Assimetrias e diálogos equitativos nas academias centrais e periféricas. Entrevista com o professor Sergio Costa, Parte V

Por Julia França

Como diminuir as assimetrias e tornar o diálogo entre as acadêmias centrais e periféricas mais equitativo? É o que pergunta Julia França ao professor Sérgio Costa, professor titular da Universidade Livre de Berlim. Para o sociólogo, construir redes é uma boa alternativa: apesar de não eliminar desigualdades, a rede pode promover a circulação de conhecimento e compensar assimetrias de acesso e recursos. Entretanto, é preciso refletir a respeito da posição das academias nacionais na geopolítica do conhecimento e sobretudo a necessidade de se “desaprender privilégio”, em referência à Spivak. Confira abaixo:

Como tornar o diálogo entre as academias centrais e periféricas mais equitativo?

Eu acredito muito no modelo de cooperações internacionais através de redes. Redes são formas de produção e circulação de conhecimento que não eliminam as desigualdade de recursos, mas, como mecanismo, pode compensar assimetrias.

Por exemplo, para montar a nossa rede de pesquisa sobre desigualdade sociais, nós recebemos mais recursos do governo alemão do que colegas da Argentina receberiam. No entanto, se há a intenção de compensar, no interior da rede, as desigualdades e assimetrias de acessos e recursos, constrói-se mecanismos para convidar pessoas e estabelecer discussões acerca das posições das diferentes academias nacionais, na geopolítica global do conhecimento. Assim, poderíamos promover uma circulação de conhecimento de alta qualidade sem reproduzir assimetrias. Essa é uma opção.

Agora, essa opção demanda uma reflexão permanente dos membros de uma rede como essa. Um reflexão acerca da sua própria posicionalidade. Há uma citação da Spivak muito interessante, ela diz “é preciso desaprender privilégios”. Então, se um professor de Princeton, Yale, de qualquer universidade bem ranqueada é convidado em qualquer lugar do mundo, independentemente do que ele tem a dizer, ele chega com um bônus. Todavia, um professor do interior do Brasil, uma assumidade no campo dele, tem que mostrar primeiro que é capaz de alguma coisa.

O professor que vem de uma das melhores universidades do mundo, vem carregado por um capital não só simbólico, mas efetivamente acadêmico importante e é preciso que ele tenha a humildade para se desprender disso. Ele tem que assumir uma postura: se ele vai fazer um palestra no Brasil, ou em Moçambique, ele está indo intercambiar com colegas se despindo dessa roupagem de ser membro da universidade mais reputada do mundo.

Mas esse é um exercício de se desaprender privilégios. Não se trata de um argumento ético: é argumento metodológico. É preciso na metodologia de trabalho sempre refletir a respeito do conhecimento que faço circular e produzo. O conhecimento é sempre um processo dialógico, como bem diz Eloísa Martín. Não existe conhecimento que um ego gera, ainda que os egos imaginem que estão gerando conhecimento. O conhecimento tem que ser um exercício dialógico permanente; eu estou em um diálogo e a minha própria posição dentro da cadeia de poder tem que ser pensada.

Tenho que refletir que meu vínculo com uma universidade de Chicago me trás uma vantagem nessa relação e tenho que metodologicamente abrir mão dessa vantagem. Não é um apelo a consciência, mas um apelo ao rigor metodológico.

Bio data:

Sergio Costa possui graduação em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (1985), mestrado em Sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (1991), doutorado (1996) e livre docência em sociologia pela Universidade Livre de Berlim, Alemanha. É professor titular de sociologia da Universidade Livre de Berlim e pesquisador associado do CEBRAP (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, São Paulo). Foi professor adjunto da Unviersidade Federal de Santa Catarina (1997-1999), professor assistente da Universidade Livre de Berlim (2000-2005) e professor visitante da Universidade de Flensburg, Alemanha (2006-2007). Suas áreas de pesquisa, publicação e atuação profissional são sociologia política, sociologia comparativa e teoria social contemporânea. Seus temas de especialização são democracia e diferenças culturais, desigualdades sociais, racismo e anti-racismo, movimentos sociais e politica transnacional.

(Texto informado pelo autor em http://lattes.cnpq.br/7240117651971056)

Para acompanhar o trabalho do professor Sérgio Costa, sugerimos:

COSTA, Sérgio. “Researching Entangled Inequalities in Latin America. The Role of Historical, Social and Transregional Inequalities“, desiguALdades.net Working Paper Series, Berlin, n. 9, 2011, pp. 3-27 

COSTA, Sérgio. Desprovincializando a sociologia: a contribuição pós-colonial. Revista brasileira de  Ciências Sociais. [online]. n. 60, vol.21, pp. 117-134, 2006

Confira também outras entrevistas com o professor Sérgio Costa:

BARROS, Surya; MATOS, Teresa. Entrevista com Sérgio Costa. Política & Trabalho, Revista de Ciências Sociais, n. 32, Abril 2010, pp. 17-22

COSTA, Sérgio. Contribuição ao debate sobre a internacionalização da pesquisa e da formação em ciências sociais: Entrevista da Comissão Editorial. Plural: Revista de Ciências Sociais. Universidade de São Paulo. Vol. 13, 2006, pp.135-144.

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