O ensino superior no Brasil e os coronéis do saber

Por Joanna Cassiano,

A realidade do ensino superior brasileiro é diversificada e complexa, mais ou menos eficiente, mais ou menos desigual, mais ou menos justa. É o que afirma Maria Lígia de Oliveira Barbosa, professora do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro e Vice-Presidente para América Latina do RC04, grupo de pesquisas sobre Sociologia da Educação da International Sociological Association, na obra “Ensino superior: expansão e democratização”, da qual é organizadora.

Segundo Maria Lígia Barbosa, a pesquisa sobre ensino superior, um dos temas de maior relevância estratégica para o desenvolvimento nacional, ainda carece de um mapeamento sistemático, de um refinamento conceitual e de uma elaboração metodológica que dê conta de sua complexidade. Segundo a autora, os estudos nacionais sobre a educação superior precisam dar um salto de qualidade.

Nesse sentido, a obra é a fase inicial de um projeto que busca aumentar a convergência, estimular o diálogo e sistematizar os debates sobre ensino superior no país. Composta por 14 artigos, reúne especialistas de diferentes universidades.

O artigo “O ensino superior no brasil: credencial, mérito e os coronéis” (pp. 51-69), de autoria de Maria Lígia, compõe o segundo capítulo do livro e é uma contextualização para as discussões que se seguem. Nele, a autora salienta que o processo de expansão do ensino superior brasileiro nas últimas duas décadas possui um significado particularmente complexo e importante em um país com níveis muito baixos de escolarização.

Se, no fim dos anos noventa, cerca de 1 milhão de estudantes estavam matriculados no ensino superior, atualmente esse número se aproxima de 6 milhões. Essa expansão trouxe também um processo de diversificação das trajetórias escolares possíveis.

Segundo a autora, duas questões são cruciais para a pesquisa sociológica: os processos de produção de valores socialmente distintos para os diferentes tipos de diploma, e a natureza mais ou menos democrática dessa expansão. Os pobres estão mais educados, mas permanecem níveis elevados de desigualdade.

No âmbito da educação pré-universitária, a autora recorre aos estudos do economista Francisco Ferreira (2000) para mostrar que, entre os fatores de desigualdade econômica, a origem social tem mais peso que a escolarização em si. O fato do sistema educacional básico ser majoritariamente povoado e controlado pela classe média impede uma verdadeira democratização da escola, e é uma barreira para uma política de igualdade de oportunidades, que se estende até o nível superior.

Cursos mais curtos, cursos mais longos, títulos plenos, bacharelados, licenciaturas, infinidades de MBAs, novos temas e áreas de formação são, segundo Maria Lígia, mudanças burocráticas e sociais frutos de um processo de modernização da educação. A autora questiona em que medida a diferenciação de valor entre diplomas superiores de tipo acadêmico e diplomas de tipo profissional contribuem para a organização da desigualdade social.

Partindo das análises de David Grusky, Barbosa ressalta que as diferenças técnicas entre os trabalhos são também diferenças sociais. A essência prática e profissionalizante dos cursos tecnológicos parece retirar desses profissionais uma importante base de autoridade social e cultural. A educação no Brasil é um valor posicional, funcionando mais como base de distinção social do que como fonte de qualificação. O título passa a ser mais importante que o próprio saber.

A autora recorre ao sociólogo francês Pierre Bourdieu, que iguala os títulos acadêmicos aos títulos da nobreza. O diploma é o novo título de afirmação das classes dominantes. O nosso sistema universitário moderno está transformando os doutores dos “saberes modernos” em detentores da cultura patrimonial, ou, nas palavras de Maria Lígia Barbosa, em “coronéis no melhor estilo dos anos 1930. Uma hipótese trágica que exige discussão”.

 

BARBOSA, M. Ligia O. O ensino superior no Brasil: credencial, mérito e os coronéis. In: Ensino Superior: expansão e democratização. Org.: Maria Lígia de O. Barbosa. 1.ed. Rio de Janeiro: 7Letras, 2014.

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