Teoria é produzida no Centro – A Iminente Revolução da Teoria Social – Raewyn Connell

Por Leonel Salgueiro,

“Teoria é o trabalho que o centro faz”. São as marcantes palavras da socióloga Raewyn Connell em seu artigo “A Iminente Revolução da Teoria Social”. A partir disso, proponho uma reflexão baseada em nosso próprio papel enquanto cientistas sociais periféricos. Convido vocês, leitores, a pensar a relação entre centro e periferia global segundo a perspectiva de Raewyn Connell.

         Professora titular de Sociologia na Universidade de Sydney, Austrália, e autora de mais de 20 livros e 150 artigos, sua obra inclui temas tão diversos como educação, classe, sexualidade e gênero, violência, teoria global, metodologia e até poesia. Especialmente conhecida por seu trabalho pioneiro sobre masculinidades – seu Masculinities, de 1995, foi traduzido em 13 línguas e é hoje o trabalho mais citado da área em todo o mundo. As contribuições de Connell às numerosas áreas da sociologia renderam-lhe prêmios importantes, como o da Sociedade Australiana de Sociologia e da Associação Sociológica Americana. ¹

         A autora inicia o artigo trazendo o questionamento “O que é teoria?”. Sua resposta não pretende redefinir o que entendemos por teoria, mas pensar a forma como é criada e, principalmente, onde é criada. Connell entende a teoria em sua forma conceitual, causal e com base metodológica. O que fora tratado é sua formação a nível intelectual em instituições acadêmicas, definida por uma divisão social de trabalho na produção do conhecimento. Pensando, segundo Paulin Hountondji (1997), que esta divisão social do trabalho sempre teve uma dimensão geopolítica, definida pelos conceitos de Norte e Sul, ou Centro e Periferia.

         É inegável que a metrópole, o centro colonial, tem sido o lugar preeminente a criação de teoria, como afirma Connell. O desenvolvimento da teoria na atualidade está diretamente ligado ao padrão de uma elite do Norte global. Como fazem isso? Estruturando pela divisão imperial do trabalho o processo social que utilizamos nos textos para fazer teoria. Pelas palavras da autora – Na Austrália ou no Brasil, nós não citamos Foucault, Bourdieu, Giddens, Beck, Habermas etc. porque eles conhecem algo mais profundo e poderoso sobre nossas sociedades. Eles não sabem nada sobre nossas sociedades. Nós os citamos repetidas vezes porque suas ideias e abordagens tornaram-se os paradigmas mais importantes nas instituições de conhecimento da metrópole – e porque nossas instituições de conhecimento são estruturadas para receber instruções da metrópole.

         Sabendo disto, como se estrutura a geopolítica do pensamento sociológico? Como foi dito anteriormente, pelo padrão de teoria social do Norte e Sul. O modelo do Norte global configura a forma dominante e a matriz da teoria social. Um exemplo da pretensão universalista dos padrões do norte global é o fato de que somos informados que vivemos numa sociedade de redes, ou numa sociedade de risco, ou na pós-modernidade – todas caracterizadas por experiências sociais que a maioria da população do mundo não vive.

         Esse ponto é explorado por Connell em uma analise a três autores de teoria social geral: Coleman, Bourdieu e Giddens. O que ficou claro no estudo é que todos eles são desprovidos de determinações externas. Isso implica dizer que suas metodologias teóricas excluem o colonialismo. Esta forma de se definir a teoria social,“metrocentrista”(neologismo adotado pela autora para defini-la), é oferecida e nós a aceitamos, legitimando-a em nossa forma de produzir teoria, ou seja, pela forma de circulação de conhecimento. Intelectuais da periferia viajam para a metrópole para obter treinamento avançado. Nós buscamos publicar nos jornais da metrópole, juntar-nos aos “invisible colleges” de lá, e, se tivermos sorte, obter empregos nas suas instituições. Essas práticas agora são poderosamente reforçadas pela governança neoliberal das universidades, preocupada com a posição competitiva nos rankings internacionais que são – surpresa! – centrados no Norte global e utilizam o critério de excelência lá desenvolvido.

         A autora desenvolve a partir deste ponto o elemento crucial para a teoria social. O que ela define como “Southern theory”. O encontro colonial, a constituição da sociedade colonial, a transformação de relações sociais sobre o poder colonial, as lutas pela descolonização, a instalação de novas relações de dependência e as lutas para aprofundar ou desafiar esta dependência. O pensamento que emerge destas relações é Southern theory. É importante salientar que a autora não parte do pressuposto de que Norte e Sul sejam relações diretamente dicotômicas, mas que o pensamento social na periferia global ocorre sob condições diferentes, tem pressupostos e possibilidades distintas, e suas consequências têm, para utilizar uma metáfora, um centro diferente de gravidade.

         O final do texto é tratado de forma otimista ao futuro da teoria social. Connell argumenta que para reverter os paradigmas da relação com o Norte, a relação Sul-Sul precisa se fortalecer a cada dia. Iniciativas entre os países periféricos foram desenvolvidas nos últimos tempos. Como o caso dos BRICS.

         Por fim, o que nos resta esperar do Norte? Como cita a autora – se a enorme concentração de recursos no sistema universitário do Norte e suas instituições de pesquisa pode ser um ativo para o projeto do Sul. Gayatri Spivak lançou a famosa pergunta: “Pode o subalterno falar?”. A questão agora é: Pode a metrópole escutar? E, caso escute, que mudanças práticas poderiam resultar disso?

¹ Informação retirada da entrevista de Raewyn Connell a Cynthia Hamlin e Frédéric Vandenberghe, realizada em Caxambu-MG, em 25 de outubro de 2011. Recebida para publicação em 19 de julho de 2012, aceita em 14 de março de 2013.

Em entrevista concedida pela autora a Cynthia Hamlin e Frédéric Vandenberghe, realizada em Caxambu-MG, em 25 de outubro de 2011. A autora ressalta uma possível ambiguidade que pode surgir no decorrer da leitura do texto. Logo abaixo deixo a pergunta e sua devida resposta para o conhecimento de todos.

– Eu reconheço o esforço da senhora no sentido de desenvolver epistemologias alternativas, no entanto, ao reafirmar a divisão centro-periferia, não correríamos o risco de romantizarmos aquilo que ocorre no Sul? Além disso, uma reificação dessa divisão não nos impediria de percebermos a periferia existente no próprio centro?

RC: Eu acho que você tem razão, existe esse risco. É um risco que eu assumo em meus próprios escritos, nos quais às vezes simplifico em excesso essa relação. E o que acabei de dizer sobre o Brasil e a Índia é parte do argumento: precisamos repensar o centro e a periferia, econômica e culturalmente. Você também tem razão ao afirmar que enfatizar a divisão centro-periferia pode nos impedir de enxergar a periferia na metrópole, a significância cultural, política e intelectual dos grupos raciais subordinados, das classes marginais e dos grupos imigrantes. Ainda assim, eu diria que existe um desequilíbrio maciço nas ciências sociais no mundo inteiro: onde buscamos nossas ideias, o que percebemos como argumentos de autoridade ou conceitos fundamentais, quem lemos! Por exemplo, até muito recentemente, Ashis Nandy, um dos intelectuais mais interessantes do mundo – um indiano famoso, intelectual público, psicólogo, crítico cultural, historiador cultural, escritor de temas como gênero e questões ambientais – não estava em nenhum programa de curso nas universidades australianas. Eu poderia multiplicar esse exemplo. Recentemente, estive na África do Sul, li diversos de seus programas e o mesmo se aplica. Basicamente, seus programas de curso têm uma bibliografia europeia e norte-americana. Então, eu acho que existe uma tarefa enorme no sentido da necessidade de renovação e reorganização intelectual – ao mesmo tempo em que se repensa o modelo centro-periferia e se reconhece que o capital transnacional na era da internet consiste em uma forma de capital distinta daquela presente na era de Marx e de Engels.

Confira também a entrevista na integra clicando aqui. 

 

BILIOGRAFIA:

CONNELL, Raewyn. A iminente revolução na teoria social. Rev. bras. Ci. Soc.,  São Paulo,  v. 27, n. 80, Oct.  2012. 

HOUNTONDJI, Paulin J. (ed.) (1997), Endogenous knowledge: research trails. Dakar, CODESRIA.

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2 opiniões sobre “Teoria é produzida no Centro – A Iminente Revolução da Teoria Social – Raewyn Connell”

  1. O texto de Connell é uma chamado que indica a necessidade de revisar linhas de pesquisa, paradigmas e problemáticas da sociologia. Cabe ressaltar que existe uma outra situação de ‘metrocentrism’ inscrita nas diferenças regionais do próprio Brasil, pois o centro de produção de conhecimento se estabelece hegemonicamente no sudeste e centro-oeste, enquanto as demais regiões ocupam posição periférica (especialmente na divulgação científica e captação de recursos). Nesse sentido, demanda-se também um esforço interno, que operaria de acordo com as mesmas regras de inversão e busca de uma maior “democracia” no âmbito da ciência social.

    1. Muito bem lembrado Pedro. Concordo com cada palavra. A pergunta que coloquei no final do texto e a entrevista anexada me mostraram exatamente isso. Há formas de divisão entre centro e periferia regionais. Não só no Brasil como em outros. Assim como os países centrais abrigam suas periferias regionais.

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