Pensamento social brasileiro no mundo:entrevista com André Botelho. Parte II

Por Edmar M. Braga Filho

Na segunda e última parte da entrevista, o sociólogo André Botelho discorre sobre a inserção das pesquisas de pensamento social brasileiro no cenário internacional, apontando desafios e refletindo sobre a disciplina. Também fala sobre o estado deste campo de estudos aqui no Brasil – sua abrangência, temas e importância.

Para ele, o “repertório do pensamento social pode abrir teórica e empiricamente novas questões para os problemas candentes da sociologia contemporânea”. Confira!

Em termos da circulação nos debates internacionais em ciências sociais, como o senhor avaliaria a presença e inserção das atuais pesquisas na área de Pensamento Social? Quais são os maiores desafios e as críticas, caso as tenha?

Os desafios à área de pensamento social brasileiro não me parecem muito diferentes daqueles postos a outras áreas das ciências sociais, em geral, e a outras disciplinas que a formam – uma vez que o pensamento social brasileiro é uma área interdisciplinar de pesquisa, que envolve também a história e a literatura, por exemplo. Isso, mesmo levando em conta o interesse pelos nossos temas já assentado no exterior, como estava discutindo. O principal desafio, me parece, é a consolidação das redes internacionais e sua tradução em projetos de pesquisa transnacionais, como minha colega Profa. Elisa Reis chamou a atenção em sua entrevista aqui mesmo em Circuito Acadêmico.

 É verdade que, como em qualquer outra área de pesquisa, também na do pensamento social, convivem posições distintas e, em verdade, concorrentes, sobre a definição da agenda de pesquisas e sobre a própria identidade cognitiva e institucional da área. Eu integro grupos de pesquisas com alguma experiência em redes internacionais, e sei que o diálogo com outras tradições nacionais pode frequentemente nos levar a priorizar aspectos diferentes, nos fenômenos sociais investigados, daqueles que muitas vezes são mais valorizados num contexto nacional particular. Assim, por exemplo, nos meus trabalhos e nos trabalhos que oriento, tenho procurado explorar o repertório do pensamento social em relação a problemas candentes da sociologia contemporânea. Por isso, nosso interesse volta-se mais para aspectos teóricos heurísticos do pensamento social brasileiro do que para suas particularidades. Inspiradora tem sido a recomendação de Charles Tilly, não por acaso feita no “Prefácio à edição brasileira” do seu Coerção, capital e estados europeus, 1990-1992, de que um programa sociológico crucial para pesquisadores “não europeus” da construção nacional – uma definição que me cabe – é hoje o de entender de que modo “a exportação de estruturas europeias de Estado produziram Estados tão diferentes em regiões de colonização europeia”; programa para cuja boa execução o importante, como sugere, não é “aplicar mecanicamente modelos europeus, mas examinar os tipos de causas e efeitos que produziram coisas diferentes quando foram aplicados nos ambientes distintivos”.

 Pois bem, se isso parece favorecer um diálogo mais amplo na sociologia, digamos internacional, de um lado; não deixa de esbarrar, de outro, no fato de que o interesse estrangeiro pelo Brasil – e aqui não estou pensando apenas no pensamento social – está, em geral, mais voltado para aspectos supostamente particulares – quando não idiossincráticos – da nossa sociedade e história; interesse, nem sempre, é verdade, modelado na chave do exótico, embora essa visão colonialista não tenha desaparecido de jeito nenhum.

 Embora essa seja a minha posição, não me parece, todavia, que nem deva ser a única posição numa área de pesquisa, nem tampouco que uma abordagem desse tipo possa dar conta de toda a complexidade dos fenômenos estudados, ou mesmo, necessariamente, dos seus principais aspectos. Ou seja, se vejo a internacionalização da agenda de pesquisa do pensamento social como algo potencialmente produtivo, e em si mesmo muito interessante, não a considero um caminho exclusivo. Sou a favor da convivência de diferentes posições, não apenas por uma questão de orientação politica, mas também propriamente cognitiva, sem o que não há ciências sociais relevantes.

 Um dos aspectos positivos desse interesse assentado pelos temas do pensamento social no exterior é justamente a possibilidade de estudos comparativos mais consistentes. E esta sim é uma fronteira que, a meu ver, precisamos enfrentar, e que, mais uma vez, diz respeito às ciências sociais como um todo. Digo mais consistentes, porque toda pesquisa na área do pensamento social brasileiro é, num plano, inevitavelmente comparativa, já que, para dizer o mínimo, os próprios instrumentos cognitivos a partir dos quais a sociedade brasileira foi interpretada, não são “brasileiros”, mas, como sociedade formada a partir do antigo sistema colonial, nos vieram de “fora”; então falar do Brasil sempre implica em comparações difusas, a dialética entre não ser e ser outro de que falava o crítico Paulo Emilio Salles Gomes. É por isso que a própria internacionalização das ciências sociais, tema dessa entrevista, é ela mesmo tema e objeto do pensamento social, cuja história pode ser até apreciada a partir de certo balanceio caprichoso entre cosmopolitismo e provincianismo. Isso me remete a questão, talvez, mais importante, no debate sobre internacionalização e pesquisas comparadas hoje.

 Como “internacionalização” é tema que se presta a muito bovarismo, sobretudo por parte daqueles que ainda não estão supostamente “suficientemente internacionalizados”, para não corrermos o risco de, mais uma vez, no afã de nos tornarmos (ou afetarmos como) cosmopolitas, e acabarmos por aprofundarmos nosso provincianismo, três pontos no mínimo deveriam ser observados. Em primeiro lugar não dissociar a internacionalização do conhecimento sociológico que produzimos da discussão sobre as condições sociais e os processos de desigualdades implicados na produção, difusão e circulação internacional do conhecimento. Em segundo, é preciso esclarecer e qualificar o que se entende por internacional, e o que é simplesmente estrangeiro, isto, é, expressa uma visão nacional com força suficiente para se impor num contexto mais amplo, nos termos de uma geopolítica do conhecimento. Por fim, é preciso pluralizar o que se entende por internacionalização, bem como os termos ou contextos nacionais de comparação. Penso, por exemplo, que os estudos pós-coloniais, as pesquisas sul-sul e, algo que me interessa particularmente neste momento, as comparações Brasil, América Latina e Caribe podem desempenhar papéis os mais relevantes nesse sentido. A propósito da importância da reflexão brasileira de novos diálogos e novos trânsitos internacionais, um dos livros que organizei com Lília Schwartz, Agenda brasileira, reunindo textos de vários especialistas no pensamento social brasileiro, acaba de ser publicado na Coréia do Sul em coreano, e não em inglês, e por uma editora comercial.

Recentemente no Circuito Acadêmico a professora Elisa Reis afirmou que a produção do campo de estudos sobre Pensamento Social Brasileiro está super dimensionada, e que a maioria dos estudos são apenas sobre história das ideias, não levantando questões relevantes de pesquisa. O senhor concorda?

A área de pensamento social brasileiro vem crescendo muito nas últimas duas décadas. Isso é um fato. O nosso GT da ANPOCS é um dos mais antigos, e hoje existem somente no âmbito desta associação pelo menos mais dois ou três GTs, mais especializados, voltados para o pensamento politico, o pensamento latino-americano, temas da modernidade periférica e intelectuais. Está presente igualmente e com o mesmo vigor nas associações profissionais, na Sociedade Brasileira de Sociologia – SBS – e na Associação Brasileira de Ciência Politica – ABCP.

 Atualmente, integro a diretoria da Biblioteca Virtual do Pensamento Social (BVPS) que é coordenada pela Profa. Nísia Trindade Lima, da Fiocruz, inciativa em rede, nacional e internacional, que nasce justamente como resposta em novo patamar – virtual – ao aumento da área e sua consequente dispersão, dentro e fora do Brasil. Resumindo, a BVPS é uma iniciativa de cooperação entre pesquisadores e instituições com o objetivo de maximizar o intercâmbio de informação, experiências e conhecimentos de modo a promover a criação e a sustentação de uma rede de fontes e fluxos de informação. A BVPS busca assim ser um instrumento dinâmico cuja atuação se delineia em três campos básicos inter-relacionados: (1) produção de conhecimento, (2) memória da ciência e das tradições intelectuais, (3) subsídios didático-pedagógicos e divulgação científica. Bem, o que gostaria de ressaltar é que os levantamentos da BVPS junto a plataforma Lattes do CNPq indicam que, atualmente, cerca de 900 pesquisadores (com no mínimo mestrado concluído), qualificam três ou mais itens da sua produção como “pensamento social brasileiro”. Então, estamos falando de um universo realmente relevante.

Numa área com esse tamanho, diversidade de temas e complexidade é natural que diferentes metodologias não apenas convivam, mas concorram entre si, e, como já observei antes, a diversidade de posições, na minha visão de sociologia, me parece altamente produtiva. De todo modo, desenvolvimentos epistemológicos da sociologia pós-positivista, já mostraram, em primeiro lugar, que a sociologia não funciona na base de consensos mais ou menos estáveis, como a ideia de paradigma implica; mas o dissenso sobre questões empíricas e teóricas é a nossa condição própria. Em segundo, que toda posição metodológica implica numa visão de sociedade, da qual toda pesquisa parte, mais ou menos abertamente, e cujos resultados, por sua vez, acrescentam plausibilidade e ao mesmo tempo subtraem plausibilidade a outras imagens gerais da sociedade. Isso posto, a história das ideias me parece ser parte do trabalho teórico da sociologia (há uma boa discussão a esse respeito na teoria social contemporânea, como em trabalhos de Jeffrey Alexander e Anthony Giddens, por exemplo). Isso, claro, desde que se possa concordar que tanto ideias, crenças, representações são parte da vida social e também elementos relevantes em sua explicação – e não apenas meros reflexos de forças materiais ou institucionais; quanto que a história é uma dimensão importante do social, porque o social não se esgota na sincronia, porque o presente é antes parte de um processo mais amplo e que, inclusive, as escolhas do passado pesam na modelagem das possibilidades do presente e do futuro de sociedades e de grupos sociais.

Então, embora concorde que nem todo trabalho na área de pensamento social brasileiro possa ser definindo nos termos de uma “história das ideias”, estas me parecem constituir instrumentos analíticos estratégicos em disciplinas que, como a sociologia, não é orientada apenas empiricamente e, além disso, traz consigo uma história intelectual de que é parte. Ao contrário de outras ciências, a sociologia, como dizia o Prof. Octavio Ianni, “sempre se pensa, ao mesmo tempo em que se realiza, desenvolve, enfrenta impasses, reorienta”. Aqui, me parece, mais um significado importante do pensamento social brasileiro, dessa feita, não exclusivamente como área de pesquisa delimitada, mas em relação às ciências sociais como um todo, de que é parte tal como as praticamos hoje: um fio de Ariadne em meio a um contexto de estrema especialização, compartimentação e falta crônica de comunicação entre subáreas do conhecimento. Papel meta-teórico que, fora do país, costuma ser desempenhado pelos trabalhos reunidos sob o rótulo institucional de “história das ciências sociais”, presente inclusive em associações estrangeiras e internacionais.

Mas essa é apenas mais uma dimensão da pesquisa do pensamento social brasileiro, cujo sentido, a meu ver, vai certamente além da “história das ciências sociais”, e sem dúvida da “história das ideias”, bem como do papel de meta-teoria na comunicação entre teorias clássicas e contemporâneas, embora nada disso seja menor ou desimportante. Mas a pesquisa do pensamento social brasileiro, enquanto modalidade do trabalho sociológico, antes valoriza, sem, porém, reificá-las, as componentes simbólicas da vida social, mostrando, através de metodologias as mais diversas, como o conhecimento produzido sobre o social é apropriado de modo rotineiro (e modificado constantemente) nas práticas de seus portadores sociais. Assim, porque as ideias são forças sociais e porque o presente sempre esconde a dimensão mais ampla de processo, o pensamento social brasileiro é importante e só existe mesmo de modo relacional em diálogo com outras tradições intelectuais ou contextos nacionais. E o seu crescimento e consolidação como área de pesquisa parece relacionado também às repostas que tem sido capaz de oferecer à sociedade contemporânea. Minha aposta pessoal é que o repertório do pensamento social pode abrir teórica e empiricamente novas questões para os problemas candentes da sociologia contemporânea: desigualdade social e diferenças culturais; identidades nacionais, regionais e globalização; cidadania e multiculturalismo; crise do Estado-nação, associativismo e sociedade civil; entre outras.

Bio data:

Graduado em Ciências Sociais na UFRJ, com mestrado e doutorado na UNICAMP, André Botelho é referência nacional nos estudos de pensamento social brasileiro. Professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia, IFCS/UFRJ, Botelho também possui experiência em Teoria Social Comparada e Cultura Política. Possui inúmeras publicações, entre artigos, livros e coletâneas organizadas. É também pesquisador do CNPq e da FAPERJ, e membro do comitê editorial do periódico científico Sociologia&Antropologia (PPGSA/IFCS). Foi Visiting Fellow da Princeton University (2013). Seu currículo pode ser acessado aqui. 

Alguns trabalhos do professor:

BOTELHO, A. . Passado e futuro das interpretações do país. Tempo Social (USP. Impresso), v. 22, p. 47-66, 2010.

BOTELHO, A. . Teoria e história na sociologia brasileira: a crítica de Maria Sylvia de Carvalho Franco. Lua Nova (Impresso), p. 331-366, 2013.

BOTELHO, A. (Org.) ; SCHWARCZ, L. M. (Org.) Agenda brasileira: temas de uma sociedade em mudança. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. v. 1. 580p .

BOTELHO, A. . O Brasil e os dias. Estado-nação, modernismo e rotina intelectual. Bauru: EDUSC, 2005. 256p.

*Ilustração: Prof. André Pereira BOTELHO (PPGSA/UFRJ) em sua sala no IFCS. Foto: Leonel Salgueiro

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