EM ENTREVISTA, JUAN PIOVANI DEFENDE MAIOR INTEGRAÇÃO ENTRE PAÍSES DA AMÉRICA LATINA

Por Edmar M. Braga Filho

          “A academia latino-americana tem muitos desafios. Acredito que os primeiros níveis de internacionalização e cooperação devem ser entre os próprios latino-americanos”, afirma Juan Piovani, professor da Universidad Nacional de La Plata. Em entrevista concedida no dia 5 de maio, o pesquisador fala da importância e dos impasses de uma cooperação acadêmica entre os países latino-americanos. Além disso, chama atenção para a importância da língua e do conhecimento das culturas de países que, paradoxalmente, encontram-se tão próximos geograficamente, e tão distantes intelectualmente.

          Atualmente o senhor dirige um programa de pesquisa sobre a sociedade argentina contemporânea, em Buenos Aires. A produção voltada para uma análise principalmente nacional pode ser um entrave para a expansão desses estudos nas academias internacionais?

    Na verdade, a nossa intenção foi coordenar e afigurar as instituições argentinas. Creio, também, que ao realizar tal pesquisa, podemos internacionalizá-la, uma vez que os problemas que estamos colocando foram já pesquisados em outros contextos, mas ainda não na Argentina. Ou foram a um nível muito local. Então, essa pesquisa almeja ter um panorama nacional dos problemas de interesse das ciências sociais.

         Quais podem ser as estratégias para fazer com que um caso nacional tão particular possa ser de interesse para a acadêmica internacional?

         É como eu disse anteriormente. Mesmo que nossa pesquisa tenha um interesse local, os problemas que nós colocamos são de interesse mais amplo. Então, algumas coisas que nós estamos pesquisando já foram pesquisadas na Europa, no Brasil… Na verdade, uma das razões pelas quais eu viajei para cá é que nós estamos tentando fazer pesquisas comparativas com o Brasil. Aqui, há pesquisas sobre desigualdades, estrutura social e mudanças sociais. E agora estamos fazendo também na Argentina. Então dá para fazer pesquisa comparativa.

       Na sua opinião, quais são atualmente os maiores desafios da academia latino-americana para a sua internacionalização?

      Muitos! A academia latino americana tem muitos desafios. Acredito que os primeiros níveis de internacionalização e cooperação devem ser entre os próprios latino-americanos. Muitas vezes nós temos contatos internacionais, que são os grandes centros na Europa e nos EUA, os quais possuem relações bilaterais com centros da América Latina. Mas, o pessoal da América Latina não se conhece muito. Estamos muito perto uns dos outros, falamos espanhol ou português. Então dá para ter mais interação entre as instituições da América Latina. Mas não é só isso. Também é muito importante ter um diálogo entre as instituições, além das que se situam nos EUA e na Europa, dos países de outras regiões, como na África e na Ásia. Para muitos países da América Latina, as realidades africana e asiática não são muito conhecidas. Poucos sabem sobre tais realidades, e temos poucos especialistas também. Um outro desafio tem a ver com a heterogeneidade dos sistemas de ensino superior e de pesquisa nos países da América Latina. Há pesquisadores que sabem muito bem se relacionar com os centros internacionais, que falam línguas estrangeiras, publicam em inglês, em francês… Mas é algo mais individual, não a nível institucional. São as universidades que ainda estão muito atrasadas no fato de ter relações estáveis, consolidadas e institucionais com universidades estrangeiras. Então, o que acontece é que a academia da América Latina fica muito dividida entre as pessoas que estão no circuito internacional, e muitas outras que, geralmente localizadas em universidades do interior, não conseguem aproveitar os benefícios da internacionalização. Isso também é um desafio: que a internacionalização seja aproveitada por um grande conjunto dos pesquisadores das instituições da América Latina.

              Por último, qual a sua opinião sobre a importância e os problemas do diálogo acadêmico estabelecido entre Argentina e Brasil no âmbito das Ciências Sociais?

                A Argentina e o Brasil têm diálogos nas ciências sociais, mas eu acho que ainda são muito fracos. É possível fazer muito mais. Tal como se dá no Mercosul, temos que fazer também com a academia. Nós temos muitos programas, mas os programas estão concentrados em poucas universidades. E também há o financiamento, que é muito baixo. Penso, assim, que o diálogo acadêmico entre o Brasil e a Argentina é muito importante. Mas até agora é um empreendimento muito individual. Dos argentinos que vieram ao Brasil para fazer pós-graduação, quando na Argentina a pós-graduação ainda era muito nova, não era tão desenvolvida. Mas são relações pessoais, dos pesquisadores que ficaram no Brasil, e que, quando voltaram para a Argentina, conseguiram estabelecer programas de pesquisa conjuntos. Mesmo que os órgãos de fomento brasileiros e o Ministério de Pesquisa Argentino tenham programas, eles ainda são muito limitados. O mesmo para fazer pesquisas comparativas, programas de pós-graduação “binacionais” e difusão das línguas. Na Argentina não são muitas pessoas que falam português. No Brasil acho que há mais acadêmicos que consigam falar espanhol direito. Na Argentina a difusão do português é muito incipiente.

Você me perguntava sobre os desafios. Não é possível atender aos desafios se você não conhece a língua e a cultura do outro. Então, um dos problemas da América Latina é que as competências linguísticas são muito fracas. Ainda há muitos pesquisadores e estudantes, de graduação e de pós-graduação, que não conseguem falar outras línguas. Para o caso da Argentina e Brasil, todo mundo fica tranquilo, pois falando devagar é possível entender. Mas para um empreendimento acadêmico é necessária uma competência linguística maior. Não devemos nos contentar apenas com o “dá para entender”.

Sobre o autor

Juan Ignacio Piovani possui doutorado em Metodologia das Ciências Sociais pela Università di Roma La Sapienza. É professor titular de Metodologia, pesquisador e coordenador do programa de mestrado e doutorado em ciências sociais da Faculdade de Humanidades e Ciências da Educação da Universidad Nacional de La Plata.

Também é pesquisador do CONICET (Consejo Nacional de Investigaciones Cientificas y Técnincas). É de sua autoria o livro Alle origini della statistica moderna. La scuola inglese di fine ottocento (2006) e, com Alberto Marradi e Nelida Archenti, Metodología de las ciencias sociales (2007).

Recentemente publicou artigo sobre a história da estatística e da pesquisa social no periódico científico do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA/UFRJ). Acesso em http://revistappgsa.ifcs.ufrj.br/pdfs/ano3-v3n5_juan-ignacio-piovani.pdf

Agradecemos ao professor Juan Piovani pela participação!

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