ELOGIO DA REBELDIA ACADÊMICA

Por Edmar M. Braga Filho

            “É mais difícil a verdade se submeter ao mercado que um camelo passar pelo buraco de uma agulha, profere de forma contumaz o editor da Harvard University Press, Lindsay Waters. Nesta reflexão, baseada na obra do autor, vários pontos polêmicos a respeito da produção do conhecimento nas Humanidades serão problematizados. Leia, reflita e, sobretudo, participe!

     Em seu texto “Ciência como Vocação” (1917), Max Weber demonstra grande admiração pela racionalização do mundo acadêmico estadunidense, contrastando a burocracia deste país com o sistema de sua terra natal, a Alemanha. Sistema esse tido então como atrasado, frente às novas exigências da modernidade.  Menos de nove décadas depois, Lindsay Waters, editor da Havard University Press, tece uma crítica feroz ao modo de se produzir conhecimento nos Estados Unidos num pequeno livro: Inimigos da esperança. Publicar, perecer e o eclipse da erudição. E mostra-se aterrorizado com o modelo  administrativo e burocrático adotado pela academia do seu país.

            Mais apaixonado e eloquente do que técnico, Waters escreve 96 páginas com sarcasmo e ironia, denunciando os malefícios do modelo produtivista que tem corroído as Humanidades. E avalia que tal modelo, fruto da influência da economia liberal na produção do conhecimento, tenderá a eclipsar a erudição¹. Divide, assim, seu livreto em duas partes. Na primeira, dedica-se à apresentação do problema, de forma que podemos caracterizá-lo como sendo um tanto escatológico. Mostra como o livro, instrumento de trabalho par excellence dos acadêmicos de Humanidades, perde valor qualitativo em meio à tal lógica quantitativa. É mais difícil a verdade se submeter ao mercado que um camelo passar pelo buraco de uma agulha (pg 16), ironiza. Já na segunda parte, intenta desnudar a existência de uma tentativa de se preservar um certo status quo acadêmico, em que as vozes dos jovens são, senão silenciadas, abafadas². Ele é categórico ao afirmar que ocorre, muitas vezes, censura por parte dos pares revisores, editores e dos membros mais antigos do establishment acadêmico.

            Decerto seu livro é polêmico, e suscitou inúmeras críticas de seus conterrâneos, como aqui provavelmente também gerou. Por exemplo, é questionável a sua visão, um tanto romântica, de que o ofício do acadêmico é essencialmente mais nobre, e até messiânico. A vida acadêmica é um chamado, não um emprego (pg.18), diz. Também é questionável uma certa nostalgia que ele demonstra em relação aos velhos tempos do ofício do editor. Todavia, o tema do produtivismo é largamente problematizado, e ainda é fonte de inesgotável atenção³.

            Dados os limites da comparação, é totalmente viável pensar a Academia Brasileira, ao menos na área designada como Ciências Humanas, pela ótica crítica de Waters. Por exemplo, até que ponto nessa área do conhecimento, com um determinado modus operandi, compactua com tal lógica produtivista? Leituras densas e analíticas, reflexões teóricas entre diversos autores, resultados de pesquisa não tão imediatos – para citar algumas especificidades. Como deverá ser a avaliação nas Ciências Sociais, uma vez que podemos falar de uma epistemologia(s) específica(s)? Certamente, algum tipo de avaliação se faz necessário, ao passo que se deve manter a qualidade e as especificidades inerentes. Waters não nega essa necessidade de avaliação, de revisão permanente. Mas insiste que esses juízos devem atender às peculiaridades das Humanidades, e não apenas critérios pretensamente cegos dos tecnocratas de plantão (muitas vezes, eles mesmos, acadêmicos). Para usar a metáfora de Waters (muito conveniente), essas avaliações não seriam como um revólver mirado em nossa cabeça. Atualmente, infeliz ou felizmente, estamos mais formulando perguntas do que respostas, e eu espero que quando a bomba estourar, para usar a retórica de Waters, tenhamos algumas sólidas alternativas.

            A “batalha de gerações” – em que o establishment intenta emudecer, censurar e/ou alterar as joviais vozes dissonantes e subversivas – também é algo que se deve levar a sério. Estamos satisfeitos? Waters diz que não devemos ter receio de tocar naqueles temas herméticos, tidos como sem solução. Em suma, espinhosos sobre vários aspectos. Exemplos pululam no cenário acadêmico brasileiro4. Importante frisar também o número de tarefas que o acadêmico desempenha, sobretudo os novatos – cadeiras administrativas, revisor de periódico, editor, membro de corpo editorial, professor, pesquisador… Sob o mantra do sucesso profissional: produza, produza, produza!

                   Pessimistas podem dizer que tudo não passa de um devaneio romântico próprio da juventude, que o tempo e a busca pelo capital científico – autoridade e prestígio – tratarão de conformar tais vozes dissonantes. É uma opinião que também deve ser ouvida com seriedade. Todavia, minha escolha fica com Waters. Vale lembrar que sua defesa não é apenas pela qualidade do conhecimento produzido pelos acadêmicos das Humanidades. É, sobretudo, pela permanência do espírito crítico e vivo que a busca pela verdade exige – tão solapada pela lógica do publish or perish.

 

NOTAS:

1. Esta questão também pode ser problematizada nas Ciências Naturais. Um exemplo é a polêmica fala de Peter Higgs, ganhador do prêmio Nobel de Física de 2013. http://www.theguardian.com/science/2013/dec/06/peter-higgs-boson-academic-system

2. Este tema será melhor elaborado num post posterior sobre a Sociologia da Ciência na obra de Pierre Bourdieu.

3. Por exemplo, ver post recente no Circuito Acadêmico https://circuitoacademico.com.br/2014/06/02/ciencia-distorcida/

 

4. Para citar um exemplo recente, temos um projeto de pesquisa recusado por agência de fomento, evidenciando um aspecto mais político que metodológico, pondo em xeque a autonomia acadêmica.

http://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/governo-nega-projeto-por-ser-marxista-revolta-pesquisadores-da-unb-uerj-ufrn-12745626

Referência:

WATERS, Lindsay. Inimigos da esperança. Publicar, perecer e o eclipse da erudição. São Paulo: Editora UNESP, 2006.

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