Descolonização do pensamento. Entrevista de Cláudio Pinheiro à Ciência Hoje

Por Julia França

    “Somos intelectualmente colonizados?” Com essa pergunta, Henrique Kugler, jornalista da Ciência Hoje, inicia sua entrevista com o pesquisador, historiador e antropólogo Cláudio Costa Pinheiro, diretor da Sephis, Programa de Intercâmbio Sul-Sul para a pesquisa da História do Desenvolvimento, de origem holandesa. Segundo o Prof. Pinheiro, reproduzimos as práticas e os padrões europeus em quase tudo, desde os hábitos até as estruturas políticas e intelectuais. E ele levanta a importante questão: “Quais seriam os efeitos da colonização do pensamento para o campo acadêmico e para a produção de conhecimento?”

    Cláudio Pinheiro analisa em “Descolonização do Pensamento”, entrevista publicada na revista Ciência Hoje, em março de 2014, a dominação do Norte Global na produção de ideias e conhecimentos nas periferias. Essa é uma discussão central para pensar o papel da sociologia brasileira na divisão internacional do trabalho acadêmico.

    A denúncia de colonização intelectual e acadêmica tem sido realizada desde os anos 1960, mas seu debate permanece. Isso porque, afirma Pinheiro, as agendas de pensamento estão ancoradas em teorias, temas e categorias de análise que, na realidade, representam experiências históricas particulares do Norte Global. Nas periferias adotamos determinados modelos de sociedade, classificamos, datamos o tempo de determinada forma, compreendemos o mundo, contudo baseados em categorias que representam a experiência do Norte.

    Dessa maneira, afirma Pinheiro, a história, ensinada no ensino médio, é a história europeia. Lemos os autores clássicos europeus. As principais publicações, periódicos científicos e editores estão sediadas em poucos países do Norte e a ciência é, assim, realizada a partir de padrões do Norte. A denúncia é séria.

    Cláudio Pinheiro afirma no decorrer de sua analise: “O conceito ocidental baseado na experiência europeia não dá conta de toda a realidade”. Inclusive, ser periférico na visão de alguns pesquisadores é justamente não ter o domínio sobre as categorias que organizam o pensamento, a política e a sociedade.

    Dessa forma, a colonização do pensamento impacta no discurso intelectual da periferia e na produção de conhecimentos autônomos, que leiam criticamente a experiência eurocêntrica. Descolonizar o pensamento através da valorização do diálogo Sul-Sul é uma das propostas do professor Pinheiro.

Confira a entrevista completa, disponível no site da revista Ciência Hoje.

COSTA PINHEIRO, Claudio: KLUGER, Henrique. Descolonização do Pensamento. Ciência Hoje, Revista de Divulgação Científica da SBPC, n. 312, vol. 52, pp. 6-9, 2014.

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4 opiniões sobre “Descolonização do pensamento. Entrevista de Cláudio Pinheiro à Ciência Hoje”

  1. A primeira vez que li já tinha ficado bem impactada e penso no meu métier, melhor abrasileirado, metiê na dança contemporânea e acho que ocorre o mesmo, há muitas influências conceituais e corporais dentro de uma linha de pensamento que nos construiu, nos informou, mas será que a gente precisa seguir deitando o cabelo e fazendo o tempo todo todas as reverências aos mestres do velho mundo como diz o prof. Cláudio Pinheiro????? Tenho pensado nos currículos das universidades de dança do Brasil um pouco por aí. Que história da dança está sendo dada? e de que modo? Porque tenho visto nas bancas de TCCS de dança, as alunas que vão abordar temas nada que ver com história da dança, ainda assim devotarem longo capítulo sobre uma determinada e pontual e localizada história da dança europeia, ou pior, que vem dos “primitivos”???? quem são eles????? e de repente chegamos na dança de Luís XIV, na corte francesa, opa, que salto, mas creio que não se trata de equívoco, mas de um pensamento colonizado também no que se considera matéria de história da dança e, que muitos alunos e professores acreditam sem muita reflexão que deve ser assim, porque os europeus estavam aí antes, porque é o que se tem escrito ou traduzido, enfim. Tudo isso pra dizer que acredito no que fala o prof. Cláudio Pinheiro, muito pertinente e aplicável ao estudo de dança nas universidades sim.

    1. Luciane, muito obrigada por compartilhar conosco a sua experiência no campo da dança contemporânea. A crítica quanto à colonização do conhecimento, realmente, se aplica a várias áreas e é importante saber e discutir o impacto também na dança.

      Considerando os elementos que você comentou acima, sim, as influências conceituais e corporais na história da dança, além de os currículos das universidades de dança no Brasil, quando ancoradas na experiência europeia, baseiam o discurso intelectual e o pensamento da dança no país.

      A crítica do professor Cláudio Pinheiro é muito pertinente e a discussão é atual. É muito bom saber que o tema que nos interessa nas ciências sociais, também interessa à quem estuda dança contemporânea.

  2. Na área jurídica, é inevitável recorrer às doutrinas européias, especialmente as alemãs. No Brasil, os cursos jurídicos estão tomados, na grande maioria, por “professores” que não produzem conhecimento e que estão presos aos manuais elaborados para exames da OAB e concursos públicos, sem falar dos resumos jurídicos. Poucos produzem conhecimento e, quando há boa produção, as editoras não se importam em publicar, pois textos que exigem reflexão não vendem. O grande filão do mercado editorial são os livros esquematizados ou resumidos. Infelizmente, ainda é muito grande a diferença qualitativa entre as obras jurídicas européias e as brasileiras, apesar de sermos melhores quantitativamente. E o reflexo é latente na prática forense, pois temos profissionais despreparados com poder de decidir e mudar a vida de uma pessoa. Faltam reflexão e crítica no ensino jurídico brasileiro. Pesquisa séria ainda é um sonho.

    1. Olá João, fico feliz com o seu comentário, pois também me interesso na questão da colonização do pensamento jurídico.
      Concordo com você, assim como nas ciências sociais, as agendas de pensamento e o discurso intelectual jurídico são baseados nas tradições, teorias, temas e categorias que, na realidade, são fundadas em experiências e práticas do Hemisfério Norte. Dessa maneira, também lemos os clássicos europeus, contamos a história a partir de eventos marcadamente eurocêntricos, (tais como Carta Magna, Habeas Courpus Act, Bill of Rights, Revoluções Americana e Francesa,…) e adotamos o mesmo discurso de defesa de determinados valores universais, como desenvolvimento, democracia, free market e direitos humanos.
      Vou escrever sobre o tema em post futuro e espero contar mais uma vez com a sua colaboração na crítica. Enquanto isso, gostaria de recomendar a leitura de Chimni em “Third World Approaches to International Law: A Manifesto” (2006).

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