A ciência brasileira não é feita por cientistas

 Por Joanna Cassiano

“Para poder atuar como cientista, eu atuo como professora de nível superior, eu literalmente faço ciência nas horas vagas”. É o que afirma Suzana Herculano Houzel, neurocientista e professora do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em entrevista concedida à Agência Gestão CT&I. Para ela, a ausência de regulamentação da prática científica atrasa o desenvolvimento tecnológico do Brasil.

A pesquisadora ressalta o fato de que a profissão cientista não consta na tabela de profissões regulamentadas pelo Ministério do Trabalho. Ou seja, oficialmente, não existe no Brasil. O que ocorre, então, é que a pesquisa científica fica a cargo dos professores universitários que, em jornada dupla, precisam conciliar os  inúmeros afazeres próprios à prática docente com seus trabalhos de produção e pesquisa. Nesse panorama, é comum que alguma das duas funções, a docência ou a pesquisa, ambas de extrema relevância, acabe sendo prejudicada.

Além dos professores universitários, a neurocientista chama atenção para o papel dos pós-graduandos nesse processo. Para ela, o conhecimento produzido por alunos de mestrado e doutorado é o que em grande parte garante o crescimento da produção científica nacional. Entretanto, ainda que o esforço de trabalho de mestrandos e doutorandos gere um significativo produtivo científico, essas categorias continuam sendo vistas como estudantes, e não profissionais. Suzana questiona: “O erro é não reconhecer esse trabalho como qualquer outro. Por que o jovem cientista recém-graduado precisa passar pela humilhação de continuar sendo estudante?”

A professora critica a obrigatoriedade de declaração  de ausência de vínculos empregatícios do mestrando ou doutorando com o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e/ou com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). “É a única atividade de emprego se ele quiser atuar como cientista, sem nenhum vínculo empregatício e benefícios trabalhistas”, ressalta. Em um ciclo que se conclui em, no mínimo, seis anos após a graduação, o pesquisador ainda precisa lidar com a insegurança e falta de estabilidade profissional.

Houzel questiona ainda a baixa remuneração das bolsas de pós-graduação oferecidas por agências de fomento. Os 1,5 mil pagos aos mestrandos e 2,2 mil pagos aos doutorandos são uma barreira para a dedicação exclusiva à pesquisa. Para a pesquisadora, fundações e institutos de ciência poderiam contratar os pós-graduandos, receber do governo os valores que hoje são pagos como bolsa e repassá-los em forma de salário, com contrato de trabalho e benefícios empregatícios. “Com a obrigatoriedade de contratação virá a possibilidade de salários com valores competitivos”, afirma. Para ela, “É fundamental para a soberania de uma população que ela valorize  a produção de conhecimento cientifico. Isso começa por valorizar seus cientistas. Fazer ciência no Brasil hoje,  infelizmente, é uma péssima decisão profissional com pouquíssimas perspectivas”.

Entrevista disponível em:

http://www.agenciacti.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=4363%3Aa-ciencia-brasileira-nao-e-feita-por-cientistas-afirma-professora-da-ufrj&catid=3%3Anewsflash&fb_action_ids=569363909801387&fb_action_types=og.likes&fb_source=aggregation&fb_aggregation_id=288381481237582

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