Professor, pesquisador, editor e parecerista. A profissão é fascinante, mas, nem por isso, fácil. Entrevista com Sérgio Costa. Parte VI.

Por Julia França

“A profissão é fascinante, mas, nem por isso, fácil”, afirma Sérgio Costa. Além de professor titular de sociologia da Universidade Livre de Berlim, Costa é também membro do corpo editorial de periódicos nacionais e internacionais (dentre eles Novos Estudos, Iberoamericana, Lateinamerika-Analysen e Ciências Sociais Unisinos) e parecerista ad hoc de uma série de publicações. A respeito do trabalho de professor, pesquisador, editor e parecerista, Julia França encerra a entrevista ao professor Sérgio Costa com seguinte pergunta:

Gostaríamos de entender melhor o seu trabalho como editor e parecerista. O que o senhor pode nos dizer a respeito da rotina, da quantidade de trabalho,…?

Eu sei que os colegas do Brasil trabalham muito, mas o trabalho de professor universitário na Alemanha é bem diferente. Para começar, os professores titulares na Alemanha tem uma carga horária muito alta, de 9 horas semanais, o que corresponde a 4 cursos em um semestre, 5 cursos em outro. Essa é uma carga muito exagerada, em termos brasileiros.

Na Alemanha, somente os professores titulares orientam doutorandos, o que causa uma concentração grande de doutorandos por professor. No Brasil, o professor não admite número maior do que 6, 8 doutorandos. Lá na Alemanha temos de 20 até 30 doutorandos, além dos mestrandos. Então, a relação com mestrandos e doutorandos é mais distante do que se faz no Brasil. Isso porque é matematicamente impossível orientar 20, 30 doutorandos com um acompanhamento estreito, como se faz na universidade americana, ou como se faz aqui no Brasil. As orientações são mais coletivas.

Além disso, antes que o trabalho de doutorado vá a defesa, há sempre dois pareceres, um parecer do orientador e um parecer escrito de um segundo examinador. Então, uma boa parte do nosso trabalho é dedicado a esse exame de mestrados e doutorados, escrever pareceres sobre esses trabalhos.

Algo que se difundiu muito nas ciências em geral: os pareceres anônimos. Nas ciências sociais, apesar de recente está bem difundido, parecerista anônimo para tudo: para pedir financiamento, para submissão de artigos aos periódicos.. São os pares que avaliam os colegas. Isso fez aumentar tremendamente a carga de trabalho dos professores. No caso da Alemanha os professores catedráticos, os professores titulares, são os mais bem avaliados esses pareceres. Há efetivamente uma demanda – não estou exagerando quando digo – mas uma demanda que não se pode atender, dada a quantidade de pedidos de pareceres.

Então para que a gente consiga sentar na biblioteca, fazer pesquisa e trabalhar na escrita de artigos, há de se ter uma disciplina ferrenha. Os modelos são variados, alguns reservam da parte da manhã até o meio dia para não fazer nenhum tipo de trabalho que não seja ler e escrever. Obviamente, não se faz muitos amigos com esse modelo (risada), mas é uma forma de assegurar um espaço para a pesquisa.

Outros dividem o tempo: no semestre letivo concentram todas as atividades para que fora do período letivo possa se dedicar a tarefas de pesquisa. A rotina de cada professor varia. No meu caso, particularmente, há uma dificuldade maior: as muitas viagens. A minha cátedra se chama Sociologia da América Latina. Se eu passar mais de seis meses sem ter um contato próximo, sem saber o que está sendo produzido, sem conduzir pesquisas a nível de campo ou pelo menos acompanhar doutorandos que estão envolvidos com pesquisa de campo na América Latina, eu não vou ser considerado especialista da área.

Isso dificulta a organização do tempo. Precisamente fora do período letivo, quando os colegas se dedicam a ler e escrever, é o período eu tenho para circular na América Latina.

A profissão é fascinante, mas, nem por isso, fácil.


Confira a entrevista na íntegra:

Trajetória Acadêmica no Exterior. Entrevista com Sérgio Costa. Parte I

Avaliação das Instituições e Internacionalização das Ciências Sociais na Alemanha. Entrevista com Sérgio Costa. Parte II

Assimetrias na Circulação do Conhecimento. Entrevista com Sérgio Costa. Parte III

Os Desafios para a Internacionalização das Ciências Sociais. Entrevista com Sérgio Costa. Parte IV

Assimetrias e diálogos equitativos nas academias centrais e periféricas. Entrevista com Sérgio Costa. Parte V

Bio data:

Sergio Costa possui graduação em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (1985), mestrado em Sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (1991), doutorado (1996) e livre docência em sociologia pela Universidade Livre de Berlim, Alemanha. É professor titular de sociologia da Universidade Livre de Berlim e pesquisador associado do CEBRAP (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, São Paulo). Foi professor adjunto da Universidade Federal de Santa Catarina (1997-1999), professor assistente da Universidade Livre de Berlim (2000-2005) e professor visitante da Universidade de Flensburg, Alemanha (2006-2007). Suas áreas de pesquisa, publicação e atuação profissional são sociologia política, sociologia comparativa e teoria social contemporânea. Seus temas de especialização são democracia e diferenças culturais, desigualdades sociais, racismo e anti-racismo, movimentos sociais e politica transnacional.

(Texto informado pelo autor emhttp://lattes.cnpq.br/7240117651971056)

Para acompanhar o trabalho do professor Sérgio Costa, sugerimos:

COSTA, Sérgio. “Researching Entangled Inequalities in Latin America. The Role of Historical, Social and Transregional Inequalities“, desiguALdades.net Working Paper Series, Berlin, n. 9, 2011, pp. 3-27 

COSTA, Sérgio. Desprovincializando a sociologia: a contribuição pós-colonial. Revista brasileira de  Ciências Sociais. [online]. n. 60, vol.21, pp. 117-134, 2006

Confira também outras entrevistas com o professor Sérgio Costa:

BARROS, Surya; MATOS, Teresa. Entrevista com Sérgio Costa. Política & Trabalho, Revista de Ciências Sociais, n. 32, Abril 2010, pp. 17-22

COSTA, Sérgio. Contribuição ao debate sobre a internacionalização da pesquisa e da formação em ciências sociais: Entrevista da Comissão Editorial. Plural: Revista de Ciências Sociais. Universidade de São Paulo. Vol. 13, 2006, pp.135-144.

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