Avaliação das Instituições e Internacionalização das Ciências Sociais na Alemanha. Entrevista com Sérgio Costa. Parte II

 Por Julia França

          Dando continuidade à entrevista concedida pelo professor Sérgio Costa, professor titular de sociologia da Universidade Livre de Berlim, perguntamos essa semana a respeito das práticas de avaliação dos pesquisadores na Alemanha, e o interesse pela internacionalização das ciências sociais naquele país.  Vimos na semana passada as contribuições do professor acerca da sua trajetória acadêmica no exterior, o material pode ser acessado aqui.

O que o senhor pode nos contar a respeito do trabalho acadêmico em geral e dos métodos e práticas de avaliação de pesquisadores na Alemanha?  Há interesse na internacionalização nesse país? De que maneira funciona?

                A Alemanha nos últimos 15 anos, no campo das ciências sociais e das ciências humanas de maneira geral, era muito fechada nela mesma. Entendia que havia produção de conhecimento, e obviamente intercambiava com outros países, mas não havia pressão de internacionalização. Essa pressão por internacionalização é recente. Enquanto no Brasil avalia-se pesquisadores de maneira individual, na Alemanha as instituições são avaliadas. Desse modo, a pressão para internacionalização se dá na avaliação das instituições, da soma e da sinergia dos seus pesquisadores que a compõe.

                Houve nos últimos 15 anos, por exemplo, a iniciativa de excelência. As universidades de excelência passaram a receber fundos extras para financiamento. O financiamento das universidades públicas – que são maioria na Alemanha – é feito pelos estados federados. Enquanto a União, através do Ministério de Educação e Ciência, tem restrições para oferecer recursos às universidades. Isso porque há um princípio federativo que estabelece o dever dos estados em  assegurar a independência das universidades em nível estadual. No caso das cidades que são estados – Bremen, Hamburgo e Berlim – são universidades públicas de uma cidade, ou seja, financiadas por uma cidade. Enfim, a iniciativa de excelência buscou promover a internacionalização oferecendo recursos extras federais para as universidades que tivessem, entre outras coisas, um programa de internacionalização.

                O que significa um o programa de internacionalização? Um programa de publicação no exterior, um programa de livre docência em língua estrangeira. Na verdade, implicou em uma ênfase exagerada na língua inglesa. Há cursos em espanhol e em outras línguas, mas o inglês é dominante nos cursos de língua estrangeira. De fato, isso modificou o cotidiano acadêmico. No campus da universidade escuta-se vários idiomas. Há aulas em inglês, espanhol, alemão e às vezes até em português. Houve uma internacionalização dos estudantes, dos professores. Os professores foram, de alguma maneira, estimulados a aprimorar seu inglês para poder oferecer cursos completos. Há universidades com dois tracks: em alemão e em inglês. Então quem não fala alemão pode tranquilamente fazer seu mestrado e doutorado em inglês. Inclusive, aceita-se tese de mestrado e doutorado completamente em língua estrangeira.

                A avaliação individual dos pesquisadores não tem o rigor que tem no Brasil. Um professor, depois de se tornar titular e sem grande vocação pela profissão, pode não produzir tanto. Mas, como são poucos os professores catedráticos há uma concentração de poderes e de atividade. Os professores catedráticos, e mesmo os livre-docentes, são os únicos que podem orientar doutorados. Isso gera concentração de poder e atividade em poucos professores, o que, no meu modo de ver, é negativo. Além do mais, desencoraja novas gerações a seguir a carreira acadêmica. A Alemanha perde, nas várias disciplinas, 6 mil doutores todos os anos. Ou seja, o país forma muita gente e as pessoas não tem como se ocupar no país. Há pouco tempo o Brasil formava 10 mil doutores por ano, nas várias disciplinas. Isso dá uma dimensão do que é sair 6 mil doutores por ano no país. A Alemanha faz um investimento na qualificação de pessoas e ela própria não aproveita essa qualificação. Uma estrutura mais horizontal na universidade seria mais eficiente do que a estrutura que se tem hoje, a estrutura de cátedras que é hierárquica.

Agradecemos ao professor Sérgio Costa pela participação e convidamos a todos a dialogar sobre suas impressões.

Bio data:

Sergio Costa possui graduação em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Minas Gerais (1985), mestrado em Sociologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (1991), doutorado (1996) e livre docência em sociologia pela Universidade Livre de Berlim, Alemanha. É professor titular de sociologia da Universidade Livre de Berlim e pesquisador associado do CEBRAP (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, São Paulo). Foi professor adjunto da Unviersidade Federal de Santa Catarina (1997-1999), professor assistente da Universidade Livre de Berlim (2000-2005) e professor visitante da Universidade de Flensburg, Alemanha (2006-2007). Suas áreas de pesquisa, publicação e atuação profissional são sociologia política, sociologia comparativa e teoria social contemporânea. Seus temas de especialização são democracia e diferenças culturais, desigualdades sociais, racismo e anti-racismo, movimentos sociais e política transnacional. (Texto informado pelo autor em http://lattes.cnpq.br/7240117651971056)

 

 

Para acompanhar o trabalho do professor Sergio Costa, sugerimos:

COSTA, Sérgio. “Researching Entangled Inequalities in Latin America. The Role of Historical, Social and Transregional Inequalities“, desiguALdades.net Working Paper Series, Berlin, n. 9, 2011, pp. 3-27

COSTA, Sérgio. Desprovincializando a sociologia: a contribuição pós-colonial. Revista brasileira de  Ciências Sociais. [online]. n. 60, vol.21, pp. 117-134, 2006

 

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