Uma elite necessária? Intelectuais, poder e sociedade

Por Edmar M. Braga Filho

Talvez não seja uma atitude tão gloriosa a auto definição de alguém como intelectual. Tal ato pressupõe uma diferenciação qualitativa em relação às outras pessoas, concernente à erudição, inteligência, sensibilidade artística e literária. Sua existência só é possível através do auto reconhecimento e do reconhecimento social de sua suposta distinção frente à massa. Em última instância, tal consagração não deixa de ser elitista.

Devaneios à parte, o papel social dos intelectuais é tema de intenso debate dentro das Humanidades. Eles possuem alguma relevância nos rumos políticos de um país? Se não, deveriam ter? E como deveriam agir? Tais questões mobilizam emoções, posições políticas, aspectos epistemológicos e éticos. Este texto pretende problematizar alguns desses pontos através de dois eixos: uma entrevista com Michel Foucault e uma conversa deste com Gilles Deleuze. Um fio conecta estes autores: ambos procuraram fazer de suas atuações acadêmicas um campo de atuação política. Mas se pensarmos bem, seria possível dissociar tais esferas?

No texto “Verdade e poder”, Foucault faz a distinção entre dois tipos de intelectual: o “universal” e o “específico”. O primeiro seria a figura do grande escritor culto, predominante no século XIX e início do XX, e cuja consciência supostamente universal representaria a todos. Possuidor de elevada consciência – uma figura praticamente sacra – era de sua incumbência a crítica das mazelas sociais, do Estado e das injustiças. Voltaire seria, para o autor, um precursor deste personagem.

Em contrapartida, o século XX conheceria o intelectual “específico”. Sua formação se engendra num contexto em que o discurso científico adquire centralidade na sociedade:

 A figura em que se concentram as funções e os prestígios do novo intelectual não é mais a do ‘escritor genial’, mas a do ‘cientista absoluto’; não mais aquele que empunha sozinho os valores de todos, que se opõe ao soberano ou aos governos injustos […]; é aquele que detém, com alguns outros, ao serviço do Estado ou contra ele, poderes que podem favorecer ou matar definitivamente a vida.(p.50)

Vale lembrar o contexto em que Foucault escreve: grandes avanços na biologia e na física, sobretudo na física nuclear e genética…

Este intelectual possuiria uma tripla especificidade: sua posição de classe no modo de produção capitalista; a especificidade das condições de vida e trabalho; e a especificidade da política de verdade nas sociedades contemporâneas ¹.

Esta mudança de tipologia de intelectuais também se dá por outro motivo: as vozes oprimidas e as “massas” não mais precisariam ser representadas por intelectuais (alguma vez precisaram?…). É o que evidencia Deleuze, numa conversa com Foucault, no texto “Os intelectuais e o poder”: “Para nós, o intelectual teórico deixou de ser um sujeito, uma consciência representante ou representativa. Aqueles que agem ou lutam deixaram de ser representados, seja por um partido ou por um sindicato que se arrogaria o direito de ser a consciência deles” (130). Reforçando tal tala, Foucault afirma que o papel do intelectual não é mais o de estar “na frente” das reivindicações e da crítica, esclarecendo os ignorantes. Sua atuação passa a ter um alvo específico: o poder². O que não deixa de ser ambíguo, dada a sua própria posição social, anteriormente citada.

Para isso, os filósofos apresentam uma nova concepção de teoria: não totalizadora, mas prática, de forma a propiciar o seu uso. Uma teoria que contribua para a “destruição progressiva e a tomada do poder ao lado de todos aqueles que lutam por ela, e não na retaguarda, para esclarecê-los. Uma ‘teoria’ é o sistema regional desta luta”(132). Desta forma, todo aquele que sente na pele a opressão seria capaz de lutar contra o poder: mulheres, trabalhadores, homossexuais, trans*, negros e índios, por exemplo. Importante ressaltar, por fim, que os autores salientam a compatibilidade dessas lutas com a causa operária. E, “à medida que devem“, diz Foucault, “combater todos os controles e coerções que reproduzem o mesmo poder em todos os lugares, esses movimentos estão ligados ao movimento revolucionário do proletariado”. Deleuze finaliza a conversa: “Toda defesa ou ataque revolucionário parciais se unem, desse modo, à luta operária.”(142)

Evidentemente os autores propõem uma imagem normativa do que seria um intelectual, e de que forma ele deveria agir. Decerto há outras concepções, tão subjetivas quanto. Mas a importância da perspectiva dos autores se dá, penso, na concepção inovadora da teoria como uma “caixa de ferramentas”, para usar a definição de Deleuze. Como já foi dito em outra oportunidade, toda tentativa de apreensão da realidade social implica, direta ou indiretamente, numa transformação dela.

Também é importante lembrar que o tema aqui em voga é sobre o papel do intelectual, e não do cientista; embora, como mostrou Foucault, ambas as posições possam se fundir. O intelectual, como também o cientista, ocupa uma posição social central: estão numa das formas de se difundir o poder, através do discurso de verdade. Tomar consciência disso não envolve nenhum messianismo ou martírio, embora ainda possamos nos defrontar com alguns desses resíduos do século XIX. Envolve, sim, um dilema ético e político – uma reflexidade frente ao mundo social, sua condição de existência e seu papel nele.

¹ “Em nossas sociedades, a “economia política” da verdade tem cinco características historicamente importantes: a “verdade” é centrada na forma do discurso científico e nas instituições que o produzem; está submetida  a uma constante incitação econômica  e política […]; é objeto, de várias formas, de uma imensa difusão e de um imenso consumo […]; é produzida e transmitida sob o controle, não exclusivo, mas dominante, de alguns grandes aparelhos políticos ou econômicos […], enfim, é objeto de debate político de confronto social (as lutas “ideológicas”).” (p. 52)

² “Onde há poder, ele se exerce. Ninguém é, propriamente falando, seu titular; e, no entanto, ele sempre se exerce em determinada direção, com uns de um lado e outros de outro; não se sabe ao certo quem o detém; mas se sabe quem não o possui.” (p.138)

Sobre os intelectuais:

Michel Foucault (1926-1984) e Gilles Deleuze (1925-1995) foram dois eminentes pensadores franceses, cujas influências deleuze-sartre-foucaultromperam as fronteiras da Filosofia, influenciando praticamente todas as Humanidades. Foulcault elaborou uma vasta obra, fundando o que chamou de arqueologia do saber, genealogia do poder e genealogia dos modos de subjetivação. Deleuze, junto com Félix Guattari, fundou, com grande influência de Nietzsche, Bergson e Spinoza, uma epistemologia centrada nos conceitos de diferença, sentido e rizoma.

REFERÊNCIA:

FOUCAULT, Michel. “Verdade e poder” e “Os intelectuais e o poder”. in Microfísica do poder. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2014. pp 35 – 54, 129 – 142.

Anúncios

O que você tem a dizer sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s