Mulheres e o campo científico: desafios e avanços. Entrevista com Hildete Pereira. Parte I

Por Edmar M. Braga Filho

Em entrevista concedida no dia 29 de agosto de 2014, a professora e economista Hildete Pereira problematizou o papel das mulheres na atividade científica, e constatou: ainda há muito a se fazer. Ela afirma que um dos maiores desafios é a conciliação da vida familiar com a carreira científica, que exige muita dedicação de tempo. O trabalho doméstico e a criação dos filhos ainda são vistos como funções estritamente femininas.

Tendo pesquisado durante anos o papel das mulheres na ciência e na tecnologia, Hildete foi uma das pioneiras da emergência do pensamento feminista no mundo acadêmico. Exercendo hoje a função de editora da revista Gênero, UFF, ela também nos falou sobre este ofício. Confira a entrevista!

A senhora pesquisou sobre a atuação das mulheres na ciência no Brasil. Ainda é possível dizer que a produção do conhecimento científico é sobretudo feita por homens? Quais os desafios e os avanços?

A produção da ciência no Brasil ainda é vista como uma produção masculina. E não é só no Brasil: é no Brasil e no mundo. Evidentemente houve avanços, e nós podemos discuti-los mais adiante.

Quando pensamos em invenções, a sociedade nunca atribui suas descobertas a um gênio feminino. Sempre tem um homem por trás. O que as pessoas não sabem é que os gênios precisam trabalhar com outras pessoas, que são gênios também, ou podem ser pessoas normais, mas que dão suporte às atividades científicas. Nas pesquisas científicas que são feitas não encontramos nenhum avanço científico que não tenha mulheres por trás, trabalhando nestes laboratórios.

Há um caso interessantíssimo no Brasil. Todo mundo conhece o Cesar Lattes, sobretudo em relação ao prêmio Nobel. Aliás, abaixo do Equador ninguém ganhou o Nobel de ciência. Podemos ganhar da paz e literatura, agora na ciência… Recentemente um brasileiro ganhou um grande prêmio de matemática, mas não foi o Prêmio Nobel.

Então, o Cesar Lattes tinha uma assistente, também física, que pode ser considerada uma pioneira da física no Brasil: Neusa Amato. Ela nos contou, numa entrevista, um episódio sobre o grande feito do Lattes: a descoberta do méson pi (Píon).

A Neusa Amato e a Elisa Frota Pessoa são duas pioneiras da física no Brasil. cujos trabalhos nós consideramos marcantes para a física brasileira. Juntas, elas publicaram um artigo na primeira revista de física do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), em 1951. Estamos lidando, assim, com os alicerces da constituição da ciência no Brasil, que é a virada dos anos 1940 para os anos 1950.

O César Lattes disse para a Neusa, por volta do ano de 1959, anos depois daquela publicação: “Neusa, seu eu tivesse lido seu artigo na época em que foi escrito, tinha desenvolvido melhor o Píon antes”. Ela disse que ficou paralisada com a fala dele. Na realidade, a Elisa e a Neusa tinham uma contribuição essencial para os trabalhos que Cesar fazia. Importante frisar que, como era um artigo de duas assistentes dele, mulheres, a revista publicou porque tinha mérito, mas ele não se detalhou com a devida atenção, e uma delas era o braço direito dele. Este é um pequeno exemplo de como por trás das atividades científicas, nos laboratórios, há mulheres, e que não recebem o devido crédito. É preciso remexer a história para se entender o porquê de as mulheres estarem alijadas do sistema científico. O porquê de a sociedade não as reconhecer como inventoras e cientistas.

Com relação aos avanços, certamente o século XX é o século em que as mulheres avançaram, não só no Brasil, mas também no mundo, enquanto pessoa humana e ser social, com a educação. A educação, a partir do século XIX, foi mais franqueada às mulheres. E elas foram em massa para as escolas, já no século XX. A escolarização foi provavelmente o maior avanço que nós fazemos ao longo do século passado.

Concomitantemente a isso, o mercado de trabalho também se abriu mais com este avanço da escolaridade. A própria constituição da ciência depende do sistema educacional. Não é por acaso que a ciência vai se desenvolver nos conventos medievais e as mulheres eram, assim, interditadas de participar deste espaço.

Vale lembrar que no Brasil, na virada do século XIX para o XX, nós éramos analfabetas, ao passo que terminamos o século XX com uma escolaridade superior à masculina. As mulheres possuem mais escolaridade que os homens. Há menos mulheres analfabetas. Desta forma, a escolaridade foi um enorme avanço, como também a entrada nos laboratórios e nas salas de aula das universidades brasileiras ao longo dos anos 1950 e 1960, mais vagarosamente, e aceleradamente após a década de 1970, que é a minha geração com curso superior, e a entrada em massa no mundo do trabalho fora de casa.

O desafio é, para as mulheres, a conciliação da maternidade com a carreira. A carreira científica é extremamente exigente. Você tem uma dedicação muito maior do que quando você pisa num chão de fábrica, por causa da definição de horas e dedicação exclusiva. Sobre isso, é importante destacar que a atividade familiar, no que tange à maternidade e à criação dos filhos, é ainda vista como uma responsabilidade feminina. E isto é um desafio para as mulheres que escolhem “fazer” ciências como profissão.

Outro desafio é o fato de que com as mulheres, quanto mais escolarizadas, maior é a diferença do rendimento entre elas e os homens. Assim, no extrato salarial mais baixo do mercado de trabalho, os homens e as mulheres são mais ou menos parecidos. Agora, quando se distancia na educação, aí o fosso salarial é enorme. É um paradoxo. Uma mulher que fez doutorado ganha menos que um homem com doutorado.

A senhora é editora da revista Gênero, da UFF, tendo escrito recentemente um artigo sobre isso (“A revista Gênero/UFF: fazendo ‘ciências’ na militância”). Como foi possível fazer “ciências” na militância através da revista?

É uma longa história. A revista Gênero está fazendo quinze anos este ano (foi fundada em 1999), e eu não sou fundadora da revista. Eu sou sua editora desde 2004. Embora eu não tenha feito parte de sua fundação, eu estou na base da entrada do feminismo na universidade, uma vez que eu trabalho na UFF desde 1972. Neste ano estava começando a engatinhar o movimento de mulheres no Brasil, ainda muito pequeno, propiciado sobretudo pela Rose Marie Muraro, quando trouxe a Betty Friedan aqui em 1971, com uma entrevista ontológica no pasquim, um jornal muito reconhecido e de oposição. Houve uma tentativa do jornal de ridicularizar as mulheres na sua luta. Isso para mulheres que já tinham tido acesso ao livro de Simone de Beauvoir, “O Segundo Sexo”, de 1949, e esse livro da Betty Friedan (A Mística Feminina), que é um best-seller americano, cuja primeira publicação data de 1963.

A Betty Friedan era um nome extremamente reconhecido nos EUA e na Europa, vindo ao Brasil para começar a “botar fogo” nas mulheres brasileiras. Havia já certa ebulição social e insatisfação feminina com o tradicional papel das mulheres, muitas  brasileiras que tinham ido estudar fora do país, na Europa e nos EUA,  já estavam contaminadas com o “vírus” do feminismo. Quando ocorreu essa eclosão do movimento feminista no Brasil eu já era professora da UFF. Tinha entrado várias mulheres, nas universidades, portando algumas destas já numa perspectiva libertária. Nós já tratávamos da discussão do que era discriminação e desigualdades. A revista Gênero emerge neste contexto, nos cursos de História e na Escola de Serviço Social. Eu, que sou economista, era uma voz dissonante dentro do departamento porque eu não tinha muitos adeptos. Eu fazia menos barulho lá dentro.Todavia, eu tinha uma forte militância no movimento das mulheres, isso permitiu que houvesse sempre um diálogo com a revista, embora não tivesse participado de sua fundação.

As dificuldades que temos é fazer com que, na universidade, exista uma política editorial para as suas revistas. Os percalços são relacionados à burocracia administrativa. Mas, de qualquer maneira, é um desafio você acreditar na transformação, na mudança, e lutar por ela, e construir teorias que tenham reconhecimento científico.

Mini Bio:

Hildete Pereira é graduada em Ciências Econômicas, pela UFPB, tendo feito mestrado e doutorado na UFRJ. Desde 1973 é professora da Faculdade de Economia da UFF. Foi diretora do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento (2005 – 2007). Em maio de 2012 foi nomeada Coordenadora de Educação e Cultura na Secretaria de Políticas para as Mulheres, da Presidência da República. Já em 2013, foi nomeada Assessora Especial do Gabinete da Ministra de Estado da Secretaria de Políticas para as Mulheres, da Presidência da República. Aqui o seu currículo Lattes.

Algumas referências:

MELO, Hildete Pereira de . A Revista Gênero/UFF: fazendo ‘ciências’ na militância. Revista Estudos Feministas (UFSC. Impresso), v. 21, p. 605-616, 2013.

MELO, Hildete; LASTRES, Helena; MARQUES, Teresa. Gênero no sistema de ciência, tecnologia e inovação no Brasil. Revista Gênero (UFF) v.4 n2 ,73 – 94, 2004

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*Ilustração da capa: Profa. Hildete Pereira de MELO. (UFF – RJ) em nossa sala de pesquisa. Ph: Joanna Cassiano

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