Assédio sexual impede o progresso feminino no mundo científico

 Por: Joanna Cassiano

 

É o que afirma Christie Aschwanden, jornalista de Ciência, em recente texto publicado no jornal norte-americano The New York Times*. Aschwanden se baseia em um relatório produzido pela antropóloga Kathryn Clancy, da Universidade de Illinois, e publicado em julho no periódico PLOS On (http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.1371%2Fjournal.pone.0102172).

No levantamento realizado por Clancy, cientistas foram entrevistados a respeito de suas experiências com assédio durante pesquisas de campo. A antropóloga se baseou em 666 relatos, três quartos deles de mulheres. Quase dois terços dos participantes disseram que sofreram assédio sexual durante pesquisas de campo. Mais de 20% relataram agressões sexuais. Estudantes, alunos de pós-doutorado e mulheres mostravam maior probabilidade de serem vítimas dos superiores. Poucos participantes afirmaram que o local da pesquisa tinha um código de conduta ou política relativa a assédio sexual.

Nesse sentido, a jornalista relaciona os dados obtidos pela antropóloga com uma pesquisa de sua autoria, e chama atenção para um levantamento que realizou este ano, com a aplicação de questionários enviados a 502 jornalistas que trabalham nas editorias de Ciência. Segundo os dados obtidos, mais da metade das mulheres afirmaram que não foram levadas a sério por causa do seu gênero, uma a cada três sofreu percalços no progresso na carreira e praticamente metade sustentou não ter recebido crédito por suas ideias. Quase metade disse ter sido paquerada ou ter ouvido comentários sexuais, e uma em cada cinco sofreu contato físico indesejado. Esses dados chamam atenção para a necessidade de se discutir a discriminação, a parcialidade e o assédio sexual entre cientistas e jornalistas da ciência, que continuam dificultando o progresso feminino em duas áreas historicamente e majoritariamente masculinas.

Entre os relatos presentes na pesquisa da antropóloga Kathryn Clancy, a jornalista Christie Aschwanden destaca o de uma aluna de doutorado, que afirma: “O professor costumava brincar que somente mulheres bonitas podiam trabalhar com ele, o que me levou a indagar se meu intelecto e capacitação tinham relevância”.  Segundo Clancy, no meio acadêmico, acusações de assédio sexual e estupro costumam ser administradas internamente, criando incentivos para encobrir especialmente agressores com influência e poder.

Entre os estudos publicados este ano sobre o tema, destaca-se também uma pesquisa realizada na Universidade da Pensilvânia, onde cartas idênticas, supostamente de estudantes, foram enviadas a mais de 6.500 professores de 259 universidades, pedindo para discutir oportunidades de pesquisa. Os professores estavam mais propensos a responder ao e-mail de “Brad Anderson” do que de candidatas fictícias com nomes como “Claire Smith”. Esse tipo de parcialidade perpetua a discriminação.

Nesse sentido, Christie Aschwanden afirma que é preciso uma mudança de dentro para fora nos centros de pesquisa, nas Universidades e nas redações jornalísticas. É preciso que os diretores-presidentes, chefes de departamento, diretores de laboratório, professores, editores e redatores-chefes tomem uma posição e digam: não me importa se você é meu amigo ou colega preferido; nós não tratamos mulheres assim.

 

*Disponível em: http://www.nytimes.com/2014/08/12/science/harassment-in-science-replicated.html?_r=0

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