Pensamento Social Brasileiro no mundo: entrevista com André Botelho. Parte I

Por Edmar M. Braga Filho

Em entrevista concedida por e-mail, entre os dias 28 e 29 de julho de 2014, o professor André Botelho, especialista em pensamento social brasileiro, discorre sobre o interesse internacional por essa área de estudos, como também sobre sua experiência lecionando numa faculdade estadunidense, e o estado atual deste campo de estudos. Para o professor, os temas investigados no pensamento social não se esgotam ao Brasil, por serem da ordem histórica e social.

Sem dúvida, a fala do professor será de grande valia para uma das principais propostas do Circuito Acadêmico: refletir sobre a produção, circulação e internacionalização da sociologia que aqui é produzida. Confira!

O Pensamento Social Brasileiro, com seus mais variados autores e temas, é de interesse exclusivo dos brasileiros, ou o senhor pensa que este campo de estudos também pode despertar o interesse “lá fora”? De que forma?

Na verdade, os temas mais pesquisados na área de pensamento social brasileiro – como cultura brasileira, questão racial, construção de identidades etc. – estão entre os que, historicamente, tem despertado maior, mais recorrente e mais sistemático interesses noutros países, e isso antes mesmo da tardia institucionalização das ciências sociais no Brasil. Para dar um único exemplo, que outra área suscitou que se forjasse uma identidade profissional entre os pesquisadores, como a dos “Brazilianistas” nos Estados Unidos? Uma rápida consulta aos catálogos das editoras estrangeiras, universitárias ou comerciais, também mostrará o interesse pelos ensaios clássicos de interpretação do Brasil e por temas do pensamento social, objeto de suas publicações, seja por meio de traduções ou edições originais.

É certo que o interesse pelos temas do pensamento social é sazonal e também responde a uma série complexa de fatores nem de longe exclusivamente de ordem cognitiva. Assim, por exemplo, o próprio desenvolvimento do interesse pelo Brasil como área de estudo na universidade norte-americana esteve ligado também ao contexto da Guerra Fria. Recentemente, o incremento desse interesse em vários países está relacionado também ao papel do Brasil na economia global como parte dos Brics.

Seja como for, como área de pesquisa o pensamento social brasileiro compreende temas e questões que certamente não se esgotam ao contexto brasileiro, porque são de ordem histórica e social. E esses temas têm sido objeto de estudos não apenas no Brasil, como noutros países, muitos dos quais mantêm, ou mantiveram, centros de estudos brasileiros, ou latino-americanos, em suas principais universidades. Um aspecto importante a observar é que nem sempre as pesquisas desenvolvidas no âmbito do pensamento social brasileiro, no Brasil, confirmam as versões ou expectativas às vezes mais otimistas dos estrangeiros sobre nossa sociedade. Ao contrário, frequentemente somos levados a desestabilizar visões mais estáveis que se repetem sobre a “identidade” ou a “cultura brasileira”, mostrando como estas construções revelam contingências históricas e lutas simbólicas e materiais as mais diversas.

O interesse pelos temas que, aqui no Brasil, são estudados pelo pensamento social é tão forte que, frequentemente, colegas brasileiros de passagem pelo exterior são solicitados a falar sobre eles, mesmo quando fogem de sua especialidade de pesquisa, ou mesmo que, no contexto brasileiro, se posicionem de modo distante ou crítico à área.

Recentemente o senhor lecionou na Princeton University, nos EUA. Poderia nos contar como foi a recepção e o interesse dos alunos pelo Pensamento Social Brasileiro e pela Sociologia Brasileira?

Eu participei de duas disciplinas optativas. Uma na graduação, para calouros, sobre questão racial no Brasil e nos Estados Unidos, na qual tivemos que mobilizar material escrito e audiovisual em inglês, naturalmente. O trabalho que os colegas brasileiros e os brasilianistas vêm fazendo nos Estados Unidos é excelente, de modo que já contamos com um corpo básico de textos clássicos e suas interpretações traduzidos para o inglês que nos permitem ministrar um curso de pensamento social brasileiro ou comparado tranquilamente, por exemplo, com ensaios de Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda e outros – sem falar, claro, na bibliografia produzida nos próprios Estados Unidos e nos artigos sobre outras especialidades das ciências socais brasileiras, escritos em geral por brasileiros, e publicados nos periódicos científicos e, eventualmente, na tradução dos seus livros. A outra foi uma disciplina no doutorado, em que foram usadas três línguas: espanhol, português e inglês, com material traduzido ou não, já que nosso público era formado por estudantes e pesquisadores de temas latino-americanos, do Caribe e do Brasil. Ainda naquele mesmo semestre da primavera de 2013, tínhamos ainda todas as semanas o “Brazil Monday Seminar”, coordenado por Pedro Meira Monteiro e Edward Telles no âmbito do Program in Latin-american Studies (PLAS), reunindo colegas brasileiros ou brasilianistas falando exclusivamente sobre suas pesquisas sobre Brasil. De modo que essa minha experiência foi muito beneficiada pelo contexto prévio de interesse institucionalizado por temas do pensamento social brasileiro. Tem sido intensa desde então a troca intelectual também com doutorandos e jovens doutores, especialmente de Princeton, que tem se dedicado a estes temas, inclusive em suas estadias de pesquisa aqui no Rio de Janeiro.   

Bio data:

Graduado em Ciências Sociais na UFRJ, com mestrado e doutorado na UNICAMP, André Botelho é referência nacional nos estudos de pensamento social brasileiro. Professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia, IFCS/UFRJ, Botelho também possui experiência em Teoria Social Comparada e Cultura Política. Possui inúmeras publicações, entre artigos, livros e coletâneas organizadas. É também pesquisador do CNPq e da FAPERJ, e membro do comitê editorial do periódico científico Sociologia&Antropologia (PPGSA/IFCS). Foi Visiting Fellow da Princeton University (2013). Seu currículo pode ser acessado aqui. 

Alguns trabalhos do professor:

BOTELHO, A. . Passado e futuro das interpretações do país. Tempo Social (USP. Impresso), v. 22, p. 47-66, 2010.

BOTELHO, A. . Teoria e história na sociologia brasileira: a crítica de Maria Sylvia de Carvalho Franco. Lua Nova (Impresso), p. 331-366, 2013.

BOTELHO, A. (Org.) ; SCHWARCZ, L. M. (Org.) Agenda brasileira: temas de uma sociedade em mudança. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. v. 1. 580p .

BOTELHO, A. . O Brasil e os dias. Estado-nação, modernismo e rotina intelectual. Bauru: EDUSC, 2005. 256p.

 

*Ilustração: Prof. André Pereira BOTELHO (PPGSA/UFRJ) em sua sala no IFCS. Foto: Leonel Salgueiro

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