Fim da inocência: configurações sociais do discurso científico

Por Edmar M. Braga Filho

A ciência, enquanto forma de saber e racionalidade, possível através de métodos e práticas específicos, desfruta de uma posição central na sociedade contemporânea. Seja na economia e no desenvolvimento de um país, seja na configuração que ela toma em outras esferas do mundo social – movimentos sociais, práticas de poder, política e educação. É sobre essas especificidades próprias do mundo social que esboçarei uma reflexão. Para tal, diferentemente de outrora, não será focado o campo científico em si, mas a sua relação com a sociedade “fora” dos muros da universidade e dos laboratórios – ou seja, com outros campos sociais.

Primeiramente, a ciência pode ser compreendida na atualidade como um sistema de exclusão de discursos, tal como formulado por Foucault (2012). Enquanto vontade de verdade, a ciência moderna tem origem remota – séculos XVI e XVII, sobretudo na Inglaterra com os empiristas. A força da verdade estava na observação, na atestação de algum fenômeno. Já no século XIX, a ciência ganha mais importância com o desenvolvimento industrial, junto com a ideologia positivista que o acompanha

Como vontade de verdade, podemos entender uma forma de poder em relação ao que é dito, pronunciado, defendido e acreditado, definindo o que seria verdadeiro e  falso.  Tal forma de exclusão de discursos é ininterruptamente reproduzida por práticas institucionais, sobretudo a educação. Podemos entender de forma mais clara a centralidade da ciência nas práticas discursivas, por exemplo, analisando temas candentes da política nacional através da ótica do texto em questão: direitos civis e reprodutivos (“casamento gay” e descriminalização do aborto), legalização e comercialização de drogas ilícitas e o chamado movimento ecológico. Em todos esses casos é interessante notar o apelo à cientificidade, de ambos os lados antagônicos, como forma de defender a verdade de suas respectivas posições.

Além disso, também é importante destacar o discurso com pretensão científica, no que tange aos seus efeitos na sociedade: as práticas médicas, a psiquiatria e o sistema penal, por exemplo. Surge, assim, todo um aparato político que visa à interferência nas características vitais da existência de um indivíduo: seu melhoramento, condicionamento e controle. Nasce a biopolítica¹. Com ela, é interessante notar as formas de subjetivação dos indivíduos diante dos discursos de verdade – a forma como se relacionam com seus corpos, alimentação, práticas sexuais e comportamentais.

Outro autor que se aventurou na área dos discursos foi o sociólogo Pierre Bourdieu (1998). Para ele, as ciências sociais devem formular uma teoria dos efeitos da teoria. Isso se torna mais crítico nas próprias Humanidades, uma vez que ao impor um modo mais ou menos autorizado de ver o mundo social, contribuímos para a sua construção. Tal imposição, todavia, para ser legitimada, depende da acumulação do capital simbólico dos agentes (ou seja, depende do reconhecimento social).

Diferentemente do que propôs Foucault (2012), Bourdieu (1998) dá atenção não para os processos inerentes aos discursos em si (e as instituições correspondentes), mas ao poder que lhes é delegado socialmente. Ou seja, o uso da linguagem dependeria da posição social daquele que discursa. A legitimidade e a eficiência do discurso e daquele que o emite dependem, desta forma, de certas condições: reconhecimento, situação e forma com que é pronunciado.

A partir da análise de Bourdieu, é possível enquadrar o discurso científico, e também os seus efeitos na vida social, como sendo aquele pronunciado por agentes portadores de capital simbólico específico (“científico”), desfrutando uma posição de prestígio social (e que é produzido e reproduzido pela educação e pela comunicação social, dentre outras formas), recebendo o reconhecimento necessário para impor a verdade científica. Aqueles atores que lutam pelos (e contra) temas anteriormente mencionados (aborto, casamento gay, drogas ilícitas e movimento ecológico), ao fazerem uso da autoridade científica, reproduzem a centralidade da ciência nas tomadas de decisão da atualidade.

Ao se refletir sobre as configurações sociais da ciência, procurei evocar os seus efeitos enquanto práticas discursivas, usando, para isso, a noção de “vontade de verdade”, na obra A Ordem do Discurso, e o de poder simbólico pela linguagem, na obra O que falar quer dizer. Foucault desenvolveu muito mais os seus estudos (a obra usada neste texto é apenas a transcrição de sua aula inaugural no Collège de France), e Bourdieu refletiu de forma mais elaborada a função do intelectual em outra obra (Homo Academicus). Todavia, fica a provocação: aquilo que produzimos na Academia, mais do que procurar entender o mundo social (e também natural), contribui para a modificação da percepção que temos do real, bem como para a construção da vida em sociedade.

¹Uma análise contemporânea sobre a definição de biopolítica pode ser encontrada no artigo “O conceito de biopoder hoje”, de Rabinow e Rose. http://periodicos.ufpb.br/ojs/index.php/politicaetrabalho/article/view/6600/4156

REFERÊNCIA

BOURDIEU, Pierre. “Linguagem e poder simbólico” in O que falar quer dizer. A economia das trocas linguísticas. Algés: DIFEL, 1998 (pp 93 – 147).

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. São Paulo: Editora Loyola, 2012.

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2 opiniões sobre “Fim da inocência: configurações sociais do discurso científico”

  1. Interessante a aproximação feita neste artigo, destas perspectivas , que pode nos servir para discutir sobre o que se está fazendo com os saberes ditos sociais, a quem eles estão atendendo. Quem está fazendo o uso social dos conceitos produzidos pelas Ciências Sociais?

    1. Olá, Socorro. Obrigado pelo comentário.
      São questões que me deixam muito interessado. O discurso científico, seja ele das humanidades ou das exatas, pode nos ajudar a transformar a nossa percepção da natureza e da sociedade (e essa própria dicotomia). Inclusive entre nós mesmos, cientistas sociais (e, no meu caso, estudante ainda). É muito interessante ler autores e fazer o exercício de apreender o real de acordo com a teoria por eles formulada.

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