DESENCANTAMENTO DA RAZÃO PURA: A SOCIOLOGIA DA CIÊNCIA DE PIERRE BOURDIEU

Por Edmar M. Braga Filho

Costumamos atribuir à prática científica um status de pureza cognitiva, que estaria ligado ao seu próprio modus operandi supostamente neutro, ou seja, à forma como cientistas realizariam o seu trabalho de compreensão, seja da natureza, seja da sociedade. Essa crença decerto é uma das razões da legitimação social da ciência.

Muitos foram aqueles que almejaram produzir uma “metaciência”: filósofos, sociólogos, historiadores e antropólogos¹. Se lograram, fica a cargo do leitor. Este artigo esboçará a visão do sociólogo francês Pierre Bourdieu acerca de sua compreensão do que seria uma sociologia da ciência. Para ele, a sociologia da ciência está baseada na assertiva de que a verdade científica está assentada num estado particular de condições sociais de produção. Para os puristas mais irascíveis, que podem estar se perguntando a razão de um sociólogo se envolver em temas que, a princípio, não lhe diriam respeito, fica a lembrança: onde houver relações entre seres humanos, haverá o interesse da sociologia.

Primeiramente, é importante esclarecer o conceito que Bourdieu desenvolve de campo científico. Para entendê-lo, ele faz uso de duas formas usuais de se estudar a ciência: num extremo, uma que diz que toda produção cultural só pode ser entendida por ela mesma, através dos textos; e noutro extremo, uma que atribui ao contexto social o entendimento de uma determinada produção cultural. Em outras palavras, uma “ciência pura”, sem qualquer interferência “externa”, e uma “ciência escrava”, totalmente dependente das variantes políticas e históricas. É para fugir desta simplificação maniqueísta que Bourdieu elaborou a noção de campo científico². Este seria um universo no qual estão inseridos os pesquisadores e as instituições que produzem, reproduzem ou difundem a ciência. É um mundo social como outros, com leis sociais próprias. O campo científico é mais ou menos autônomo ao macrocosmo social (em que se encontram, por exemplo, a política e a economia). Quanto mais autônomo é um campo, mais refratário ele é às imposições externas. Para o autor, a física é o modelo de campo mais autônomo. Não costumamos ver um físico acusando o trabalho de outro de ser de esquerda ou de direita; fenômeno que é mais usual, por exemplo, nas ciências sociais. Vale ressaltar, também, que num campo científico os pesquisadores nunca são motivados unicamente por “amor à ciência”. Eles estão impregnados de motivações também políticas, elaborando estratégias de poder e consagração.

Tal qual nos campos político e econômico, o mundo da ciência também conhece relações de força, de concentração e disputas de poder, relações sociais que implicam na apropriação dos meios de produção e dominação. E aqui entra outro conceito salutar na obra de Bourdieu: o de capital científico. Este é simbólico, e depende do reconhecimento de outros cientistas. Também pode ser acumulado e disputado. O autor diferencia dois tipos de capital científico, que são, em última análise, duas formas de poder. Há o capital político (ou temporal/institucional), que diz respeito à ocupação de posições importantes em instituições científicas, direção de laboratórios, departamentos e conselhos, pertencimento a comitês de avaliação e a posições que dão poder sobre os meios de produção (créditos, financiamentos, empregos etc.). Paralelamente, temos um outro tipo de capital, ligado ao prestígio, mais ou menos independente do primeiro capital. Este segundo capital diz respeito às contribuições do cientista ao progresso da ciência (progresso esse que só se dá na disputa por capitais), à avaliação dos pares e às disposições do cientista. Também pode ser chamado de autoridade científica. É mais fácil e rápido, segundo Bourdieu, o “capital político” ser convertido em “capital científico puro” do que o contrário.

Resta agora a estrutura do campo científico. Esta seria definida pelo estado das relações de forças entre os diversos agentes (cientistas e instituições); ou, mais precisamente, pela forma como os capitais estão distribuídos. Tal distribuição dos capitais científicos está na base das transformações do próprio campo em questão. Os que possuem mais capital científico são, consequentemente, mais prestigiados, e dominam a própria noção de ciência num dado momento, seus métodos válidos e os temas mais relevantes. Eles tendem a conservar seu poder, impondo restrições aos novatos. Já estes, na disputa por acumulação de capitais específicos, tendem a subverter a ordem vigente, galgando espaços e investindo. Desta forma, dada a sua estruturação, o campo determina a forma da luta inseparavelmente científica e política dos agentes. Em resumo:

“O campo científico é sempre o lugar de uma luta, mais ou menos desigual, entre agentes desigualmente dotados de capital específico e, portanto, desigualmente capazes de se apropriarem do produto do trabalho científico que o conjunto dos concorrentes produz pela sua colaboração objetiva ao se colocarem em ação o conjunto dos meios de produção científica disponíveis.” (BOURDIEU: 1983, p136)

Evidentemente, esta foi uma tentativa de síntese, em que foram explorados três importantes conceitos na obra de Pierre Bourdieu: campo, capital e estrutura. Há, certamente, muito mais a ser explorado. A ciência, enquanto prática que dialoga constantemente com as mais variadas esferas da sociedade, produzindo discursos e interferindo em outros campos, é fonte de inesgotável reflexão. A importância de uma sociologia da ciência reside aí: uma reflexividade crítica sobre a prática científica.

¹  Por exemplo, alguns conhecidos: Karl Popper, Thomas Kuhn, Karl Mannheim, Robert Merton, o próprio Pierre Bourdieu, e Bruno Latour. Para um breve histórico dos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia, ver o artigo http://seer.ufrgs.br/index.php/sociologias/article/view/19919/11560
 ² ”O campo científico, enquanto sistema de relações objetivas entre posições adquiridas (em lutas anteriores), é o lugar, o espaço de jogo de uma luta concorrencial.” (BOURDIEU, P; 1983: p 122).

REFERÊNCIA:

BOURDIEU, Pierre. Esboço de auto-análise. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. _______________. “O campo científico”.  In Pierre Bourdieu. Sociologia. Org Renato Ortiz. São Paulo: Editora Ática, 1983. _______________. Os usos sociais da ciência. Por uma sociologia clínica do campo científico. São Paulo: Editora UNESP, 2003.

Sobre o autor:

 pierre_bourdieuImportante intelectual das ciências sociais, Pierre Bourdieu nasceu na antiga zona rural francesa de Béarn, em 1930. Tal fato é importante, uma vez que esse distanciamento do mainstream francês marcou sua vida (compondo, diria ele, seu habitus), e influenciando sua obra. Em 1954 forma-se em Filosofia pela École Normale Supérieure. Prestou serviço militar na Argélia, como era comum aos formados da época. Lá atuou como etnólogo, marcando uma nova fase de sua vida intelectual. Regressando a Paris, passou a estudar o sistema educacional francês. Dentre suas principais obras, encontramos: A distinção; O senso prático; As regras da arte; A reprodução; Economia das trocas simbólicas, entre muitas outras. Influenciou inúmeras áreas, além da sociologia: antropologia, filosofia, literatura e arte.

Morreu em 2002, após ministrar uma série de aulas reflexivas sobre a própria carreira científica, que resultou numa obra intitulada Esboço de auto-análise.

Documentário disponível no youtube sobre Pierre Bourdieu. A Sociologia é um esporte de combate https://www.youtube.com/watch?v=41W3RapeK5Q

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