Assimetrias na circulação do conhecimento. Entrevista com o professor Sérgio Costa, parte 3.

Por Julia França

Em entrevista ao professor Sérgio Costa, Julia França pergunta a respeito da desigualdade na circulação de conhecimento nas Ciências Sociais. Costa, professor titular de sociologia da Universidade Livre de Berlim, tem as desigualdades como uma de suas áreas de pesquisa, publicação e atuação profissional. Ele coordena o desiguAldades.net, a Rede Internacional de Pesquisa sobre Desigualdade Interdependentes na América Latina, de pesquisa interdisciplinar, internacional e multi-institucional de estudos sobre desigualdades sociais na América Latina. Sobre as estruturas hierárquicas que impactam na produção e circulação do conhecimento e causam assimetrias no campo das Ciências Sociais, confira abaixo:

 

Em que medida haveria desigualdade na circulação de conhecimento nas ciências sociais?

Seguramente há desigualdade na circulação de conhecimento. Mas o que é essa desigualdade? Em geral, tratamos de assimetrias, para diversificar o vocabulário das desigualdades, e há assimetrias de poder nos diferentes locus de produção de conhecimento. Assim, conhecimentos produzidos em determinadas regiões têm mais possibilidade de circular do que outros, independentemente da sua qualidade.

Isso depende da reputação da instituição, da língua em que esse conhecimento é produzido e das redes acadêmicas nas quais esse conhecimento circula. Em geral, não se pode dizer que nas Ciências Sociais há uma clara divisão entre o Norte e o Sul. Afinal de contas, há pesquisadores do Sul com uma projeção significativa na sociologia mundial, enquanto grandes nomes do norte desapareceram da sociologia. A sociologia é hoje uma disciplina quase sem estrelas. Ou seja, não há grandes nomes na Sociologia como houve em outras épocas. São mais redes de produção de conhecimento, escolas que se formam; digamos, uma maneira mais descentralizada de produção de conhecimento. Ainda assim, obviamente, prevalecem estruturas hierárquicas.

Aonde estão ancoradas essas hierarquias? Elas estão ancoradas, por exemplo, no acesso a publicação de periódicos. Em qualquer índice que tomemos, as revistas produzidas em inglês são melhores classificadas. Essa é uma lógica que se auto-reproduz. Se as revistas mais bem classificadas são produzidas em inglês, o candidato a um posto internacional será obviamente avaliado quanto aquelas revistas em que essa pessoa publicou: foram revistas que estão bem ranqueadas nessas listas? Isso gera uma permanente retro-alimentação dessas hierarquias e esse é um problema muito marcante.

            O que me parece é que a antiga divisão das tarefas nas Ciências Sociais, segundo a qual a sociologia do Norte produzia teorias e métodos e do Sul era o campo de aplicação e experimentação dessas teorias e métodos, mudou. Isso é uma especulação, porque eu não tenho elementos para comprovar. E digo “antiga”, mas pode não ser tão antiga assim. Fato é, ainda que isso continue existindo, mudou muito. Hoje, há uma reflexão teórica muito grande em várias regiões do mundo não mais seguindo essa lógica de Norte e Sul. Me parece que a teoria não é a moeda de troca mais importante da Sociologia.

Os artigos publicados em revistas bem ranqueadas nas classificações internacionais são, muitas vezes, artigos pobres e muito mais empíricos. A ironia é que o Sul começa a produzir teoria no momento em que a a teoria deixa de ter o lugar que já teve, até pelo menos Parsons – aí a importância da teoria era muito evidente. Obviamente, a importância que estou dizendo não é a importância para mim particularmente, nem para Sociologia, mas em termos de conferir reputação para quem a produz.

Os grandes nomes da Sociologia, ainda que não tenhamos grandes estrelas, produzem mais trabalhos empíricos do que teóricos. As pessoas dentro das universidades, aquelas que têm maior poder de decisão nos grêmios internacionais e nos grandes projetos de pesquisa, produzem trabalhos empíricos muito pobres teoricamente.

Bio data:

Sergio Costa possui graduação em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (1985), mestrado em Sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (1991), doutorado (1996) e livre docência em sociologia pela Universidade Livre de Berlim, Alemanha. É professor titular de sociologia da Universidade Livre de Berlim e pesquisador associado do CEBRAP (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, São Paulo). Foi professor adjunto da Unviersidade Federal de Santa Catarina (1997-1999), professor assistente da Universidade Livre de Berlim (2000-2005) e professor visitante da Universidade de Flensburg, Alemanha (2006-2007). Suas áreas de pesquisa, publicação e atuação profissional são sociologia política, sociologia comparativa e teoria social contemporânea. Seus temas de especialização são democracia e diferenças culturais, desigualdades sociais, racismo e anti-racismo, movimentos sociais e politica transnacional. (Texto informado pelo autor em http://lattes.cnpq.br/7240117651971056)

Para acompanhar o trabalho do professor Sérgio Costa, sugerimos:

COSTA, Sérgio. “Researching Entangled Inequalities in Latin America. The Role of Historical, Social and Transregional Inequalities“, desiguALdades.net Working Paper Series, Berlin, n. 9, 2011, pp. 3-27 

COSTA, Sérgio. Desprovincializando a sociologia: a contribuição pós-colonial. Revista brasileira de  Ciências Sociais. [online]. n. 60, vol.21, pp. 117-134, 2006

Confira também outras entrevistas com o professor Sérgio Costa:

BARROS, Surya; MATOS, Teresa. Entrevista com Sérgio Costa. Política & Trabalho, Revista de Ciências Sociais, n. 32, Abril 2010, pp. 17-22

COSTA, Sérgio. Contribuição ao debate sobre a internacionalização da pesquisa e da formação em ciências sociais: Entrevista da Comissão Editorial. Plural: Revista de Ciências Sociais. Universidade de São Paulo. Vol. 13, 2006, pp.135-144.

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