Ciências Sociais, colonialidade e eurocentrismo: a visão de Edgardo Lander

Por Edmar M. Braga Filho

É possível falar numa sociologia universal? As experiências de uma determinada sociedade podem ser comparadas às de outra, num contexto histórico e espacial diferente? Como universalizar o que se deu num contexto específico? Há relações de poder nesta generalização da teoria social? Tais questões são problemáticas, pois suscitam inúmeras discordâncias entre os estudantes e profissionais das ciências sociais. Estes questionamentos são tratados no texto de Lander, que se encontra numa coletânea por ele organizada. Edgardo Lander é um sociólogo venezuelano, professor titular da Universidade Central da Venezuela, e vem trabalhando nesse assunto há vários anos. O livro é composto por artigos de autores vários, e problematiza a colonialidade do saber latino-americano pelo eurocentrismo.

O autor defende que há, na teoria social moderna, uma relação de subordinação da periferia pelo centro. Afirma, assim, que é difícil a formulação de alternativas teóricas e políticas que se desvencilhem tanto do neoliberalismo quanto da primazia do mercado. Reforça que tais alternativas não se darão através da própria economia, uma vez que esta assume uma visão liberal. Para tal, é preciso desnaturalizar as relações sociais. Isso significa que é necessário uma investigação histórica e social de categorias dadas.

Desta forma, Lander realiza uma verdadeira arqueologia dos saberes modernos, e estabelece como marco o “descobrimento” da América pelos ibéricos, e sua consecutiva colonização. É no alvorecer da modernidade que ele identifica os pressupostos epistemológicos e as dimensões constitutivas que têm possibilitado uma verdadeira “colonização dos saberes”. A dimensão inicial diz respeito às sucessivas separações ontológicas, ou seja, separações do real e da essência das coisas. A primeira é de caráter religioso, de origem judaico-cristã, e separaria Deus e o Homem de um lado, e a Natureza de outro. Esta última subordinada ao primeiro. Com o Iluminismo, tais separações se multiplicariam, sobretudo com a divisão cartesiana de um sujeito que conhece, e um mundo a ser conhecido. O conhecimento científico se fundamenta nesta tentativa de cisão ontológica da realidade, uma vez que o conhecimento, “descorporizado” e “descontextualizado” seria condição necessária para se chegar a um conhecimento “objetivo” e “universal”. Desta separação derivam outras, como a que acontece entre “especialistas” e “povo” e, a que mais se torna problemática para o autor, a divisão eurocêntrica entre os “Ocidentais” e os “Outros”.

Dois pensadores são identificados pelo autor como paradigmáticos desta concepção eurocêntrica de mundo: Locke e Hegel. O primeiro construiu uma noção de universal a partir de uma experiência particular, negando qualquer direito àquele que não compartilhasse da ideologia liberal (ou seja, baseada na propriedade). Já Hegel concebe um “Espírito Universal”, do qual não fazem parte os “outros” povos do mundo, tidos como primitivos e atrasados.

A segunda dimensão seria a articulação entre saberes sociais e organização colonial de poder. O autor afirma que o processo de consolidação das relações de produção capitalistas e o modo de vida liberal, até que estes adquirissem o caráter das formas naturais da vida social, teve também uma dimensão colonial/imperial, dentro dos próprios países europeus. Ora, o processo de industrialização do capitalismo não foi nada natural: expulsão de camponeses de suas terras, imposição do trabalho fabril e exploração.

Paralelo a este processo temos um imaginário propriamente moderno, e é nele que se encontra o nascimento das chamadas ciências sociais. A cosmovisão do surgimento das ciências sociais, como também da “modernidade”, envolve alguns pontos característicos. São eles: a concepção de História teleológica, ou seja, dotada de um sentido (cujo ápice seria a sociedade europeia industrial); a naturalização das relações sociais e a existência de uma suposta “natureza humana”; a naturalização das separações e categorias criadas, e a superioridade da ciência sobre todas as outras formas de conhecimento.

Decerto, o texto de Lander é, no mínimo, provocador. Suscita críticas, concordâncias e questionamentos. De qualquer forma, fica a questão central: é possível uma nova epistemologia nas ciências sociais? Um horizonte de possibilidades se abre.

Referência:

LANDER, Edgardo(org). A colonialidade do saber. Eurocentrismo e ciências sociais: perspectivas latino-americanas.  Buenos Aires: CLACSO, 2005.

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2 opiniões sobre “Ciências Sociais, colonialidade e eurocentrismo: a visão de Edgardo Lander”

  1. De certo, todas as críticas que incidem sobre o paradigma positivista realizaram um grande avanço na desconstrução dessa “cosmovisão do surgimento das ciências sociais”. Nota-se especialmente, as contribuições advindas da antropologia, que originam o ‘relativismo’ e o ‘estranhamento’, exercícios intelectuais de grande valia para tornar estranho aquilo que se considera “natural”, em decorrência do hábito e da ideologia. Portanto, se existe o desafio de pensar uma nova epistemologia das ciências sociais, isso decorre daquilo que já fora feito, seguindo a recomendação popperiana de um conhecimento baseado na refutação. Desse modo, vejo que o texto indica essa necessidade de refutar o paradigma da ciência eurocêntrica, mas também vejo que um esforço nesse sentido já fora empreendido, e com certo sucesso. Contudo, se uma crítica epistemológica definitiva é capaz de surgir, o fará levando em conta o mundo empírico, onde a periferia global passa a ler sua própria realidade buscando universalizar suas conclusões à espaços cada vez mais amplos. Seguindo esse fluxo, pode-se ir além, no sentido de uma emancipação epistemológica. De qualquer modo, a ideia de um conflito e da disputa por poder não abandona nossas perspectivas, a qual, nesse caso, caracteriza-se pela disputa entre centro (eurocentro) e periferia, competindo pela capacidade de universalizar suas conclusões. No entanto, essa periferia precisa de mais poder e espaço, o que pode ser obtido, imagino, apenas por meio de uma ou várias “revoluções científicas”, voltadas para dentro, direcionada a criar paradigmas os quais se direcionem à problemas internos do país, e não persigam paradigmas eurocêntricos como forma de obter status de nobreza intelectual, atestando assim nada mais que sua própria condição de dominado. Em outras palavras: é preciso interpretar a periferia com uma teoria erigida pela própria periferia, preocupada consigo, e não com o mimetismo de uma suposta nobreza da ciência europeia.

    1. Olá, Pedro.
      Muito obrigado pela sua participação. Decerto, essa crítica à cosmologia moderna do surgimento das ciências sociais já fora empreendida pela antropologia. Há muita bibliografia para este jovem blogueiro se debruçar em relação ao tema. Este livro organizado por Lander parece ser bom ponto de partida para se pensar nesta problemática, que com certeza já conta com vasta discussão.

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