José Saramago, ensino e reforma educacional

Julia França

Foi publicado em 30 de agosto de 2013, pela Editora UFPA (Universidade Federal do Pará), o livro inédito de José Saramago “Democracia e Universidade”. O livro do escritor português, Prêmio Nobel de Literatura em 1988, reúne dois textos acerca da democracia. O primeiro texto, objeto dessa análise, refere-se a Conferência Democracia e Universidade, proferida na Universidade Complutense de Madri, em 2005, intitulado Democracia e Universidade. A fala de Saramago pondera a respeito da historicidade da linguagem; seu interesse é na analise de termos, palavras, que apesar do uso corrente, mudam de significado com o uso e com o passar do tempo. Dentre os conceitos analisados, bondade, justiça, utopia e, mais importante para nosso debate, a universidade, a educação e a instrução.

A distinção entre educação e instrução é essencial para compreensão do argumento do autor. De início, Saramago argumenta que hoje utilizamos a palavra Educação, como se educação e instrução tivessem o mesmo significado. Mas assim não o é. “Instruir é transmitir conhecimentos acerca de distintas matérias que estão no programa, educar é dirigir, encaminhar, doutrinar” (p.19).

O papel e a responsabilidade da educação não cabe a universidade ou ao professor, pois faltam meios para fazê-lo. A educação depende da família e da própria sociedade. O que cabe ao professor e a universidade é a instrução, a transmissão de conhecimentos a respeito das ferramentas adequadas e programas pertinentes, que permitam ao aluno progredir técnica e cientificamente na sociedade (p. 20).

Todavia, precisamos concordar: a universidade é último nível formativo. Como aperfeiçoar ou desenvolver o ensino superior, se a escola primária ou secundária estão mal? “Como se pretende que se dê o milagre de funcionar o último nível, a última etapa de um processo de aprendizagem que começa aos quatro anos e termina aos vinte e tal, se o que o antecede não está bem?” (p. 25)

A escola, seja primária, secundária ou a universidade é um “bloco homogêneo e coerente” (p.26). Desse modo, não há solução para a universidade, se não se encontra solução para os problemas do ensino primário e médio (p.26).

O que fazer, então?

É preciso considerar a universidade como um lugar de debate, do espírito crítico, que obriga a refletir, capacita para a análise e informa sobre o mundo em que vivemos. Sobretudo, a universidade tem a capacidade de converter o aluno em cidadão. (p. 26-27) Educar – e não instruir – nos valores cívicos, é a principal proposta do autor em relação a universidade. Não se trata de formar bons profissionais, apenas. A universidade deve se preocupar principalmente em formar bons cidadãos e assim fortalecer a noção de democracia. “Aprendizagem da cidadania, é o que creio sinceramente que falta”. (p. 28)

SARAMAGO, José. Democracia e Universidade. Belém: Ed. UFPA; Lisboa: Fundação José Saramago, 2013

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