Os trabalhos começaram à beira do Pacífico

Por Thamires Castelar

                       O termômetro na tarde dessa terça-feira de julho em Yokohama marcava 32°C. Na sala refrescada pelo ar condicionado (de qualidade total), a calorosa discussão em curso em um Comitê de Pesquisa precisa ser previsível e gentilmente interrompida pela experiente coordenadora. À despeito de qualquer expectativa, contudo, uma voz manifesta-se em protesto: “Nossas discussões seriam muito melhor aproveitadas não fosse essa limitação rigorosa, marcada no relógio, de um tempo que não faz sentido!”. Tratava-se da opinião indignada, em língua inglesa, de um senhor de cabelos brancos e olhos claros, cuja ponderação pareceu fazer sentido para todos os presentes na sala.

              Além de grande inspiração, muito trabalho e correria têm marcado, dia e noite, o cotidiano dos sociólogos presentes: 96 Sessões Conjuntas, 55 Comitês de Pesquisa, 7 Grupos Temáticos e 5 Grupos de Trabalho acontecem simultaneamente durante os sete dias do XVIII Congresso Mundial da Associação Internacional de Sociologia (ISA).

             São 8 as Sessões Plenárias, discutindo temas diversos em torno das noções de “desigualdades” e “justiça” como eixos centrais. Argumentos sobre configurações de desigualdades estruturais, bem como o debate sobre concepções de justiça por diferentes tradições históricas e culturais, ilustram um pouco do que está sendo discutido nessas sessões.

          Entre outros destaques estão as sessões com autores. A proposta é de promover encontros de autores e críticos, nos quais grandes nomes da sociologia contemporânea se dispõe a um debate aberto sobre publicações de atual relevo. O livro “Para descolonizar el occidente”, de Boaventura de Sousa Santos (2011), será, por exemplo, debatido nesta quinta-feira (17/07). Também, duas sessões atribuídas ao Desenvolvimento Profissional estendeu àqueles que estão no início de seu percurso acadêmico a oportunidade de diálogo com os mestres. Alguns poucos sorteados se reuniram hoje (15/07), ao final do dia, em sessões exclusivas. Sentados em cadeiras, os nomes-referências, tais como Immanuel Wallernstein, Michael Burawoy, dentre outros, dialogam de perto, olho-no-olho, com os jovens sociólogos: enfim, as páginas ganham rostos! Quanto aos fins diretamente didáticos, a sessão ofereceu ainda mini-palestras, proferidas por membros editores de importantes periódicos. O objetivo foi esboçar brevemente uma orientação sobre o papel-chave da publicação acadêmica e, em especial, sobre as regras internas que pautam as seleções para publicações.

          Além dessas atividades, onde a as discussões estão mais claramente direcionadas ao diálogo internacional, há um conjunto de Sessões Temáticas japonesas, voltadas à pesquisas desenvolvidas em torno de questões relativas ao país sede.

                  Há de se mencionar também as Sessões Integrativas entre os Comitês de Pesquisa e as Associações Nacionais (12). Dentre os vários assuntos, gostaria de destacar uma rodada exclusivamente dedicada ao debate em torno da situação dos Japoneses-brasileiros a partir de perspectivas sociológicas globais. Nesse mesmo contexto, discutiu-se a relação entre as ditas sociedades emergentes e o discurso sociológico sobre os BRICS.

            Dados publicados pela ISA mostram a quantidade de inscrições contabilizadas, organizada segundo os países de origem dos participantes. No ranking, as posições definidas em ordem descrescente são, respectivamente: Japão (761), Estados Unidos (590), Alemanha (400), Reino Unido (306), França (257), Austrália (251), Brasil (225), India e Canadá (181), Rússia (168) e México (189), seguidos por outros países com menos representantes. Do ponto de vista numérico, a relevância da participação dos pesquisadores e pesquisadoras brasileiros se define por sua posição enquanto sétimo país com o maior número de registros, o primeiro na lista dos representantes do Sul Global. A presença brasileira, contudo, não se resume à apresentação de sua produção acadêmica nos Comitês de Pesquisa, nos Grupos de Trabalho, e nas demais sessões. A coordenação de mesas e simpósios revelam uma participação ativa na organização deste evento. Nesse senido, não se poderia deixar de mencionar dois sociólogos brasileiros em destaque nas eleições da ISA: Celi Scalon (UFRJ) e Rui Braga (USP), ambos indicados para posições no Comitê Executivo, cuja atuação se estende por quatro anos.

               Os desafios para a internacionalização da sociologia brasileira são certos. Parece ser consenso também a constatação quanto à necessidade de crescentes possibilidades de diálogo à nível global, tendo em vista a magnitude dos desafios para o campo. E, nesses termos, o clima geral do Congresso parece ser de engajamento e – por que não dizer? – esperança.

               “Inviável seria adequar nosso tempo disponível ao narcisismo dos sociólogos!”, respondeu prontamente a coordenadora do Comitê, atribuindo um novo sentido ao tempo no espaço quente em que estávamos reunidos. Em clima bem humorado, rapidamente, deu-se sequência aos trabalhos.

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