“Desigualdades sociais no Ensino Superior: viés acadêmico e ineficiências”

Por Bruna Saldanha

Resenha da apresentação “Desigualdades sociais no Ensino Superior: viés acadêmico e ineficiências” da Profa. Maria Ligia Barbosa no seminário “Perspectiva sobre desigualdades” ocorrido no dia 02 de abril de 2014, na Pontifícia Universidade Católica (PUC – RJ), organizada pelo Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre Desigualdade (NIED).

Apresento aqui uma breve resenha da segunda mesa do seminário “Perspectiva sobre desigualdades”. Numa primeira parte vou sintetizar a apresentação da professora Maria Ligia Barbosa (UFRJ), sobre o tema “Desigualdades sociais no Ensino Superior: viés acadêmico e ineficiências”. Em um segundo, vou tecer alguns comentários críticos dessa apresentação.

Maria Ligia Barbosa, professora do Departamento de Sociologia da UFRJ, iniciou sua apresentação questionando o funcionamento do sistema de ensino superior brasileiro. Os pontos básicos das suas colocações apontaram para a questão: “o quanto de modernidade e democracia nós podemos medir nesse “novo” ensino superior?”. “Novo” no sentido de um ensino repleto de ações afirmativas e de um número de diplomas e produções acadêmicas jamais vistos antes. Para conseguir dar conta do questionamento, a pesquisadora parte dos trabalhos do seu novo grupo de pesquisa, que levantará diversos pontos importantes, dentre os quais gostaria de destacar:

1) A importância de compreender claramente a questão do retorno econômico do ensino superior para o país.  Como o ensino superior é, segundo a pesquisadora, “o único a apresentar retorno positivo em torno do rendimento econômico”, é um campo que merece muita atenção das pesquisas. Apresentou então a relação entre o rendimento econômico de algumas pessoas entrevistadas pelo seu grupo de pesquisa e a escolaridade delas. O resultado geral, exposto pela professora foi que “quanto mais rico era o sujeito, menos ele considerava a educação um determinante para a sua situação econômica”.

2) A divisão entre os cursos de bacharelado e “o resto”, ou seja, licenciaturas, cursos formadores de tecnólogos etc. A professora ponderou que os bacharelados são sempre mais valorizados e considerados cursos melhores, isso por conta da dominação de uma elite que ainda interfere diretamente no sistema de ensino. A pesquisa aponta até agora a preferência quase absoluta dos alunos pelo bacharelado. Os demais cursos são considerados como de menor prestígio, tendo sempre a menor valorização para os cursos técnicos em detrimento de todos os outros, como o de licenciatura por exemplo. Um dos exemplos impactantes de Maria Ligia foi, inclusive, a citação de uma frase de um colega de trabalho. Seus alunos lhe contaram que um de seus professores disse em sala “não mudem para o curso de licenciatura, esse é um curso de pobre, não vale a pena”.

3) Seguindo a apresentação, a pesquisadora colocou um ponto teórico como uma das bases do seu estudo. Ela apresentou a “pedagogia do cultivo”, de Weber, da seguinte forma:

 Orientação dominante entre os pesquisadores da educação brasileira, a pedagogia do cultivo caracteriza-se por: a) Ignorar a divisão técnica do trabalho, inclusive no campo científico. Como exemplo, a professora falou sobre como são aceitas as opiniões e publicações de cada área de conhecimento. Ela disse: “se um professor de química publica um artigo falando da sociedade é bem aceito, mas se um sociólogo tenta entrar no campo acadêmico da química não”. b) Propor formações enciclopédicas e superficiais. Para exemplificar a segunda questão, a professora afirmou que o ensino superior está “obedecendo” uma divisão social do trabalho que “forma especialistas em nada”. Ou seja, produções cada vez menos consistentes, cada vez mais repetitivas, feitas por colegas de trabalho que não “se leem” entre eles e produzem essa repetição de conteúdo como resultado de uma educação falha.

Essa realidade acaba derivando no que a professora chama de “dialética entre o conteúdo dos saberes e a força dos títulos” e “domínio da credencial em detrimento do mérito”. Maria Ligia Barbosa ainda coloca que a “instituição escolar aparece como mecanismo de legitimação da herança social” e que “diplomas superiores tem valor meramente posicional”, afirmando que há muito mais espaço para o título do sujeito do que para o seu saber propriamente dito.

4) Como conclusão, a professora expus algumas das ineficiências presentes no Ensino Superior. São elas: a) As formas específicas de produzir e distribuir ciência; b) A dificuldade em acompanhar a evolução técnica da divisão social do trabalho; c) A falta de inovação nas publicações acadêmicas; d) E o ponto chave de sua apresentação: somos uma universidade (uma, dita nesse contexto como representação de todas as universidades) dos coronéis. A universidade é marcada pela lógica do coronelismo. Para esse ponto final a professora fez a colocação de que “é uma hipótese trágica, mas que merece ser discutida”.

Sobre as minhas reações enquanto parte da audiência da fascinante apresentação de Maria Ligia Barbosa, seguem alguns comentários.

Presenciamos um momento histórico em que entra em foco o questionamento da qualidade do processo de aprendizagem no ensino superior. A escolaridade de alunos supostamente vindos de um ensino defasado (os cotistas) complexificam ainda mais uma realidade que já era de difícil análise sociológica. Os professores que já teriam o trabalho de preparar a aula, estar “por dentro” dos temas atuais debatidos em congressos da sua área e atingir um alto número de publicações semestrais, se deparam com alunos com diferentes graus de aprendizagem e realidades socioeconômicas que agravam a disparidade no processo de ensino. Claro que essa realidade é posta em pauta na agenda da sociologia atual, apesar de até agora não observarmos significativas assistências (inclusive econômica) para os docentes.

Questionar o quanto de modernidade e de democracia podemos esperar desse “novo” ensino superior, seria questionar, portanto, o quanto a realidade sociopolítica brasileira interfere e influencia as bases da nossa educação. A professora Maria Ligia abriu as suas colocações levantando a necessidade para refletir sobre as ineficiências e problemáticas sociais mais gerais e complexas possíveis com apenas uma pergunta analítica: “o quanto de modernidade e democracia nós podemos medir nesse “novo” ensino superior?”.

A respeito do ponto que trata do retorno econômico, mais uma vez a pesquisadora consegue de forma sintética apontar para uma realidade comportamental de boa parcela da nossa sociedade. Quem, como eu, faz estágio docente em escola pública, e convive com alunos desestimulados de um ensino médio ineficiente, que ingressam em universidades ainda mais desestruturadas, sabe como é difícil seguir até o final da formação universitária. Quando um estudante tem uma boa estrutura física (boa moradia que permita um bom ambiente de estudo) e econômica (dinheiro para passar dias inteiros na faculdade – contando com alimentação, passagem, xerox do material pedido pelas disciplinas, etc.) tornam-se maiores as suas chances de completar a sua graduação, mestrado e outros cursos.

Em conjunto a essa realidade de melhor estrutura física e econômica garantindo maiores chances, para aspirar cargos mais bem remunerados do mercado, é indispensável ter não apenas graduações completas, mas contar também com cursos de línguas, mestrados, MBA’s, entre outros. Entretanto, como citou a pesquisadora, “quanto mais rico era o sujeito, menos ele considerava a educação um determinante para a sua situação econômica”. Mais uma vez, de forma sintética e astuta, a professora chamou atenção para uma grande contradição entre a avaliação da elite sobre o contexto econômico relacionado ao educacional, e a realidade social brasileira.

Partindo para o segundo ponto, como aluna de licenciatura observo constantemente a marginalização do curso, no sentido pôr a licenciatura à margem – de forma periférica- do sistema educacional do IFCS. Nesse momento da apresentação, a professora apresentou o seguinte tópico: “As formas dominantes dos processos educativos na sociedade brasileira: as concepções mais fortes acabam se expressando nas práticas e no funcionamento do ensino superior.”

Unindo esse assunto com os pontos apresentados anteriormente, interpretei as “concepções mais fortes” como a ideia mais tradicional de como funcionava a academia no passado. Tais concepções estariam ligadas a acadêmicos sendo membros da elite responsáveis por pensar os pontos chaves de funcionamento da sociedade obedecendo a divisão social do trabalho, cada um com a sua contribuição. Licenciados e tecnólogos não “dariam conta” de desenvolver reflexões consistentes estando ocupados em dar aulas ou trabalhando em serviços técnicos. Ou seja, as ocupações cotidianas que a formação de licenciatura e cursos técnicos daria aos profissionais formados, impediria que eles tivessem tempo para refletir de forma tão eficiente quanto os alunos de bacharelado que se dedicariam somente a essa tarefa.

Tais “formas dominantes” que se expressam no ensino superior são vivenciadas por exemplo, por alunos do curso noturno de licenciatura de ciências sociais da UFRJ que trabalham durante o dia e conciliam-no com a faculdade à noite. Aqueles que, por exemplo, se encontram atualmente no penúltimo período, e estão desde o início da graduação dispostos e preparados para trabalhar em algum projeto de iniciação científica, se deparam várias vezes com falta de oportunidades, já que a maioria (se não todos) os professores que orientam o funcionamento de ICs não recebem estrutura e apoio da universidade para estarem à noite nas universidades orientando os alunos e seguindo com os projetos.

Já sobre o ponto da divisão técnica do trabalho, tenho algumas reações. Maria Ligia Barbosa, mais uma vez, colocou de forma prática e clara as questões sobre o assunto. Para quem convive no ambiente universitário é clara a valorização dos cursos de exatas em detrimento aos cursos de humanas. Ouvir uma professora e pesquisadora de uma das maiores universidades do país, que tem atuado como consultora da CAPES, que essa diferença é tão marcada foi um momento importante para o seminário. Partindo então desse estímulo, sobre o ato de ignorar a divisão técnica do trabalho no campo científico, tenho como estudante mais alguns exemplos. Fica clara a diferenciação feita entre os cursos observando as questões práticas e físicas da organização dos cursos dentro da UFRJ. As bolsas dos alunos de engenharia, por exemplo, ultrapassam em alguns casos, mil e quinhentos reais, enquanto que a bolsa máxima para alunos de ciências sociais chega a quatrocentos reais. Além disso, a estrutura física na Cidade Universitária, campus da UFRJ que acomoda alguns cursos (em sua maioria de exatas) conta com um bandejão, a maioria das salas equipadas com ar condicionado e projetores multimídia. Já no IFCS e no Campus da Praia Vermelha (unidades em que são maioria os cursos de humanas) são minoria as salas que possuem os equipamentos citados.

                Do início ao fim de sua exposição a professora Maria Lígia Barbosa tomou para si a atenção de todos os espectadores presentes, os manteve interessados até a hora do debate final, ocorrido depois das apresentações, fazendo o link entre o público e a mesa.Sua apresentação contemplou pontos cruciais e básicos para entender sociologicamente o ensino superior brasileiro, e serviu como inspiração não só para mim, mas para muitos estudantes ali presentes, que comentaram a respeito na saída da sala do evento. Refletir sobre tais temáticas que rondam a vida universitária se tornou uma tarefa muito mais simples depois de ter uma pesquisadora que conseguiu dar conta de expô-los de forma tão sistemática e completa.

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2 comentários em ““Desigualdades sociais no Ensino Superior: viés acadêmico e ineficiências””

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