As diferenças como alternativa

Por Mayara Abrahão,

O que é universal e o que é particular? Segundo o teórico político Ernesto Laclau (2012), o universal é um particular tornado hegemônico. Assim, todas as identidades são particulares, ou seja, todas as culturas possuem formas particulares e próprias. O universalismo é uma maneira de dominação, porque classifica as diferenças como desvios. No mesmo sentindo, ao tratar da “invenção” da América Latina, o intelectual argentino Walter Mignolo (2008) demonstra o estabelecimento da diferença racial, a partir de um ideal universal de humanidade baseado no homem branco europeu, como principal forma de dominação e apagamento de identidades.

A discussão sobre universal e particular se apresenta de forma complexa, visto que as relações contemporâneas estão baseadas na diferença. O desenvolvimento do chamado Ocidente se deve a essa divisão, portanto, pares como universal/ particular ou moderno/ colonial possuem uma relação de interdependência, onde um não pode existir sem o outro. A proposta de Mignolo é a de que se criem pensamentos resistentes (“fronteiriços”), contra-hegemônicos que, em vez de negar a modernidade, evidencie-se o “outro lado”. Continuar lendo As diferenças como alternativa

As lutas das mulheres numa era global

Por Barbara Grillo e Ed Machado

e32 (1)m um mundo cada vez mais globalizado, a emergência de conflitos tem constituído desafio não só para os movimentos sociais, mas também para a própria sociologia. Pensando nos processos globais e  a construção de identidades políticas, ações coletivas e como se estruturam os movimentos sociais, procuramos fazer algumas reflexões sobre processos dentro do movimento feminista contemporâneo. Para isso, utilizaremos a perspectiva de sociedades globais, como também análises sobre a formação de identidades coletivas na globalização e o conceito de individualização. Pensando os feminismos como uma mobilização heterogênea, ressaltaremos os paradoxos emergentes nesses movimentos, observáveis globalmente.  Além disso, enfatizaremos a importância dos processos individualizatórios para a percepção das mulheres como uma classe, relevante para a formação de movimentos sociais protagonizados por essas mulheres. Continuar lendo As lutas das mulheres numa era global

Modernidade Anacrônica

Por Mayara Abrahão,

A partir das discussões sobre colonialidade e pós-colonialismo, compreendemos que a construção do imaginário social atravessa diversas esferas, como a política, a economia e a cultura. Podemos pensar a cultura e a arte sob a perspectiva pós-colonial, compreendeendo tanto a influência do pensamento colonial sobre as expressões artísticas e culturais como também a contribuição destas na formação de uma (ou muitas) identidade coletiva.

A cultura, como defendem autores como Aníbal Quijano e Aimé Césaire, é uma esfera de ressignificação de valores e de criação de sentidos que constroem identidades. Por isso, a Sociologia da Cultura pode contribuir em debates pós-coloniais, oferecendo ferramentas para a compreensão de fenômenos políticos, históricos e sociais. A partir da discussão promovida pelo historiador da arte Luiz Camillo Osorio podemos avaliar o significado das expressões artísticas no Brasil nos últimos cinquenta anos como respostas não só ao modelo tradicional de arte, mas ao pensamento colonial. A arte e a cultura têm papel fundamental tanto na representação de normas como no questionamento e na transformação destas. Continuar lendo Modernidade Anacrônica

O legado de Neide Esterci às ciências sociais

por Vinícius Volcof Antunes

No último dia 20 de junho, o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ recebeu o seminário A contribuição de Neide Esterci para os estudos rurais e ambientais no Brasil, organizado pelo Núcleo de Desenvolvimento, Trabalho e Ambiente (DTA) do departamento de ciências sociais da instituição. Na ocasião, colegas de longa data, parceiros de pesquisa e orientados acadêmicos puderam homenagear uma das pesquisadoras mais relevantes da antropologia rural e ambiental brasileira, autora de mais de nove livros e vinte e cinco artigos, que este ano aposentou-se de suas funções.

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Ciências sociais e as pesquisas em saúde no Brasil

Por Aurea Thatyanne Ferreira

Uma das principais características do campo das ciências sociais é a sua amplitude de temas. Sendo diversos, seus objetos de estudo podem adquirir um caráter interdisciplinar. O tema da saúde é um desses exemplos e, embora vasto e complexo, a análise das ciências sociais em saúde ainda é pouco presente no ensino institucionalizado da disciplina no Brasil. O artigo O campo temático das ciências sociais em saúde no Brasil, da professora doutora Aurea Maria Zöllner Ianni, da Faculdade de Saúde Pública da USP, aborda esse domínio específico na área, introduzindo o leitor aos seus contextos sócio-históricos, entre outros tópicos. Continuar lendo Ciências sociais e as pesquisas em saúde no Brasil

Especificidades e autonomia na ética em pesquisa: entrevista com Luiz Fernando Dias Duarte

Por Ed Machado e Leonel Salgueiro

O tema da ética em pesquisa nas ciências humanas e sociais já foi abordado diversas vezes pelo C/A. De fato, nos últimos meses o debate em torno da criação de um conselho específico para essas áreas ganhou mais atenção, mobilizando grande parte da comunidade acadêmica. Após anos de trabalho e negociação, foi aprovada a resolução que regula a pesquisa em ciências e sociais, em abril deste ano. Contudo, ainda há alguns aspectos pendentes para a sua implantação, conforme podemos verificar na página do Comitê de Ética em Pesquisa nas Ciências Humanas, que acompanha o processo. Além disso algumas modificações foram feitas pelo Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). O antropólogo Luiz Fernando Dias Duarte esclareceu alguns pontos acerca do texto aprovado pelo Conselho, como pode ser visto aqui, e refletiu sobre novas vias de atuação.

Em entrevista ao Circuito, Dias Duarte esclareceu alguns pontos sobre o debate, ainda pertinente. A questão da ética em pesquisa pode ser vista como permeada por dois eixos: a especificidade das ciências humanas e sociais em relação às ciências biológicas, e a sua autonomia institucional. Esses dois pontos foram levantados em nossa conversa. Confira! Continuar lendo Especificidades e autonomia na ética em pesquisa: entrevista com Luiz Fernando Dias Duarte

A encruzilhada da Antropologia e da Filosofia, o caso de Kant

Por Raphael Lebigre

É sabido que as ciências sociais, disciplina que marca sua fronteira com as demais áreas a partir do século XIX, têm por base a filosofia, mãe de todos os conhecimentos ocidentais. Apesar da paixão que alguns possuem em estudar as sociedades, não é incomum na cultura acadêmica brasileira a falta de profundidade entre a disciplina sociológica e o pensamento do “amor pelo saber”.  Um exemplo claro está na base frágil de filosofia entre os nossos alunos graduandos.  Na tentativa de utilizar a filosofia para entender a antropologia, proponho apresentar em poucas linhas a visão de Emmanuel Kant (1724-1804) sobre a disciplina, situada no seu livro: “Antropologia a partir de um ponto de vista pragmático”, publicado em 1798. Continuar lendo A encruzilhada da Antropologia e da Filosofia, o caso de Kant

Olhares das Ciências Sociais sobre a produção do conhecimento