A percepção de tempo entre homens e mulheres no meio acadêmico

Por Leonel Salgueiro,

          Tempo para elaborar artigos e papers, planejar aulas, corrigir provas, participar de debates, coordenar cursos, desenvolver trabalhos, cuidar dos filhos e da família. O grande tormento de acadêmicos e pesquisadores. “Você tem tempo?” É o titulo da tese defendida por Marina de Carvalho Cordeiro no PPGSA da UFRJ em Junho de 2013, sobre a qual já falamos aqui.

          Esta resenha discutirá as questões de gênero e tempo no meio acadêmico e vida familiar, tratados nos capítulos IV e V da tese, em que Marina Cordeiro desenvolve sua hipótese sobre a administração do tempo pelos profissionais, em particular das Ciências Sociais: o tempo como um recurso de valor, um capital na sociedade capitalista que é desigualmente distribuído, considerando as relações de gênero (pág. 161).

          Para discutir o tema, foram entrevistados pela autora 28 docentes, dos quais 10 eram homens e 18 mulheres, que inicialmente a autora utiliza para estudar uma possível tendência a ser seguida no meio acadêmico. Tendência essa que seria apresentada a partir da diferença sobre a utilização do tempo, produção de material científico, formação acadêmica e vida familiar por docentes homens e mulheres (cap. V, págs. 201-260). O que se percebe no desenvolvimento de sua tese são as múltiplas possibilidades e escolhas que esses docentes optam em suas vidas pessoais e profissionais. A constituição do mercado de trabalho, mais precisamente o meio acadêmico, pela perspectiva de gênero não engloba uma única linha a ser seguida por todos. Pelo contrário, as histórias retratadas pelos indivíduos demonstram diferentes visões sobre o mesmo tema que foram tomadas a partir de suas escolhas. Podendo ser pensadas desde um viés que envolve teorias feministas a relações de trabalho e administração de tempo.

          Para apresentar a discursão da autora, retratarei as entrevistas levando em consideração questões como: filhos, casamento, vida familiar e profissional. Levantando a primeira questão como argumento principal para o desenvolvimento das outras. Tendo como base uma das ideias de Marina Cordeiro – Compreendemos que a presença ou não de filhos é um elemento fundamental que impacta nas vivências temporais familiares, dadas as responsabilidades requeridas (…)(pág. 202).

          Os dados coletados a partir das entrevistas discutirão as oportunidades desses indivíduos, a utilização de seu tempo familiar e profissional e a desigualdade na relação entre eles. O que se percebe ao decorrer da tese é como a visão entre homens e mulheres sobre o meio acadêmico e familiar se distingue. Enquanto que, para os docentes homens entrevistados a participação no trabalho não é interferida pelas obrigações familiares (pág.221), para as mulheres há uma sobrecarga de afazeres que é incorporada pelo papel de mãe e/ou esposa.

Citando a autora:

De acordo com dados da última PNAD (2009), dentre os ocupados no mercado de trabalho, os homens gastam 9,5 horas por semana em afazeres domésticos enquanto as mulheres ocupam 22 horas, mais do que o dobro, nessas atividades. (…) O dispêndio de horas femininas nesses afazeres é ainda maior segundo a presença e idade dos filhos: são 31,9 horas por semana entre mulheres com filhos e 18,2 horas entre aquelas que não os têm; e o número tende a ser maior quanto mais jovem for acriança, sendo mais alto entre as mães com filhos até 2 anos de idade,correspondendo a 34,7 horas semanais. (pág.209)

          Nesse sentido, o dispêndio com o cuidado dos filhos é ainda grande função das mulheres, tratado como “emotion work” (pág.210), o que através da naturalização da função cuidadora atribuída ao feminino não abre margem para contestação.

O afastamento do homem no que diz respeito ao familiar é tratado de forma natural. É opção do marido de incorporar maiores atribuições e obrigações no trabalho, preenchendo os espaços em branco na lacuna de “tempo livre”. O que gera, como no caso do entrevistado da página 223, o esquecimento de seu filho na creche (que ficou a cargo de sua esposa em buscá-lo).

           É importante ressaltar a constante utilização da palavra “ajuda” quando se trata das atribuições familiares aos homens. O que se percebe ao decorrer da tese é que o papel principal das tarefas familiares é atribuído à mulher, enquanto que aos homens é concedida a oportunidade de ajudar em algumas delas, que em sua grande maioria não diz respeito à paternidade. Nas palavras da autora, de fato, por vezes, a participação feminina é desenvolvida mais como um impeditivo para uma atuação masculina ampliada do que como uma requisição da divisão de tais tarefas; é como se as esposas não confiassem aos seus maridos tarefas de cuidado. (pág.221)

              Nesse sentido, o pensamento passa ser a escolha entre constituir família e “não querer ter filhos”, que gera consigo motivos que atrapalham no desempenho acadêmico A exemplo, uma das docentes entrevistadas afirma ter escolhido a vida intelectual a ter um filho. (pág. 236)

          O “ter tempo” para atividades que não envolvam família ou profissão, são encarados de forma jocosa pelos entrevistados. Levando ao pensamento de um dos docentes, membro de PPG e pesquisador de excelência, com mais de vinte anos de carreira, afirmar que “as pessoas produtivas têm um discurso parecido”, e em sua percepção, apenas aqueles que “não estão muito a fim de produção” é que podem “chegar em casa e ver uma televisão, descansar, ler um romance, ouvir música, namorar a mulher”. Em sua visão, esta entrega e envolvimento no trabalho – que tanto mais ocupa tempo, quanto mais este está disponível – estão completamente relacionados à ideia de carreira e de profissão.

          Para concluir, a percepção que se tem sobre o “entregar-se ao trabalho”, mesmo que levando em consideração as diferenças de gênero, é definida também pela autora na identificação dos entrevistados com a profissão. Todos os entrevistados trabalham porque gostam. Esse gostar do que se faz é justificativa para envolvimento total com as atribuições profissionais. (pág.260) A diferença encontra-se então no momento em que esse “gostar” é exercido de forma natural por uma das partes e pela outra é impedida por obrigações com filhos e família.

CORDEIRO, Marina de Carvalho. Você tem tempo? Uma análise sobre as vivências temporais dos acadêmicos em ciências sociais na sociedade contemporânea. 2013. Tese Doutorado em Sociologia. Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, junho/2013.

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