salariais, extensa jornada de trabalho e uma porção de coisas que não cabe aqui discutir, mas que podemos levantar.

Nessa pesquisa que eu fiz com a física Lígia Rodrigues Coelho, sobre as pioneiras da ciência no Brasil, precisávamos mostrar que as mulheres que nós podemos fazer ciência. Para isso é preciso tirar o véu e trazer “exemplos” de mulheres que conseguiram fazer carreira.

Por exemplo, a maior cientista brasileira se chama Johanna Döbereiner. Você pode perguntar a qualquer um, que ninguém sabe quem é essa mulher. Se ela tivesse pesquisado nos EUA, era Nobel de Química. Ela não foi porque ela estava abaixo da Linha do Equador. Sem as descobertas da Johanna, em seu laboratório na UFRRJ, junto com a EMBRAPA, não haveria produção de soja no Brasil. E nem o Centro-Oeste seria o celeiro de soja, milho e algodão. O agronegócio brasileiro é dos setores econômicos mais produtivos, e o Brasil hoje é o maior produtor de grão do mundo. Este resultado foi graças ao trabalho de Johanna e sua equipe formada de homens e mulheres. Johanna teria ganhado o Nobel se pesquisasse nos EUA? Não tenha dúvidas.

Outro ponto importante a se destacar, por exemplo, é o da licença maternidade. Vale lembrar que o início da carreira científica começa para as mulheres quando elas estão no período reprodutivo. Certamente que as bolsistas de mestrado e doutorado não conseguiram a licença maternidade de graça, porque os dirigentes do Estado Brasileiro, do CNPq, da CAPES, MEC, do MCTi tinham alguma sensibilidade pela situação das mulheres. Esta política foi resultado da luta das mulheres. A Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República (SPM/PR) que fez dois encontros com cientistas e mulheres que trabalham em núcleos de gênero, que atuam nesse campo e desses encontros saiu esta demanda. No primeiro encontro já saiu esta reivindicação. As mestrandas e doutorandas queriam que a bolsa levasse em consideração o período da gravidez. Ora, a gravidez não é um fenômeno corriqueiro no corpo feminino. A licença só saiu porque nós reivindicamos. E conseguimos. Isto foi há muito pouco tempo, de 2010 para cá. A licença foi implementada primeiro pelo CNPq e depois pela CAPES.

Nesse período de formação e consolidação da carreira, as mulheres têm outro problema relativo à conciliação entre o trabalho científico e os afazeres domésticos.  Quando olhamos os dados, a população de mulheres acima dos 10 anos declara, em média, 25h por semana de trabalhos dedicados para a casa, enquanto os homens só declaram 10h. E declaram 10h desde 2001. É uma média que não se altera.

Por fim, uma opinião mais pessoal. A senhora acredita numa mudança qualitativa na produção do conhecimento com uma atuação equitativa entre homens e mulheres? 

Eu acredito. Acredito que no futuro essas lutas, discussões e questões colocadas para as gerações atuais e as que estão por vir, sejam uma forma de despertar, e que o conhecimento seja produzido igualmente por homens e por mulheres que tenham interesse nisso, que sejam motivados a fazer esse trabalho, e que as mulheres não fiquem mais como uma sombra dentro dos laboratórios. Essa possibilidade em parte já é realidade. Por exemplo, temos programa Mulher e Ciência. O governo brasileiro fez em 2005, através da Secretaria de Políticas para as Mulheres, junto com o MCTI e o MEC, um programa chamado Mulher e Ciência, cônscio dessa problemática de que era necessário sacudir a carreira científica, e tirar as mulheres da sombra. O programa Mulher e Ciência tem várias linhas de financiamento, e já alocou 32 milhões de reais no campo científico de gênero, discriminação e raça no Brasil. É muito dinheiro dentro dos programas de Ciências Humanas. Nesse programa, temos o prêmio Construindo a Identidade de Gênero, direcionada a doutorandos e mestrandos, de monografias de graduação e redações para o ensino médio, que atinge os colégios públicos brasileiros.

Neste ano nós pensamos em algo diferente. Pensamos em pegar o “top” dos pesquisadores brasileiros, que são os bolsistas PQ, bolsa A do CNPq. A ideia que brotou foi: quantas mulheres cientistas brasileiras são PQ A1 e completam 40 anos em 2014? Qual não foi nossa surpresa, havia mais de 200 homens, e só vinte e poucas mulheres. Está disponível no site do CNPq. Para você ver como é difícil a conciliação da família com a carreira, e com os outros problemas aqui levantados relativos a invisibilidade do papel feminino na sociedade.

Mini Bio:

Hildete Pereira é graduada em Ciências Econômicas, pela UFPB, tendo feito mestrado e doutorado na UFRJ. Desde 1973 é professora da Faculdade de Economia da UFF. Foi diretora do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento (2005 – 2007). Em maio de 2012 foi nomeada Coordenadora de Educação e Cultura na Secretaria de Políticas para as Mulheres, da Presidência da República. Já em 2013, foi nomeada Assessora Especial do Gabinete da Ministra de Estado da Secretaria de Políticas para as Mulheres, da Presidência da República. Aqui o seu currículo Lattes.

Algumas referências:

MELO, Hildete Pereira de . A Revista Gênero/UFF: fazendo ‘ciências’ na militância. Revista Estudos Feministas (UFSC. Impresso), v. 21, p. 605-616, 2013.

MELO, Hildete; LASTRES, Helena; MARQUES, Teresa. Gênero no sistema de ciência, tecnologia e inovação no Brasil. Revista Gênero (UFF) v.4 n2 ,73 – 94, 2004

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*Ilustração da capa: Profa. Hildete Pereira de MELO. (UFF – RJ) em nossa sala de pesquisa. Ph: Joanna Cassiano

 

 

 

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