Sociologia se escreve com “P”

Eloísa Martín

Enfrentar a desigualdade no mundo contemporâneo requer a presença ativa dos sociólogos e sociólogas: não apenas como simples analistas do mundo, mas como verdadeiros artesãos do conhecimento – como diria Wright Mills—que perguntam e analisam o mundo social enquanto o transformam. Essa é a deixa de Imannuel Wallerstein e Michael Burawoy no primeiro dia do que promete ser um Congresso Mundial de Sociologia muito inspirador.

Na noite do domingo 13 de julho,  foi aberto oficialmente o XVIII Congresso Mundial da Associação Internacional de Sociologia (ISA) na cidade de Yokohama, no Japão, cujo tema central é “Fazendo frente a um mundo desigual: desafios para a sociologia Global”. 

Aproximadamente seis mil sociólogos e sociólogas do mundo todo se reuniram no National Convention Hall para ouvir as palavras de boas-vindas do comité organizador local e os discursos de abertura, que pela primeira vez foram transmitidos ao vivo.

Em seguida, o prof. Immanuel Wallerstein recebeu o recentemente criado Premio à Excelência em Pesquisa e Prática. Interessantemente, não se trata de um prêmio apenas à pesquisa, mas um prêmio que –como bem ressaltou o Prof. Wallerstein, reúne duas atividades que corriqueiramente são artificialmente separadas: o trabalho de pesquisa e publicação, e o serviço à comunidade, seja ela definida como estritamente acadêmica ou mais orientada ao espaço público. Wallerstein, (Yale University), primeiro agraciado com o galardão, chamou a atenção sobre a cada vez mais comum recusa de alguns acadêmicos de envolver-se nas práticas. Práticas que, como sabemos, encontram um sustento legítimo nos rankings oficiais e nas exigências advindas do publish or perish. De fato, como Wallerstein assinalou, a ênfase nessa divisão fictícia entre pesquisa e prática não é outra coisa que uma prática especifica (e, acrescento, politicamente orientada) dos grupos dominantes na academia. Ninguém duvida do impacto que a obra de Wallerstein tem tido na sociologia contemporânea, e nas ciências sociais e nas humanidades como um todo. Mas sua obra é fruto dessa combinação entre pesquisa e prática: na sua carreira, Wallerstein tem sido editor de 3 revistas científicas (e membro de incontáveis conselhos editoriais) e membro de quase trinta comités, conselhos e programas, servindo, dentre outros, como Presidente da ISA e da Comissão Gulbenkian para a Reestruturação das Ciências Sociais, que publicou o famoso Relatório que tem inspirado tantas pesquisas sobre sociologia do conhecimento  e o funcionamento da nossa disciplina. Afinal, o trabalho intelectual que perde algum desses pilares, pesquisa ou prática, não apenas fica míope, mas acaba sendo completamente inócuo.

Pouco depois de entregar o prêmio a Wallerstein, Michael Burawoy (UCLA, Berkeley) ofereceu seu discurso presidencial, que fecha 4 anos de serviço como Presidente da ISA. Em pouco mais de uma hora, Burawoy fez um apanhado das principais e mais atuais discussões do nosso campo e do seu diálogo com os eventos que tem mobilizado o mundo desde 2010. Combinando prática e pesquisa, e a partir de um olhar crítico sobre o nosso campo do conhecimento, Burawoy apresentou um provocativo estado da arte da discussão sobre desigualdade. E como estratégia de apresentação, adiantou que seu argumento estaria baseado em 3 “Ps”.

Falando em desigualdade, uma longa cita ao Papa Francisco, o primeiro “P”, abriu os trabalhos, e Burawoy chamou a atenção da influencia marxista (via teologia da libertação) do discurso político-religioso do chefe da Igreja Católica. Os aportes do recente best-seller de Thomas Piketty foram seu segundo “P”, chamando a atenção sobre a ausência de qualquer teoria sobre o capitalismo, nem qualquer análise sobre o estado, os movimentos sociais ou a cultura –e como elas poderiam influir nos prognósticos realizados pelo economista. Aparentemente, segundo Burawoy “a Igreja católica e os economistas roubaram nossas ideias”, mas de fato não seriam outra coisa que “um reflexo ou uma refração dos movimentos sociais, da preocupação pública com a desigualdade”. Uma longa e cuidada descrição dos protestos públicos ao redor do mundo, nos últimos 4 anos, serviram para criar a expectativa e fundamentar a aparição do terceiro P: Karl Polanyi, cujo livro A Grande Transformação (1944) foi usado como pivô para discutir os pressupostos do Papa e do Piketty e reler os movimentos sociais contemporâneos, levantando a questão da presença, no mundo atual, de quatro mercadorias fictícias: o trabalho, a natureza, o dinheiro e o conhecimento.

O discurso do Burawoy (que será publicado em breve em Current Sociology) levantou criticas sobre a mistificação dessas quatro mercadorias fictícias, e as suas consequências.  No que respeita ao conhecimento, que nos interessa mais nesse espaço, Burawoy chamou a atenção aos riscos da privatização do conhecimento, que pode observar-se tanto nos centros como nas periferias do globo. Alertou também sobre os riscos dos nacionalismos disciplinares e chamou a um diálogo que, para além das comparações internacionais, seja verdadeiramente global.

Um P ficou, no entanto, para ser explicitado no discurso do Burawoy, ainda que para quem assistiu os mais de 90 minutos ininterruptos de discurso, era mais do que evidente. Num contexto atual onde os rankings –frios, objetivos, burocráticos, universalizáveis- ordenam as mentes e as decisões da maioria dos que fazemos sociologia, esse P implícito, mas vívido, precisa ser afirmado. Não tem sociologia –não tem excelência, como bem ficou claro no caso de Wallerstein— sem Paixão. Pode-se publicar. Pode-se ser bem sucedido na carreira. Pode-se, ainda, participar de redes internacionais de prestígio. Mas sem Paixão  -aquela que critica, que se engaja, que duvida dos próprios pressupostos e sai pra buscar novos, que se devota ao serviços dos outros (no ensino, na orientação, na participação voluntária em comitês e conselhos, e, por que não, no sempre desprezado trabalho administrativo nas universidades) não estamos fazendo, propriamente, Sociologia.

* Ilustração: Prof. Hiroyuki TORIGOE (Waseda University, Japão) fazendo seu discurso de boas-vindas. Ph: Eloísa Martín

Anúncios

O que você tem a dizer sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s