Dilemas do campo científico latino-americano

Por Leonel Salgueiro,

       Como se constituiu o cenário científico latino-americano? Quais os dilemas enfrentados desde sua origem até os dias atuais? Como se constroem as Ciências Sociais na América Latina e quais os desafios apresentados pela raiz eurocêntrica dessa área do conhecimento? O artigo de María Florencia Serra e Maria Alfonsina Angelino, no livro Eurocentrismo y ciencias sociales. Reflexiones en el campo universitário apresenta um apanhado dos principais dilemas atravessados pelo campo científico, especificamente das Ciências Sociais, no cenário latino-americano.

       O texto está dividido em três partes. Na primeira, analisam-se as turbulências atravessadas pelo campo científico nas décadas de 1960 e 70. Na segunda, apresentam-se três movimentos que reafirmam a emergência e consolidação das Ciências Sociais: a autonomização, a especialização e o parcelamento. Na última parte, como proposta para pensar os desafios das Ciências Sociais, as autoras retomam o conceito de “Ciências Sociais Nômades”, do antropólogo argentino Néstor García Canclini, como chave para compreender a heterogeneidade multi-temporal e as culturas híbridas que definem a América Latina.

Revolução e Restauração do campo

       Nas décadas de 60 e 70, a chamada “Revolução do Terceiro Mundo” –termo adotado pelas autoras do livro Los silêncios y las voces em América Latina da socióloga Alcira Argumedo— coloca em posição ofensiva, pela primeira vez em quatro séculos, países coloniais e neocoloniais: lutas pela libertação nacional e social, o período de descolonização, os governos de corte popular e as revoluções na América Latina acontecem no período. E é neste contexto que se institucionaliza o campo das Ciências Social latino-americano.

       Com a intenção de se pensar a América Latina pela América Latina, autores locais são apresentados como intelectuais emblemáticos: Sergio Bagú, Theotonio dos Santos, Ruy Mario Marini, López Segrera, Josué de Castro, Paulo Freyre, Darcy Rivero, dentre outros.

       Esse momento de abertura, de redimensionamento no modo de se pensar a América Latina logo sofre repressão por parte do que foi denominado pela socióloga argentina Alcira Argumedo como a “Restauração Conservadora” . As estratégias de disciplinamento, os processos de desarticulação e deslegitimação do pensamento crítico que se deu no período de ditadura, constituíram as condições necessárias que possibilitaram a legitimação das ideologias neoliberais durante os anos de 1980 e 90.

       A restauração conservadora intervém na configuração do campo científico, estendendo sua hegemonia cultural para as Ciências Sociais. Este processo é exacerbado pelas políticas do Banco Mundial que impõem um novo modelo, que desde a perspectiva Kuhniana se denomina “Ciências Normais”.

       Trata-se então de novos modos de se produzir e vincular com o conhecimento no campo das Ciências Sociais. Modos em que a base para um novo paradigma se define delimitando o campo científico e o que pode ou não ser dito.

Desenvolvimento histórico das Ciências Sociais e seu contexto latino-americano

       Na origem das Ciências Sociais, coloca-se a necessidade de se diferenciar do senso comum e dos outros campos do conhecimento. Será produzido um processo de institucionalização, que consiste na delimitação de um campo cujo interior é validado pelas regras do método sociológico. As autoras debatem se esse processo de autonomização é constitutivo do próprio processo de desenvolvimento e expansão das Ciências Sociais durante o séc. XX, que originalmente teve inicio em países como França, Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos e logo parte para distintos continentes. Autonomia significa delimitar bordas, delinear um espaço em contraposição a outro. Logo se produz um paradoxo. Quando se criaram as Ciências Sociais, a intenção era a de compreender a sociedade daí a necessidade de autonomizar-se. O caráter diferenciado do discurso sociológico requer esta separação, mas permanece a pergunta pelas fronteiras entre pensamento científico e outro tipo de pensamento, não necessariamente “científico”, mas igualmente importante para entender a sociedade. No caso dos países latino-americanos, a constituição tardia dos centros de investigação condiciona a autonomia do campo científico que, segundo as autoras, sempre foi relativamente frágil.

       Por outro lado, as Ciências Sociais criam tradições e estabelecem como referências os seus fundadores, especialmente Max Weber e Émile Durkheim. Porém toda tradição é ambígua. Por um lado é fonte de identidade, mas por outro essas raízes que consagram maneiras de ver e entender a sociedade, ao legitimarem-se, funcionam como obstáculos para qualquer nova abertura, como já foi tratado aqui anteriormente.

       O processo de autonomização deriva em outro, o de especialização. Sociologia, Antropologia e Ciência Política se originam como Ciências especializadas com o propósito de criar uma visão melhor e mais precisa das distintas dimensões da realidade social. Mas cada recorte de um tema vai se tornando uma mini disciplina: sindicalismo, democracia, poder, cultura popular, questões sociais, gênero. A pretensão da autonomia vai dando lugar então a um processo de especialização que entra em contradição com o propósito de explicar a sociedade como um todo. As autoras, seguindo as ideias de Taquigrafiando lo Social de Renato Ortiz, argumentam que este fenômeno de fordismo intelectual soma-se aos problemas que derivam das multiplicidades de tradições do campo, consequentes do processo de regionalização (pg. 156).

       O Pós-Modernismo, por sua vez, introduz a ideia de que não há transformação social possível, de que a História concluiu. (pg.157) Nesta nova configuração, as regras que movem o campo científico estão marcadas pela lógica mercantil que se define cada vez mais pela publicação de trabalhos científicos.

       Perguntas como quem e por quê investigar são respondidas cada vez mais fora do campo científico. Aqui surge um novo dilema, pois esses processos não alteram somente a autonomia das instituições de ensino e pesquisa, mas sim fundamentalmente o ato de pensar livremente dentro do campo científico.

                             Os desafios das Ciências Sociais latino-americanas

       Como analisar as temporalidades que não são tradicionais e nem modernas? Como estudar os fenômenos que não se inserem nem no culto, ou no popular, mas que brotam de suas intersecções? Essas são algumas das questões que García Canclini coloca para pensar as Ciências Sociais Nômades.

        As autoras decidem não dar uma conclusão definitiva ao tema, por se tratar de algo que ainda está em andamento. A própria disputa no interior do campo é onde reside a possibilidade de gerar novas praticas capazes de interpretar o mundo social, cultural, econômico, político e simbólico

       Como estudante de Ciências Sociais, concordo com a avaliação das autoras, sobre as dificuldades do campo científico. Uma conclusão definitiva parece impossível pois o social é mutável, e esperar uma conclusão ou seguir uma linha teleológica neste contexto é inconsistente. Mas discordo das autoras a respeito da sua crítica à “especialização”. Em meio a estas mudanças no desenvolvimento do campo científico, a especialização parece necessária. O que é visto como problema, a meu ver torna-se esperança com a internacionalização da Ciência. Isso se para tal o dialogo Norte-Sul, Sul-Sul, Norte-Norte, caminharem em conjunto. Para superar estes e futuros dilemas do campo cientifico, o cenário latino-americano deve aprender a trabalhar de forma global. Caso contrário, estamos fadados a estagnação.

 

Sobre as autoras: María Florencia Serra é formada em Licenciatura em Trabalho Social pela Universidad Nacional de Entre Ríos, Argentina, onde obteve também seu mestrado em Trabalho Social. Tem atuação em áreas de pesquisa sobre culturas acadêmicas, Eurocentrismo nas Ciências Sociais e narrativas dos docentes universitários acerca de seus trabalhos. Enquanto que Maria Alfonsina Angelino, também licenciada e mestra em Trabalho Social pela mesma universidade, é especializada em metodologia de investigação social.

 

ANGELINO, Maria Alfonsina; SERRA, María Florencia. Dilemas de la configuración del campo científico em clave latinoamerica. In: AA.VV. Eurocentrismo y ciencias sociales. Reflexiones en el campo universitário. Buenos Aires: Editorial Fundación la Hendija, 2012, pg 149-164

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