Os desafios para a internacionalização das Ciências Sociais. Entrevista ao professor Sérgio Costa. Parte IV

Por Julia França

“A sociologia, não só a do Brasil, é muito nacional”. Esse é apenas um dos diagnósticos oferecidos pelo cientista social Sérgio Costa, professor titular de sociologia da Universidade Livre de Berlim. Na Parte IV da entrevista concedida ao Circuito Acadêmico, Costa discute os limites, as barreiras e os horizontes do processo de internacionalização das Ciências Sociais no país.

Quais são, em sua opinião, os maiores desafios da academia brasileira para a sua internacionalização?

O desafio mais óbvio é o desafio da língua. Todos que escrevem em determinada língua acham essa é a língua ideal para escrever e produzir conhecimento em sociologia. Fato é, o português não é uma língua mundial e é muito pouco lida internacionalmente. Isso quer dizer que os trabalhos não circulam. Esse é o principal desafio.

Obviamente as pessoas podem escrever em outras línguas, mas escrever em outra língua é sempre uma decisão que implica em tomar mais tempo. Eu, particularmente, conheço pouquíssimos brasileiros que escrevem com a mesma habilidade em inglês e em português. Nem mesmo em francês. O francês hoje já não é uma língua de circulação ampla, é uma língua restrita de difusão do conhecimento. Desse modo, a decisão de se escrever em uma língua estrangeira demanda mais tempo e implica em escrever pior do que você escreveria na sua língua materna. Essa é uma decisão difícil que limita a internacionalização das Ciências Sociais brasileiras.

Um outro fator muito marcante é de natureza epistemológica. Existe uma tradição brasileira de recepção e não de produção de uma sociologia própria. Isso gera uma inserção subordinada das publicações brasileiras no exterior. Sempre aplicação de determinados paradigmas, de determinadas teorias, que não foram produzidos no Brasil.

Lógico, com poucas exceções. Nós temos grandes teóricos, como José Mauricio Domingues, que são grandes pesquisadores, têm uma agenda teórica e fazem seus trabalhos com muita competência. Mas no geral, a tradição implica em inserção subordinada em um contexto internacional.

Talvez uma outra dificuldade seja os mecanismos de valorização e reputação. Partindo da minha percepção pessoal, para uma boa parte dos cientistas sociais brasileiros é mais importante publicar nas revistas brasileiras de Ciências Sociais do que uma revista bem ranqueada da sociologia internacional. Por quê? Porque elas sabem que seus colegas, as pessoas com as quais convive no dia a dia, vão ler as revistas nacionais e, possivelmente, não vão procurar essa revista de mais alta reputação internacional.

Então há uma cultura acadêmica de pouca internacionalização. O que é muito diferente, por exemplo, em disciplinas como Física, completamente mundial. A sociologia, não só a do Brasil, é muito nacional.

Bio data:

Sergio Costa possui graduação em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (1985), mestrado em Sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (1991), doutorado (1996) e livre docência em sociologia pela Universidade Livre de Berlim, Alemanha. É professor titular de sociologia da Universidade Livre de Berlim e pesquisador associado do CEBRAP (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, São Paulo). Foi professor adjunto da Unviersidade Federal de Santa Catarina (1997-1999), professor assistente da Universidade Livre de Berlim (2000-2005) e professor visitante da Universidade de Flensburg, Alemanha (2006-2007). Suas áreas de pesquisa, publicação e atuação profissional são sociologia política, sociologia comparativa e teoria social contemporânea. Seus temas de especialização são democracia e diferenças culturais, desigualdades sociais, racismo e anti-racismo, movimentos sociais e politica transnacional. (Texto informado pelo autor em http://lattes.cnpq.br/7240117651971056)

Para acompanhar o trabalho do professor Sérgio Costa, sugerimos:

COSTA, Sérgio. “Researching Entangled Inequalities in Latin America. The Role of Historical, Social and Transregional Inequalities“, desiguALdades.net Working Paper Series, Berlin, n. 9, 2011, pp. 3-27 

COSTA, Sérgio. Desprovincializando a sociologia: a contribuição pós-colonial. Revista brasileira de  Ciências Sociais. [online]. n. 60, vol.21, pp. 117-134, 2006

Confira também outras entrevistas com o professor Sérgio Costa:

BARROS, Surya; MATOS, Teresa. Entrevista com Sérgio Costa. Política & Trabalho, Revista de Ciências Sociais, n. 32, Abril 2010, pp. 17-22

COSTA, Sérgio. Contribuição ao debate sobre a internacionalização da pesquisa e da formação em ciências sociais: Entrevista da Comissão Editorial. Plural: Revista de Ciências Sociais. Universidade de São Paulo. Vol. 13, 2006, pp.135-144.

Anúncios

O que você tem a dizer sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s