A potencialidade da antropologia transnacional: um princípio de alteridade.

Por Bruna Saldanha

            Como construir uma antropologia capaz de lidar com a diversidade do mundo globalizado é uma questão importante a ser pensada no cenário acadêmico: “como acadêmicos, sabemos que a diversidade e a criatividade se alimentam mutuamente, e que um acervo maior de perspectivas diferentes significa uma maior capacidade de invenção.” Os autores Gustavo Lins Ribeiro e Arturo Escobar nos fazem questionar em que lógica a produção do conhecimento está pautada atualmente.

            O capítulo do livro Antropologias Mundiais aponta para algumas formas que os autores Gustavo Lins Ribeiro e Arturo Escobar acreditam ser eficazes para a formação de uma comunidade transnacional de antropólogos. Para tal tarefa, os autores traçam alguns caminhos que já foram e outros a serem seguidos pelo corpo de antropólogos nos países ao redor do mundo.

            Os autores apontam algumas noções que levaram a constituir o “pensamento universal antropológico”. A partir de uma leitura crítica Lins Ribeiro e Escobar, mostram que, desde o Iluminismo até hoje,  as bases da antropologia tem sido formadas a partir de “categorias universalistas europeias” (p. 20).  A noção de cultura da antropologia oferece explicações sobre “outros povos”, por isso tem a capacidade de definir e fazer circular noções sobre determinadas situações políticas e sociais. Por conta da responsabilidade que os trabalhos antropológicos carregam, os autores declaram a importância da antropologia se constituir como uma ciência intercultural e não multicultural, pois “multiculturalidade presume a aceitação do heterogêneo: interculturalidade implica que os diferentes são o que são em negociações, conflitos e empréstimos recíprocos.” (p.21)

            A visão dos autores se apresenta, na minha opinião, como algo inovador que deve ser considerado um desafio por quem se dedica aos estudos sociais. Diferenciar o termo “aceitação” do termo “negociação” carrega um peso teórico marcante para pensarmos um novo projeto de criação de comunidade antropológica transnacional. Aceitação significa que os diferentes olhares antropológicos das diversas nações (inclusive as periféricas) são impostos ao processo de construção de conhecimento globalizado, já negociação implica entendê-los como igualmente relevantes para a ciência e, portanto, estão em constante diálogo.

            Ademais, os autores colocam que a negociação proporcionada pela interculturalidade é importante para o cenário da academia. Eles afirmam: “como acadêmicos, sabemos que a diversidade e a criatividade se alimentam mutuamente, e que um acervo maior de perspectivas diferentes significa uma maior capacidade de invenção.” (p.22)

            Gustavo Lins Ribeiro e Arturo Escobar consideram também a criação de novas estruturas de produção de conhecimento por conta do novo cenário mundial. Mesmo sabendo que ainda hoje a produção de conhecimento antropológico continua sendo impulsionada pelos países europeus que a originaram, eles atentam para uma nova situação. Atualmente, os locais que antes eram vistos como objetos antropológicos passam a ser sujeitos, ou seja, produtores de novos conhecimentos. Essa situação se deu porque a antropologia era vista anteriormente como a disciplina responsável por estudar o “primitivo”, o “não ocidental”, e agora ocupa o lugar de investigação sobre culturas local, que por conta da globalização, tem sua localidade ligada a modernidade. Os autores deixam claro que a modernidade não deve ser pensada como algo universal e inescapável, devendo ser contestada e negociada, mas é algo muito mais presente na vida de quem estuda e de quem está sendo estudado.  Isso significa dizer que a lógica de subordinação da diversidade cultural a um modelo (único) de produção de conhecimento, além de ultrapassada, se torna um meio ineficiente de elaborar ciência.

            Outro ponto colocado enuncia alguns avanços dados pela antropologia mundial que ainda são ineficazes para a construção da interculturalidade. Um exemplo seria o fato de a antropologia ter se expandido no Atlântico Norte e outros cantos do globo e ainda não estar imune as hierarquias de conhecimento apoiadas em hierarquias de poder social e político: “Muitas vezes classifica-se a troca desigual de informação a diversidade antropológica com diferentes rótulos: antropologias centrais versus antropologias periféricas” (…) Tais classificações não são suficientes para entendermos os ordenamentos transnacionais de hoje.” (p.30)

            Por conta dessa questão, os autores apontam para a necessidade de os cientistas sociais aprenderem a fazer perguntas que transcendem os limites da academia dominante. Os antropólogos centrais devem passar a “levar a sério” seus congêneres dos países periféricos onde pesquisam, e não tratá-los como meros informantes. Ou seja, os autores sugerem em plano geral, que todas as antropologias possam se beneficiar do conhecimento já existente no espaço fragmentado do globo, sem subalternizar nenhuma delas.

             Enfim, a proposta transformadora gira em torno de “dois propósitos interligados: primeiro examinar criticamente a disseminação como um conjunto mutável de discursos e práticas dentro e através de campos de poder nacionais e internacionais; segundo, contribuir para o desenvolvimento de uma paisagem plural de antropologias que seja menos estruturada pelas hegemonias metropolitanas e mais aberta ao potencial heteroglóssico da globalização.” (p.23).

            Para alguns pares da academia, esse projeto pode parecer utópico e inalcançável. Como alguém que pensa ciências sociais, particularmente considero-o essencial para refletirmos sobre  uma antropologia baseada no que deveria ser seu maior princípio: a alteridade.


Antropologias Mundiais: transformações da disciplina em sistemas de poder / Gustavo Lins Ribeiro e Arturo Escobar (orgs.) ; tradução de Flávia Lessa de Barros, Alcida Rita Ramos, Erica Bernhardt. Brasília: Editora Unb, 2012. Parte 1, capítulo 1.

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