Jet lag acadêmico. Breve balanço do Congresso Mundial da ISA 2014

Por Thamires Castelar

Há pouco mais de duas semana, encerrados os trabalhos do XVIII Congresso Mundial da Associação Internacional de Sociologia (ISA), pesquisadores do mundo inteiro voltaram para casa. Em se tratando de jet lag, não há muitas dúvidas de que a viagem de volta do Japão foi mais dura para os sociólogos do hemisfério Sul de América do que para a maioria dos demais pesquisadores. Se as horas de voo e a experiência sensível dos congressistas definissem o balanço do evento, desigualdade poderia ser uma boa definição. Felizmente, não é.

Pode-se dizer que cruzar mares, atravessar o mundo, trocar o dia pela noite, arrostar uma semana intensa de discussões e, depois de tudo, voar de volta em muitas (muitas!) horas e ter de destrocar tudo de novo é praticamente uma saga!  Para além das diferenças no quesito jet lag, alguns dados do congresso,  disponibilizados pela ISA, nos permitem realizar um balanço. Especialmente no que refere à composição geográfica e de gênero da participação nesse evento internacional. Os números nos dizem algo sobre o que ficou depois do Sayonara!

Entre ouvintes, participantes e convidados, foi registrada a presença de 6.087 pessoas, provenientes de 104 países de diferentes regiões. Não apenas participaram pesquisadores e professores, pois 24% dos que inscritos eram estudantes. A presença feminina foi majoritária, com uma proporção de 52% do total de participantes. No caso dos representantes brasileiros no congresso, 228 ao todo, a maioria também eram mulheres:140, o que representa um 61% em relação aos 88 homens.. Mais do que a media geral do evento, entre os brasileiros 31% eram estudantes. Em comparação com os outros 6 países com maior número de inscritos, pode-se dizer que o Brasil (sétimo colocado) apresenta um notável sobrelevo no que concerne à questão de representatividade de gênero. Quanto a proporção de mulheres, apenas a Austrália se colocou à nossa frente, com 63% de pesquisadoras de todos os níveis. Considerando-se em ordem decrescente, os 7 países com maior número total de registros, os dados para a proporção de mulheres são, respectivamente: Japão com 44%, EUA com 55%, Alemanha com 53%, Reino Unido também com 53%, Austrália com 63% e, finalmente, Brasil com 61%. Com exceção da participação feminina dentre os acadêmicos japoneses, no qual a desigualdade de gênero é mais evidente, em termos gerais, a composição da ISA foi predominantemente feminina, com uma proporção de 52% de delegadas.

Algumas diferenças que delineiam a divisão de gênero em hierarquias no mundo do trabalho acadêmico, contudo, precisam ser mencionadas. Para mencionar apenas os dados mais evidentes no que concerne ao quê está sendo pesquisado por quem, alguns dados quanto aos percentuais de participação feminina em função do tema discutido nos Comitês de Pesquisa e Grupos Temáticos. Em ordem decrescente, segue-se os temas e as respectivas porcentagens da participação feminina: Mulheres na Sociedade (85%), Sociologia da Infância (78%), Pesquisa sobre a Família (75%), Sociologia Visual (72%), Biografia e Sociedade (70%), Etnografia institucional (65%), Sociologia da Saúde (64%), do Envelhecimento (64%), O Corpo nas Ciências Sociais (63%).

Esse dados evidenciam a maior proporção de mulheres envolvidas em temas tradicionalmente atribuídos ao feminino. A questão pode ser vista também em relação ao  extremo oposto, ou seja, aquele que se refere à predominância masculina em campos específicos de interesse. O percentual reduzido de mulheres apareceu mais acentuado, por exemplo, nas seguintes áreas: Economia e Sociedade (40%), Sociologia Comparativa (33%), Teoria Sociológica (32%), História da Sociologia (30%), Sociocibernética (25%),  Analise Conceitual e Terminológica (22%), Escolha Racional (20%).

Os números não surpreendem a expectativa teórica quanto às diferenças de gênero. Talvez, desse conjunto, mais importante do que reconhecer o domínio masculino na produção do conhecimento sociológico considerado mais prestigioso, seja fazer dele uma porta para atualizarmos a reflexão. Considerar o pequeno espaço das mulheres nas discussões sobre Teoria Sociológica ou sobre Análise Conceitual e Terminológica, por exemplo, significa compreender de que modo o próprio “produto” está condicionado à essa divisão do trabalho. E que se há uma divisão Norte-Sul no que refere à separação entre produtores de teoria e produtores de dados, ela parece replicar-se também no que refere à divisão de gênero.

Infelizmente, não estão disponíveis alguns outros dados sobre a cor dos participantes ou sobre o suporte financeiro (existente ou não) por trás de cada pesquisador, por exemplo. Provavelmente eles não existem. Destaco essa ausência porque, ao considerar um evento internacional de tal magnitude, não seria coerente ignorar sua importância enquanto locus privilegiado para se mapear e discutir, com maior profundidade, as hierarquias que sustentam a reprodução das desigualdades em nosso próprio campo. Ainda em relação às dinâmicas da divisão do trabalho, certamente refletidas nas atividades corriqueiras da ISA, seria especialmente relevante avaliar a representatividade numérica dos países/regiões em função das participações nas diferentes áreas de interesse (ou de direto à pertencer, legitimamente).

Embora tais dados não tenham sido oficialmente publicados, pôde-se contabilizar que no Comitê de Pesquisa sobre Teoria Sociológica, por exemplo, dentre os 159 participantes, 5 eram brasileiros. Esse número corresponde a um percentual de aproximadamente 3,14% que, embora seja aparentemente baixo, não é discrepante em do percentual de brasileiros em relação ao total de participantes em todo o Congresso, algo em torno de 3,74%.

A propósito dos últimos balanços, voltando a mencionar o total de participantes em relação à sua origem geográfica, algo que pode ser entendido como aspecto positivo, é que a presença do Sul apareceu fortalecida. Por um lado, dado que o congresso aconteceu no Japão, não surpreende a grande participação do pesquisadores de Ásia. A marca da presença dos pesquisadores japoneses (aproximadamente 1.000) foi acrescida pela participação de mais 445 procedentes da Coréia do Sul, China, Taiwan e Hong Kong. Considerando as dificuldades que a sociologia do Sul tem para circular, contudo, chama a atenção que quase 25% dos participantes eram do Leste asiático. Ainda nesse sentido, tendo a vantagem da proximidade geográfica, foram contados 251 sociólogos da Austrália, 189 da Índia, 51 das Filipinas e assim por diante, somando mais de 2.000 participantes, cerca de um terço, da Ásia e de regiões do Pacífico.

Entre algumas medidas e distintas distâncias, no que diz respeito à participação dos que pertencem ao Sul Global e suas respectivas contribuições para a produção do conhecimento, a defasagem (ou lag) entre Norte e Sul ficou um pouco espremida. Em termos de conforto, se quiséssemos que tudo permanecesse com está, conveniente mesmo seria ficar na primeira escala, no meio do caminho, em algum lugar na Europa. Mas, por outro lado, sabemos que a centralidade (geográfica e cultural) da Europa é também produto de um processo sócio-histórico que a colocou lá. E, afinal, se prezássemos apenas o conforto, não estaríamos discutindo sociologia: são essas defasagens as que nos fazem pensar.

Ao menos nessa ocasião, o jat lag, sim, valeu a pena!

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