Doutores no Brasil – O Que Dizer Sobre Nossa Formação – A Perspectiva Histórica – Parte 1

Por Leonel Salgueiro,

A política de pós-graduação no Brasil, orientada para a carreira e para o desempenho acadêmico, como impõe o modelo de avaliação Capes, não é capaz de atender às novas competências e papéis esperados dos doutores no atual cenário de intensificação das relações e do intercâmbio científico, econômico e cultural no âmbito nacional e, especialmente, internacional. É o que argumentam Léa Velho e Milena Yumi Ramos em seu artigo – Formação de Doutores no Brasil: O esgotamento do modelo vigente frente aos desafios colocados pela emergência do sistema global de ciência.

O texto trabalhado será divido em duas partes, visando à sua melhor compreensão. Nesta primeira é desenvolvido o cenário em que se encontram os pesquisadores acadêmicos e não acadêmicos na atualidade. Na segunda parte, que irá ao ar no dia 04 de setembro, serão discutidos os argumentos das autoras sobre o sistema de avaliação, publicação e circulação do conhecimento científico criado a partir do novo campo científico que veremos hoje.

As autoras discorrem no artigo sobre a formação de pesquisadores no contexto da emergência do sistema global de ciências através de uma perspectiva histórica. Velho argumenta que uma das transformações mais importantes que ocorreram na pesquisa científica no século XX foi ter crescido apoiada no ciclo virtuoso da relação entre comunidade científica e comunidade política. Nesse sentido, como argumenta o político estadunidense Vannevar Bush (1945), o esforço para promover a ciência em benefício da sociedade merece amplo apoio governamental. Logo, essa atividade teve sua escala significativamente aumentada e impulsionada por recursos públicos, formando o que conhecemos hoje em nossos sistemas nacionais.

Mas não podemos negar que este processo se desenvolveu de maneira desigual no mundo, sendo protagonizado pelos países mais industrializados, representados pela tríade Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão. Eles construíram amplas e eficientes bases técnicas e institucionais e formaram estoque de pessoal altamente qualificado que os capacitaram a liderar o progresso científico.

As autoras logo argumentam que com a intensificação da globalização da atividade econômica e da emergência de novas potências geopolíticas (além de diversos outros fatores citados), a vanguarda absoluta da tríade na ciência começou a enfraquecer. O que fez abrir espaço para a entrada de novos centros localizados em países como os do leste europeu e do bloco BRICS.

Efeitos práticos dessas condições na pesquisa científica incluem: o crescimento do número de publicações em coautoria internacional, a ampliação da divisão do trabalho científico em pesquisas experimentais de larga escala e a maior ocorrência de equipes multidisciplinares em centros de pesquisa.

Há inúmeros fatores que interferem nos padrões de colaboração observados na pesquisa científica: influência histórica, proximidade linguística/cultural e geopolítica e capacidade científica dos países parceiros, afinidade intelectual entre os colaboradores, natureza da pesquisa, entre outros.

Com isso, a unidade crítica de produção de conhecimento nesse paradigma deixa de ser a instituição científica e passa a ser a rede de cientistas. Para lidar com essa nova realidade, os países desenvolvidos e alguns países emergentes têm revisado suas políticas de ciência e tecnologia, inclusive no que tange à formação de recursos humanos. Embora estejam adotando abordagens diferentes, dadas as particularidades das dinâmicas institucionais locais, eles têm observado algumas medidas comuns: treinar mão de obra globalmente competente; estimular a mobilidade internacional, criar condições atrativas para o desenvolvimento de pesquisa internacionalmente competitiva, e conectar seus sistemas nacionais de pesquisa às redes globais de conhecimento.

Analisando a partir dos trabalhos de coautoria e da nova rede de relações entre pesquisadores de países Norte-Sul, as autoras argumentam que provavelmente, os países que aderiram o padrão do centro usam com maior eficiência o conhecimento produzido pelo sistema global de ciência, uma vez que possuem sistemas nacionais mais capacitados, melhor adaptados à nova dinâmica de produção do conhecimento e apoiados por políticas seletivas de colaboração científica internacional. Os demais países que integram a rede estabelecem conexões científicas com os países do centro, mas não formam com eles relações estruturais. É o caso do Brasil. O país não parece figurar entre as opções mais atrativas quando se consideram fatores favoráveis à colaboração internacional, tais como: a combinação entre excelência em pesquisa e a escolha diplomática da região geográfica ou da escala e escopo da pesquisa com o potencial de contribuição para a competitividade em áreas específicas.

Fica evidente, assim, o papel central desempenhado pelo pesquisador e sua rede ad hoc no sistema global de ciência. As questões que se colocam, então, são: como criar essas conexões? Qual o papel do treinamento avançado do pesquisador nesse processo? Especificamente, qual a contribuição da formação doutoral?

Para estas questões, acessem a segunda parte deste texto, onde será discutida a critica das autoras ao sistema de pós-graduação no Brasil clicando no link logo abaixo.

(EM BREVE – 2 PARTE) Doutores no Brasil – O Que Dizer Sobre Nossa Formação – A Crítica ao Sistema de Ensino – Parte 2

Mini-bio:

Léa Velho é professora titular em Estudos Sociais da Ciência e da Tecnologia junto ao Departamento de Política Científica e Tecnológica da Universidade Estadual de Campinas (aposentada e atualmente professora colaboradora no mesmo departamento). Realizou pós-doutorado no Department of Rural Sociology da Universidade de Ohio, USA. Foi pesquisadora senior e diretora de pós-gaduação no Institute for New Technologies da Universidade das Nações Unidas em Maastricht, Holanda, de 2001 a 2005. Foi professora visitante no Departament of Social Studies of Science da Universidade de Cornell, USA; na Science Studies Unit da Universidade de Edinburgh, RU; e no Department of Sociology da Universidade de Indiana em Bloomington, USA. e da Scuola Superiori SantAnna em Pisa, Italia. É membro do comitê editorial de periódicos nacionais (História, Ciências, Saúde – Manguinhos) e internacionais (Science and Public Policy; Science, Technology and Society).

Milena Ramos é doutoranda pela Universidade Estadual de Campinas em Política Científica e Tecnológica, atualmente é pesquisadora na Embrapa, onde trabalha com planejamento institucional. Tem experiência nas áreas de Política de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I), com ênfase em indicadores de CT&I, e Gestão Estratégica, com ênfase em planejamento estratégico.

 

Referência:

BUSH, Vannevar. Science, the endless frontier. Washington: United States Government Printing Office, 1945.

RAMOS, Milena Yumi; VELHO, Lea. Formação de doutores no Brasil: o esgotamento do modelo vigente frente aos desafios colocados pela emergência do sistema global de ciência. Avaliação (Campinas),  Sorocaba ,  v. 18, n. 1, Mar.  2013 .

Anúncios

O que você tem a dizer sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s