A geopolítica do conhecimento e a América Latina

Por Joanna Cassiano

          A geopolítica do saber e do poder fragmenta o mundo entre países que consomem conhecimento e países que o produzem, dominando econômica e culturalmente o processo de globalização. Em seu artigo “Geopolítica del saber: biografias recientes de las universidades latinoamericanas”, a pesquisadora Marcela Mollis, professora de Educação da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires, traça uma análise geral sobre a educação superior na América Latina dentro do contexto de territorialidade do conhecimento. O texto original, publicado em espanhol, integra o livro “Universidad e investigación científica: convergencias y tensiones”.

          Segundo a autora, as universidades públicas são filhas da razão moderna, do prestígio das humanidades e do progresso da ciência. Hoje, a crise dessa razão afeta o projeto institucional das universidades tradicionais. Assim, novas instituições respondem a essa demanda de crise e exigências de mercado, formando alunos “compradores de diplomas”.

          As carreiras com maior empregabilidade constituem a “meca” dessa nova tendência que confunde educação universitária com formação técnica. Em muitos países da América Latina, especialmente na Argentina, não existe uma estrutura educativa que receba a demanda dos interessados em “estudar para trabalhar”. A partir disso, a autora questiona: há lugar para as humanidades, a ciência e a cultura? Como se formarão profissionais, cientistas e humanistas no século XXI?

           As políticas de corte neoliberal, as restrições orçamentárias e a transformação do contrato social entre Estado e sociedade civil têm transformado os saberes universitários em conhecimento mercantilizado, que passou a ser analisado com a linguagem das finanças; se calcula por meio de indicadores de rendimento, através de certificados e diplomas. O estudante é o consumidor, os saberes são as mercadorias e os professores meros “assalariados que ensinam”.

          A universidade não é uma instituição autônoma, ela é regida por complexos processos de interação entre disciplinas, pesquisadores, o estatuto da ciência, as diferenças entre classes sociais, minorias étnicas, poder, gênero. A universidade se constrói como uma instância de produção, controle e legitimação dentro de um contexto de tensões constantes entre sociedade, Estado e mercado produtivo.

          As novas formas de produção e transmissão do conhecimento estão impondo mudanças significativas tanto para as universidades quanto para o trabalho acadêmico. Essas mudanças consistem na modificação da natureza, conteúdo e organização do trabalho científico, através de um controle externo que antes estava nas mãos das instituições e dos acadêmicos. Segundo González Casanova, é a confirmação de uma nova universidade mais funcional ao capitalismo acadêmico.

Um olhar geral sobre a educação superior na América Latina

          A agenda internacional para transformar a educação superior na América Latina foi posta em prática através da criação de instituições nacionais para regulamentação e avaliação universitária. Argentina, Brasil e México deram prioridade aos programas de avaliação em suas políticas de reforma; por outro lado, Chile e Colômbia priorizaram políticas de estímulo e desenvolvimento. Associações como NAFTA e MERCOSUL exercem pressão para que as políticas de estímulo à educação superior se tornem mais homogêneas e eficientes, e possam facilitar o intercâmbio e a mobilidade acadêmica entre os países sul-americanos.

          Com larga tradição histórica, as universidades da América Latina tiveram um papel muito diferente do restante das universidades do mundo. Além de fortalecer o ensino e a pesquisa, receberam grandes responsabilidades sociais, como a formação de líderes políticos, o desenvolvimento de debates ideológicos e a promoção de mudanças sociais, como guardiãs das culturas locais, defensoras da criação artística e das humanidades.

          Os anos noventa trouxeram ao campo educacional uma política que se reduziu a administração de reformas pautadas nos indicadores quantitativos e resultados de avaliações, abandonando o potencial democrático da educação para construir uma cidadania participativa.

          A autora destaca que a administração eficiente da universidade pública deve se orientar pelo sentido e função social da educação. Formar profissionais independentes e criativos, cidadãos ativos, ajudar no processo de diversificação do pensamento e enriquecer o patrimônio cultural são alguns dos desafios globais de nossa educação superior. A universidade não deve produzir somente conhecimentos técnicos e científicos necessários para o desenvolvimento do país mas, sobretudo, saberes necessários para a construção de uma sociedade mais justa e democrática.

 

REFERÊNCIA:

 

MOLLIS, Marcela. Geopolítica del saber: biografías recientes de las universidades latinoamericanas. In: Universidad e investigación científica. VESSURI, Hebe. CLACSO, Conselho Latino-americano de Ciências Sociais, Buenos Aires. Noviembre 2006.

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