Hebe Vessuri: Uma vida devotada às Ciências Sociais Latino-Americanas

Por: Daniel Máximo

Anualmente, a Society for Social Studies of Science (SSS) concede o Bernal Prize a um estudioso cujas contribuições para esse campo de estudo foram notáveis. Esta é uma premiação de grande relevância, pois muitos de seus vencedores foram pesquisadores e pesquisadoras que devotaram suas vidas e estudos ao que a agremiação compreende como “o entendimento das dimensões sociais da ciência e da tecnologia”.  Entre os vencedores mais conhecidos estão figuras de grande influência na construção dos paradigmas norteadores do conhecimento científico contemporâneo, tais como o físico americano Thomas Kuhn e os sociólogos John Law e Bruno Latour, principais formuladores da chamada teoria ator-rede.

Este ano, a SSS ofereceu a honraria à antropóloga social argentina Hebe Vessuri. Costumeiramente, Vessuri é reconhecida sob o rótulo de “exilada”, em função dos diversos países em que residiu, por vontade própria ou fugindo de regimes autoritários. No entanto, deve-se levar em consideração que suas contribuições ao desenvolvimento e à institucionalização do conhecimento nas ciências sociais em âmbito é vasta.

Além de ajudar a fundar programas de graduação em Estudos de Tecnologia e Ciência (STS) na Venezuela e no Brasil, e a Associação Latino Americana de Estudos Sociais de Ciência e Tecnologia (ESOCITE), Vassuri presidiu ainda a comissão de Ciência e Tecnologia do Conselho Latino Americano de Ciências Sociais (CLACSO’s) e a da Reitoria da Universidade das Nações Unidas. Não obstante, foi vice-presidente da União Internacional de Ciências Antropológicas e Etnológicas (IUAES) e participou de maneira significativa da Comissão de Ética na Ciência da UNESCO, do Conselho Internacional de Governança de Risco (IRGC), do Programa Internacional Para o Desenvolvimento Humano (IHDP) e do Conselho Internacional de Ciências Sociais (ISSC). Simultaneamente, a antropóloga compõe o corpo editorial de diversos periódicos científicos, tais como o argentino “Redes” e o venezuelano “Interciencia”.

Atualmente, é pesquisadora emérita do Centro de Estudos Sociais de Ciência do Instituto de Investigação Científica (IVIC) na Venezula, pesquisadora junto ao Centro de Pesquisa de Geografia Ambiental (CIGA) da Universidade Nacional Autônoma do México, e relevante pesquisadora do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (CONICET) no Instituto de Ciências Humanas e Sociais na Patagonia, ambos da Argentina.

Em paralelo, Vessuri é autora e editora de 31 livros, e centenas de artigos, capítulos de livros e relatórios governamentais escritos em inglês, espanhol, francês e português. Seu trabalho foi classificado pela SSS como “pioneiro” dentro do ramo da Antropologia da ciência, e é sustentado por vasta experiência de campo através de toda a América Latina. Nos termos do comitê responsável pelo oferecimento do prêmio, “as análises de Visseri acerca do papel da ciência em sociedades plurais dialoga fortemente com questões presentes no coração da política contemporânea ao redor do mundo”

Com base nisso, a entidade considerou ainda que suas produções, em especial seu livro “Perspectivas Latinoamericanas en el Estudio Social de la Ciencia, la Tecnología y la Sociedad” (2014), tido como um marco para as ciências sociais latino-americanas, oferecem um panorama amplo e atualizado do referido campo, seus desafios e direções futuras.

Não obstante, chamou a atenção da SSS o fato de muitos dos colegas de Vessuri sempre enfatizarem a escolha da pesquisadora em credenciar-se e desenvolver seus trabalhos junto a instituições universitárias do Sul Global, mesmo tendo em mente todas as dificuldades que isso poderia lhe acarretar ao longo de sua trajetória acadêmica. Essa decisão acabou, ainda segundo a entidade, por moldar todo o prestígio do qual a pesquisadora usufrui atualmente.

Fiel à clássica crença acerca da possibilidade de transformação da sociedade de modo positivo através do conhecimento científico, Vessuri acredita que nos dias atuais estamos diante de novas formas de se fazer ciência, que necessariamente vão torna-la mais colaborativa. Mesmo jamais aceitando pontos de vistas conclamados por visões de governo, já ressaltou em entrevista dada ao jornal “O Globo”, entretanto, que lamenta o fato de nunca votado. Acredita em um engajamento político necessário por parte do cientista.

Para Vessuri, o papel da ciência envolve uma disposição epistemológica em encontrar soluções eficientes para os problemas da sociedade em que ela está sendo feita, com ênfase na desigualdade. Diz ela que a sustentação do progresso científico a partir da competição entre pares é um entrave na consecução desse projeto.

Suplementando progressivamente a ideia de soberania científica, a pesquisadora sustenta que a noção de redes é fundamental para pensar o fazer científico de hoje.

A mudança de cenário operacionalizada a partir desse fenômeno acarretou, para Vessuri, um sentimento de crescente insatisfação para com o que denominou como “uma forma reducionista de se fazer ciência”, a qual pressupõe uma obrigatoriedade de se publicar um grande número de artigos em revistas científicas internacionais. A estudiosa acredita que esse modelo científico mina a criatividade de muitos cientistas e retira deles a responsabilidade em produzir conhecimento em prol dos dilemas que a sociedade os coloca. Do seu ponto de vista, a forma predominante de se fazer ciência hoje impõe um contraste entre esse projeto sensível às questões locais e as chances de integração e reconhecimento internacional junto ao mainstream acadêmico do Norte Global.

Notamos desse modo que o trabalho de Vessuri representa não apenas um marco no desenvolvimento das ciências sociais latino-americana. Na realidade, ele é, antes de tudo, uma demonstração da necessidade em fortalecer e expandir, no âmbito das comunidades acadêmicas periféricas, projetos de integração, tradução e circulação de publicações e discussões.

Caminhos que conduzem o conhecimento

Por Miguel Mendes

Não há produção de conhecimento sem circulação. Circulação de ideias, de materiais, de dados, de livros, de pessoas… a lista é muito extensa para esse breve post. Em mais uma postagem no C/A sobre o trabalho da socióloga Wiebke Keim, debaterei como essa circulação se dá no âmbito das ciências sociais; como ideias circulam, sob que eixo, quem as recebe e quem as distribui.

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Discutindo o sexo dos anjos: um olhar sobre a intersexualidade

Por: Mayara Farage.

Vivemos numa sociedade que divide e classifica os indivíduos de maneira binária: homens/mulheres. Porém esta divisão, que foi criada, encontra-se frente ao desafio de categorizar um terceiro grupo: os indivíduos intersex. Bebês que nasceram sem genitais definidos, que não se apresentam com genitais tanto do masculino quanto do feminino. Eles representam, diante desta divisão feminino/masculino, uma terceira possibilidade: a de indivíduos que não podem ser classificados pela limitada separação dicotômica que a nossa sociedade faz. E é sobre estes que Paula Sandrine Machado fala no seu artigo: “ O sexo dos anjos: um olhar sobre a anatomia e a produção do sexo (como se fosse) natural. “

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“Não fale em crise, trabalhe” – Acumulando funções em tempos difíceis

Por Vinícius Volcof Antunes

Como muitos devem lembrar, a esdrúxula frase acima foi proferida pelo Presidente da República, Michel Temer, em seu primeiro pronunciamento oficial[1], na aparente tentativa de acalmar os brasileiros diante da crise econômica que ameaçava a empregabilidade no país. Quase um ano depois, apesar da reversão de certos índices econômicos, a taxa de desemprego alcança 13,7%, ou cerca de 14,2 milhões de pessoas (IBGE, 2017[2]). Dentro do escopo da produção científica nacional, três movimentos podem ser associados a esse cenário de inseguranças: dificuldades financeiras ou falência de instituições públicas de ensino e pesquisa, como a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ); cortes de financiamento nos órgãos de fomento, como no CNPq [3]e o atraso cumulativo das bolsas da Farperj[4]; e a contingente articulação dos profissionais em protestos e paralisações, como na recente Marcha pela Ciência[5], ocorrida em contexto global.

Nesse texto sugiro como a recessão econômica que atinge diretamente o emprego e a produção nacionais também expõe um duplo caráter das ciências sociais e de seus agentes, que teriam que cumprir a demanda de “explicar” ou “dar respostas” a fenômenos complexos de um mundo em rebuliço, ao mesmo tempo que eles mesmos vivenciam os efeitos dessa instabilidade. Assim, subvertendo a epígrafe presidencial, a ciência social seria aquela que trabalha falando de crise, tendo indissociável uma da outra.

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Nas Trincheiras da Dependência: A Relação “Centro-Periferia” nas Ciências Sociais Brasileiras

Por Daniel Máximo

Desde meus primeiros períodos no curso de graduação em Ciências Sociais, quando fui exposto às teorias sociológicas clássicas e contemporâneas, venho me perguntando, talvez de maneira ainda um tanto quanto inocente, por que os autores cujas produções teóricas dentro do campo da Sociologia adquirem um alcance global se encaixam quase todos em um mesmo perfil: Homem, ocidental e proveniente de universidades europeias ou estadunidenses. Continuar lendo Nas Trincheiras da Dependência: A Relação “Centro-Periferia” nas Ciências Sociais Brasileiras

Universalizando o local ou localizando o universal

Por Miguel Mendes

Quantos autores do Sul Global você leu esse ano? Quantas referências teóricas não-ocidentais você possui? Quantas teorias brasileiras você estudou recentemente? Com base no artigo “Social sciences internationally: The problem of marginalisation and its consequences for the discipline of sociology“, da socióloga alemã Wiebke Keim, tentarei explicar estas e outras questões relativas ao modo como o conhecimento sociológico circula internacionalmente.

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Contra o gênio individual

Por Edmar M. Braga Filho

 

Frequentemente associada à imagem de uma pessoa solitária e introspectiva, a atividade intelectual evoca a crença de que a criatividade é exclusiva e singular. Ainda que poética, ela ofusca alguns aspectos que devem ser abordados. Como a figura do artista perturbado ou hipersensível, essa representação superestima o gênio individual, invisibilizando o caráter coletivo da produção do conhecimento. Além disso, ignora a complexidade da rede que está presente no cotidiano do afazer acadêmico. E é sobre isso que esse texto irá refletir. Continuar lendo Contra o gênio individual

Olhares das Ciências Sociais sobre a produção do conhecimento