Doutores no Brasil – O Que Dizer Sobre Nossa Formação – A Crítica ao Sistema de Ensino – Parte 2

Por Leonel Salgueiro,

   A posição que um pesquisador ocupa no campo da ciência relaciona-se diretamente com o capital humano técnico e científico acumulado de que ele dispõe num determinado momento. É o que argumentam Léa Velho e Milena Yumi Ramos sobre a forma de se fazer cientistas no Brasil. Lembrando que esta é a segunda parte da resenha sobre o texto. Para melhor entende-lo, acompanhe a primeira parte clicando aqui.

   A definição de capital humano para Corney Bozeman, interpretado pelas autoras, refere-se à soma de conhecimentos científicos, técnicos, sociais e gerenciais, habilidades e recursos incorporados pelo pesquisador, via educação formal, treinamento adicional, relações sociais e redes de interação que ele constrói ao longo de sua carreira.

   Sendo assim, como afirmam as autoras, embasadas em Bourdieu (2003), as relações de força nesse campo se realizam especialmente através das relações de conhecimento e de comunicação. Essas relações convertem o esforço de pesquisa em capital simbólico, passível de ser mobilizado em disputas por posições mais qualificadas no campo científico.

   Em survey com portadores de título de doutor em ciências e engenharia no Reino Unido, Lee, Miozzo e Laredo (2010) verificaram, por exemplo, que conhecimentos especializados são mais valorizados na pesquisa realizada por organizações acadêmicas e públicas; a conjunção de conhecimentos especializados (um tipo mais geral de conhecimento) e habilidades mais gerais e transferíveis são mais valorizadas no preenchimento de vagas no setor industrial e em ocupações não convencionais para pessoas com esse nível de instrução. Em termos absolutos, as autoras analisam estas habilidades analíticas gerais e capacidade de resolver problemas como valiosas nas três opções de carreira.

   Os novos componentes não estritamente científicos do perfil do talento científico contemporâneo estão fortemente associados ao aumento da demanda por um novo profissional. É o caso de países diversos, tais como Estados Unidos e Alemanha, a depender da especialidade, há mais doutores empregados na indústria, em carreiras técnicas convencionais (relativas às funções de pesquisa, desenvolvimento, design ou produção) e crescentemente não convencionais (não relacionadas com pesquisa, tais como carreiras gerenciais, de consultoria de negócios ou de prestação de serviços especializados) do que no setor acadêmico.

   Além do fato de que doutores têm sido contratados por setores não tradicionais, até mesmo setores convencionais, como universidades e organizações públicas de pesquisa, estão empregando cada vez mais doutores não para fazer pesquisa, mas para desenvolver estratégias e políticas de pesquisa.

   No Brasil, como a intensificação do intercâmbio científico e tecnológico internacionais e a diversificação das atividades e setores demandantes de doutores rebatem na formação oferecida no país? Será que a lógica da expansão da oferta de doutores em função da demanda de quadros para atender às necessidades da própria pós-graduação, em especial, e do sistema universitário em geral, bem sucedido por um longo período, ainda é válida?

   É discutido que o sistema de avaliação brasileiro tem seus moldes no padrão norte americano. Utilizando-se das ideias de Moreira (2009), as autoras escrevem que o modelo de avaliação da pós-graduação brasileira é definido e executado pela Capes no conceito de cultura de performatividade, em que o foco é o desempenho mensurável dos programas. Argumentam que a disseminação dessa cultura tem alterado as relações entre os docentes/ pesquisadores, que passaram a pautar-se pela competição (por quantidade de publicações, por convites para eventos e outras atividades acadêmicas, por verbas para pesquisa, por número de orientandos e bolsistas, por destaque no cenário acadêmico do país). É inegável que este modelo norte americano tenha levado o Brasil e a comunidade científica nacional a uma visibilidade global. Mas na atualidade, como afirmam as autoras, o seu esgotamento é aparente. Como afirma Schwartzman na página 34 de seu artigo — Nota sobre a transição necessária da pós-­graduação brasileira ao dar prioridade ao desempenho acadêmico, através de um conjunto de instrumentos de regulação legal, incentivos e mecanismos de avaliação, acabou criando um sistema altamente subsidiado cuja principal função, na prática, é se auto alimentar, e que, com as exceções de sempre, nem consegue produzir uma ciência de padrão internacional, nem consegue gerar tecnologia para o setor produtivo, nem consegue dar a prioridade devida aos que buscam formação avançada para o mercado de trabalho não acadêmico.

   Logo, como afirmam as autoras, não é possível manter o foco exclusivamente na produção e publicação acadêmica, sob o risco de esvaziar o planejamento e promoção de atividades vitais de formação e geração de conhecimento que não se relacionam diretamente com os indicadores de desempenho aceitos pelo sistema. Por exemplo, a formação de futuros pesquisadores para atuar na economia baseada no conhecimento não pode prescindir da inserção nas redes científicas globais, e isso depende do desenvolvimento de capital humano que se dá no curso do doutorado. Integram tal capital: conhecimentos especializados avançados, o conhecimento tácito, habilidades gerenciais, além da constituição da rede de contatos com pesquisadores seniores, docentes e atores extras científicos, tais como agentes de fomento e a indústria, e ativos simbólicos, como prestígio.

   As atividades e os processos de formação dos doutores brasileiros não podem ser resumidos a seus resultados diretamente observáveis. Como argumentam as autoras, vozes já se levantam na comunidade científica contra a cultura da performatividade generalizada e em defesa da redução da centralização, do estímulo à autonomia e da diversificação dos programas e objetivos de formação pós-graduada. Outras, em defesa do resgate da perspectiva humanista de formação para o exercício da pesquisa e do ensino, implicando uma práxis utilizável para intelectuais e acadêmicos que desejam saber o que estão fazendo, quais são seus compromissos como eruditos e, ainda, como conectar tais princípios com o mundo em que vivem como cidadãos.

   Por fim, manter este modelo não significa outra coisa senão perder a oportunidade de o país recuperar a capacidade de gerar as competências e habilidades necessárias para seu desenvolvimento no longo prazo.

 

Mini-bio:

Léa Velho é professora titular em Estudos Sociais da Ciência e da Tecnologia junto ao Departamento de Política Científica e Tecnológica da Universidade Estadual de Campinas (aposentada e atualmente professora colaboradora no mesmo departamento). Realizou pós-doutorado no Department of Rural Sociology da Universidade de Ohio, USA. Foi pesquisadora senior e diretora de pós-gaduação no Institute for New Technologies da Universidade das Nações Unidas em Maastricht, Holanda, de 2001 a 2005. Foi professora visitante no Departament of Social Studies of Science da Universidade de Cornell, USA; na Science Studies Unit da Universidade de Edinburgh, RU; e no Department of Sociology da Universidade de Indiana em Bloomington, USA. e da Scuola Superiori SantAnna em Pisa, Italia. É membro do comitê editorial de periódicos nacionais (História, Ciências, Saúde – Manguinhos) e internacionais (Science and Public Policy; Science, Technology and Society).

Milena Ramos é doutoranda pela Universidade Estadual de Campinas em Política Científica e Tecnológica, atualmente é pesquisadora na Embrapa, onde trabalha com planejamento institucional. Tem experiência nas áreas de Política de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), com ênfase em indicadores de CT&I, e Gestão Estratégica, com ênfase em planejamento estratégico.

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