Universidade: o jeito “jabuticaba” e o modelo “world class”

Por Joanna Cassiano

Embora cada vez mais afetados pelas demandas da globalização do ensino superior, temos um jeito “jabuticaba” de não responder a elas, mantendo um modelo de universidade que funciona como instrumento de política nacional. Segundo os critérios da Carnegie Foundation, das 2.377 instituições de ensino superior do país, somente 25 se qualificariam como universidades de pesquisa. Mas será que somente as universidades de pesquisa podem aspirar a ser modelos de excelência? É o que indaga Maria Helena de Magalhães Castro, PhD em Ciência Política, professora e pesquisadora do Departamento de Sociologia da UFRJ, no artigo “Universidade: a quantas anda nossa excelência e relevância?” (pp. 71-101) publicado no livro “Ensino Superior: expansão e democratização”.


As universidades world-class

Apesar do forte apelo, os rankings internacionais das universidades possuem limitações e vieses. É no contexto de globalização da educação que surgem as universidades world-class. Segundo Jamil Salmi (2009): “As universidades melhores cotadas nos rankings internacionais são as que fazem contribuições significativas para o avanço do conhecimento através de pesquisa, (…) as que fazem da pesquisa um componente integral do ensino de graduação.”

A corrida por posições privilegiadas nos rankings mundiais explica o fato de países como Japão, Malásia, Alemanha, China e Coreia do Sul adotarem medidas excludentes de fomento às universidades.

Os governos concentram seus investimentos em um pequeno número de instituições com vocação para excelência internacional. Ou seja, os países escolhem determinadas universidades, onde despejam a maior parte de seus recursos para encaixá-las dentro dos padrões de instituição world-class. Através de uma avaliação política e econômica, determinam quais universidades poderão jogar e quais universidades ficarão de fora de um jogo que evidentemente não é para todo mundo. (Schwartzman, 2012).

No livro “The Challenge of Establishing World-Class Universities”, Jamil Salmi (2009) questiona se a educação superior de muitos países não seria muito mais eficiente e desenvolvida se as políticas públicas fossem voltadas para o desenvolvimento local, deixando de ter como objetivo a busca por padrões internacionais.

O autor questiona: “Será que as universidades world- class não passam de um fenômeno de elitismo ocidental e, portanto, tendencioso em detrimento de outros tipos de instituições de ensino superior de países não ocidentais?”


Brasil e o paradigma da produtividade científica

Maria Helena ressalta ainda a obsolescência do conceito de excelência universitária no país. Em seus moldes atuais, valorizando índices quantitativos de produtividade, o sistema de avaliação da Capes gera um descuido em relação à ciência que é de fato apropriada pelos centros de pesquisa nacionais e transformada em PIB.

Com isso, o Brasil corre o risco de estar contribuindo para a produção tecnológica de outros países. Cada artigo norte-americano no campo das ciências e engenharias gera em torno de duas patentes. No Brasil, metade da produção científica não vira produto, mas se transforma em informação disponível que pode ser usada de forma tecnológica por outros países. (Nunes, M. 2013).

Baixa internacionalização, baixa atividade de inovação, baixa qualidade das pesquisas. Embora ocupe a 13ª posição entre os países que mais participam da produção científica internacional, o Brasil não alcançou impacto compatível, medido pelo número de citações. 75% de uma amostra de 244 autores acreditam que há preconceito editorial contra pesquisadores do sul global.

Segundo o diagnóstico da bióloga Márcia Triunfol, que foi diretora assistente da revista Science: Faltam conhecimento e treinamento nos pesquisadores brasileiros para compreender o que é um artigo científico e o tipo de abordagem para publicação em grandes revistas internacionais (…) Falta domínio da linguagem científica, além de criatividade e ousadia para produções originais.”

Segundo Maria Lígia, embora o Brasil invista muito mais em pesquisa “aplicada” do que em “pesquisa fundamental”, a universidade ainda não foi alinhada aos objetivos estratégicos de desenvolvimento e inovação para consolidação da “nova economia” no país. Para a autora, não nos falta mais dinheiro, mas sim um sistema de políticas públicas mais responsável, mais inteligente e orientado pelos potenciais do país.

Bibliografia principal:
CASTRO, M.H. de M.C. Universidade: a quantas anda nossa excelência e relevância? In: Ensino Superior: expansão e democratização. Org.: Maria Lígia de Oliveira Barbosa. 1ª Ed. – Rio de Janeiro: 7 letras, 2014.

Textos citados:
MARQUES, Fabrício. A barreira do idioma. Revista Pesquisa FAPESP, n.162, Agosto, 2009.

SALMI, Jamil. The Challenge Of Establishing Word-Class Universities. Washington D. C.: World Bank, 2009.

SCHWARTZMAN, Simon O ensino superior na visão de Simon Schwartzman. Julho, 2012. São Paulo: Portal UNICAMP. Entrevista concedida a Manuel Alves Filho.
______ . A Pesquisa Científica e o Interesse Público. Revista Brasileira de Inovação. Rio de Janeiro, vol.1, n.2, p.361-395, 2003.

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